Os problemas sociais do cinema nacional
“Por que com tantos problemas urgentes e falta de verbas para as coisas mais básicas, o governo destina cotas para a produção cinematográfica?”
A resposta não é das mais fáceis, convenhamos. O senso comum responderia que tal atitude é absurda, como podemos pensar em fazer cinema em um país onde muitas pessoas sequer têm saneamento básico? "O Filme”, felizmente, trás algumas respostas. Na história, moradores de uma pequena cidade gaúcha não conseguem a verba necessária para limpar o rio que cruza sua cidadezinha. A única cota disponibilizada pela prefeitura é para um filme, que precisa ser realizado ou os 10 mil reais investidos pelo governo terão que ser devolvidos. Sem opções, resta aos habitantes se contentarem em realizar o tal vídeo - da forma mais barata possível - e usar as sobras para completar a obra de que tanto necessitam.
É assim que o diretor Jorge Furtado (“O Homem que Copiava”) descreve o atual panorama do cinema nacional. Mais do que uma comédia, seu novo longa enamora com a metalinguagem para falar sobre nossa própria cinematografia. Tudo neste filme é cômico e verdadeiro. A começar pela crítica feita ao patrocínio à cultura. Sempre controversa - e suscitando o questionamento que abre esta resenha. Comandados pelos personagens de Fernanda Torres e Wagner Moura (cada um mais fantástico do que o outro), o grupo local apenas quer obter a grana federal (como muitos péssimos profissionais da área). Realizando a peça audiovisual exclusivamente para “prestar contas” e conseguir a construção de um fosso - para os dejetos jogados nas águas do riacho.
Assim, através do “filme dentro do filme”, que somos colocados dentro da sétima arte brasileira. Na aventura fictícia para a produção do mandrake “filminho beneficente”, até mesmo as falas são dúbias - expressam tanto a situação que vemos nas telas quanto aquilo que ocorre nos bastidores de nossa produção cinematográfica. Em determinado ponto se diz que só as “bobagens” são boas para serem filmadas (Chanchada?). Outro comenta que a qualidade é o de menos, vai ser destinado “pra crianças” mesmo (Xuxa?). Até mesmo algumas situações emulam a vida de nossos cineastas. Muitos vão se identificar com o “preciso trabalhar, não tenho tempo para ficar fazendo cinema”. Afinal, tal atividade não costuma dar grana.
No processo de realização da ficção “O Monstro do Fosso”, cada cidadão envolvido vai se conscientizando, paulatinamente, sobre o quanto é importante (e difícil) fazer filmes que prestem. (Aqui, um recado explícito: este é o mínimo que se espera daqueles que usam verbas públicas). Aos poucos, vão tomando ciência das várias etapas que compõem a realização de um curta-metragem. Descobrindo a linguagem, os takes, as dificuldades de filmagem (as gravações e as cenas obtidas são hilárias) e os benefícios da edição bem realizada. Em um exercício que transforma os (até então) pacatos cidadãos em apaixonados cineastas. E este é o ponto de virada (inclusive para o público).
Logo, o esforço para se fazer uma boa história (sobre um monstro sci-fi que faz até dança da vitória!) se torna genuíno. (A dificuldade dos “realizadores” com o termo “ficcional” exemplifica a "necessidade" de focar a “realidade” nacional - um drama que asfixia nossa cinematografia também na vida real). A paixão pelo cinema desperta a tal ponto de vendererem bens pessoais para incrementar o investimento na historieta fictícia (muitos cineastas - igualmente abnegados - vão se identificar com tal prejuízo).
No final, todos querem (realmente) resolver a questão da melhor maneira possível. Seja colocando a cultura ou os problemas sociais em pauta. Ambos são importantes. E este é o grande recado de “Saneamento Básico”. Temos questões graves que precisam (e devem) ser tratadas (como o esgoto), entretanto, deixar de investir em outras áreas pode ser mais prejudicial ainda. Só garantiremos nosso futuro - a maior preocupação dos humildes vizinhos do rio poluído - quando pudermos (junto aos órgãos competentes) promover tudo o que ocorre dentro e fora das telas. Igualmente. E quanto a isto, Jorge Furtado está de parabéns. Não só fez um longa-metragem dos mais engajados e comprometidos com o bem (do país e do cinema), como também, bom brasileiro que é, entregou de brinde uma comédia exemplar.
Só escorrega um pouco perto do fim, quando resvala (e brinca) com o “apelo sexual” típicos da produção latina. O humor extraído deste trecho é muito nonsense, apesar de arrancar gargalhadas, principalmente quando Camila Pitanga é ovacionada por uma platéia menor de idade. Independente deste escorregão, tudo volta aos trilhos quando Paulo José entra em cena (com seu eterno carisma) e fecha a cortina com brilhantismo. Sem dúvida, este é melhor exemplar do gênero desde o advento da “retomada”, divertida tanto como autocrítica quanto homenagem à dramaturgia.

