Carros, explosões e robôs gigantes
Chegou o maior “evento-pipoca” do ano. Disparado. Só não sei se podemos considerar isso um bom presságio. Em "Transformers", Michael Bay aplica integramente a cartilha de como fazer filmes “prontos” para o verão estadunidense. É o famoso cinema comercial (com sua força máxima), seguindo à risca uma fórmula já consagrada pelos grandes estúdios norte-americanos. Cuja didática resume perfeitamente como tais produções são pensadas e realizadas:
Primeiro, junte os melhores efeitos especiais da temporada, em seguida, convoque um diretor especialista em cenas de ação com carros, perseguições e explosões. Na seqüência, chame um ator em ascensão e coloque ao seu lado uma das “atrizes” mais “gostosas” do momento. Ah! Não podemos nos esquecer do roteiro, do mesmo nível dos arrotos ouvidos nas salas lotadas de estudantes em férias. E pronto!
"Transformers" é um blockbuster típico, daqueles que não se via há muito tempo (os últimos grandes sucessos do gênero vieram das mãos do próprio Michael Bay). Não por acaso, a tarefa de “transformar” o popular desenho animado dos anos 80 em franquia cinematográfica - com atores reais - recai sobre um especialista nos arrasa-quarteirões acéfalos. Bay é emérito representante desta escola, e como de praxe, produz uma obra com a sua cara.
Sua nova empreitada é recheada de ação, como pede a receita do puro “cinemão”. E este é o maior mérito do longa-metragem estrelado por Optimus e Cia. Carregar no uso da computação gráfica, tirando o fôlego do expectador médio com imagens de pura exacerbação pirotécnica. A forte marca visual, típica do diretor de “Bad Boys”, aparece aqui com toda a força das CGs criadas pela principal empresa da área (a ILM - que chegou a bater o recorde de “tempo para renderização” na construção dos autômatos que aparecem nas telas desta aventura).
Se no quesito ação, o filme diverte bastante, o mesmo não pode ser dito quando prestamos atenção na história. O enredo criado para dar vida aos famosos brinquedos da Hasbro sofre de uma grave falta de massa cinzenta. Trata seu público como se estes tivessem a idade mental de um problemático garoto de 5 anos. A trama aposta em soluções absurdas, sem sentido, de uma acefalia aguda que compromete os próprios robôs, aprisionados em um humor irreverente, exagerado e digno das comédias “escroques” ao estilo "American Pie".
Só que a sorte (ou a competência) foi pródiga em minimizar os efeitos de tamanha bobagem. O astro humano da película consegue entoar cada fala estúpida como se ela fosse travestida do sentido mais profundo. Shia LaBeouf se destaca (aliás, como o rapaz já vinha fazendo) e consegue galgar mais alguns espaços como “ator do momento”. Mesmo estando muito longe da figura do galã típico. O que é muito positivo. Ao seu lado, outro destaque em “carne-e-osso” atende pelo nome de Megan Fox, ela cumpre (muito bem, por sinal) o papel de “colírio” para o público masculino - contudo, nada muito mais do que isso.
Entre carros bacanas (se transformando em robozões gigantes melhores ainda), ótimos protagonistas (um pelo talento, "outra" pela beleza) e visual de primeira, "Transformers" garante entretenimento descompromissado para os adolescentes que lotam os cinemas dos Shopping Centers. Contudo, acaba devendo demais para quem exigir um pouco mais. Não que "algo" envolvendo Megatron tentando dominar o mundo devesse ser sério e carrancudo. Mas não precisavam exagerar tanto - como na cena onde determinado Transformer “urina” em um humano.
Pior mesmo foi tentar mostrar os sempre “heróicos” e “bondosos” soldados americanos sendo bem tratados por uma criança árabe - numa base situada no Qatar. De longe, o maior absurdo de todos. Alienígenas cibernéticos invadindo a Terra? Tudo bem. Mas acreditar na gananciosa falsa “imagem pacifista” do “bem quisto” exército americano? Daí já é demais. Até mesmo para um "filme-pipoca” com o as idiossincrasias inimitáveis de Michael Bay.

