A luz no fim da projeção
“Luzes do Além”, como se pode notar pelos nomes quase homônimos, é uma espécie de “pseudo-continuação” de “Vozes do Além”, filme de terror lançado com relativo sucesso em 2005. Em comum, ambos traçam um paralelo com fenômenos “reais”, como os espíritos que se comunicam com o mundo dos vivos, através de aparições em vídeos/gravações (“Vozes”) e os relatos de “quase-morte” (“Luzes”), quando uma pessoa é considerada clinicamente morta e volta à vida graças à “ressurreição” assistida pelos paramédicos. E só.
Infelizmente, “Luzes” apenas "flerta" com o tema, que lhe serve como estopim para sua verdadeira história - sobre um homem, que após enfrentar tal experiência, adquire o dom de prever quais pessoas estão para morrer. Lamentavelmente, existem dois erros básicos que matam a película logo de cara, um é o roteiro, bem fraco, cheio de questões mal explicadas e/ou absurdas (risíveis, mesmo para produções deste porte). Contudo, se isso já não bastasse, outro equívoco é ainda mais grave. A história é muito mal contada. Culpa de Patrick Lussier, que dirige um assunto tão delicado com a sutileza (e astúcia) de um elefante pilotando a câmera.
O diretor, na verdade em ex-editor de horror movies (como “Pânico 3”), constrói uma péssima perspectiva para sua paupérrima narrativa. Pois parte do principio em que tudo é contado (e ritmado) pelas trucagens da edição, não pela linguagem cinematográfica. Nada de surpreendente para quem já cometeu “heresias” como o absurdo “Drácula 3000”. A questão é que Lussier aposta nas “técnicas editoriais” para sustentar sua narração - dividindo imagens em um mesmo quadro, fazendo sobreposições e correndo de um ponto a outro - cortando uma porção de passagens, que - com certeza - renderiam cenas melhores dos que as que foram filmadas.
Basicamente, a estrutura aplicada (na montagem do longa) ignora as conseqüências imediatas dos principais eventos. A cena seguinte costuma ocorrer muito tempo depois da anterior, ignorando o que se passou entre elas. Com isso, acaba-se picotando o enredo e relegando ao ostracismo situações (e informações) que seriam preciosas nas mãos de um diretor (verdadeiramente) do ramo. Evidentemente, o resultado é um produto falho, que não se paga pela história e muito menos pela forma como ela é contada.
Normalmente, toda produção tem um lado bom. E ruim. Lógico que existem os extremos, alguns totalmente bons ou “abaixo da crítica”. Confesso que este pode ser um caso onde nada vale uma palavra (que seja) de elogio. Talvez, alguns sustos esporádicos mereceriam uma nota, mas nem tanto. As partes amedrontadoras (sempre pregadas pela edição) são jogadas na tela aleatoriamente. Nem se prezam a avançar ou acrescentar algo à trama. Existem apenas para assustar. Como a provocada pelas “interpretações” do desconhecido elenco, incapaz de derramar qualquer lágrima mesmo quando lhe são aplicados um colírio especial (usado por atores/atrizes para este propósito).
Conseguindo a proeza de ser assustadoramente conduzido, este filme é um daqueles que provocam pesadelos - principalmente nos que gostam de cinema e boas obras do gênero. Criando, para infelicidade de seu público, uma sensação de tristeza e “quase-morte-cinematográfica” que dura até o letreiro final aparecer (e nos salvar do tédio). Nunca pensei que uma sessão de horror fosse tétrica a este ponto. Poupe-se desta desgraça (faça sinal da cruz) e passe longe.

