Em um reino tão, tão distante...
Em 2001, uma corajosa rapsódia foi capaz de destituir o príncipe encantado do pedestal heróico. Em seu lugar, um ogro verde, aparentemente ameaçador, que não gozava de nenhuma sutileza ou boas maneiras, assumia como protagonista e salvador do dia. Seu nome? Shrek. Em contraposição à história atípica e pouco provável, o retumbante sucesso da série se derivava justamente da forma inusitada como os contos de fada eram retratados pela ousada narrativa. Sempre inventiva. Alguns anos depois, “Shrek Terceiro” chega aos cinemas com a difícil missão de fechar o primeiro grande arco da saga animada. Garantindo risadas esparsas e sobrevida a uma fórmula que já demonstra sinais de fadiga.
O filme é engraçado (ponto). Os personagens continuam os mesmos, simpáticos, interessantes e divertidos. Principais ou coadjuvantes - mais os últimos do que os primeiros. A questão é que a produção parece ter sentido o baque com a saída do diretor Andrew Adamson (que foi cuidar de Crônicas de Nárnia). Não que o novato Chris Miller não dê conta do recado (principalmente quanto ao visual, volto a comentar sobre isso daqui a pouco), só que a mudança de prumo fica evidente. O estilo dos dois é (bem) diferente, um é mais técnico quanto ao desenho (Miller) e o outro (Adamson) movido pelo caldeirão pop de onde é originário.
A verborragia de piadas visuais (que pipocavam na tela a cada segundo) e as inúmeras referências cinematográficas, antes presentes em doses generosas, são preteridas pela nova direção. Inadvertidamente, pois estes elementos foram essenciais para o sucesso criativo (o primeiro filme chegou a ganhar o Oscar de melhor animação) e comercial (uma vez que eram fundamentais na hora de contentar a parcela mais velha do público - garantindo uma rara e bem-vinda diversão para toda a família). O humor, desnecessariamente, acaba limitado às pontuais piadas textuais, algumas repetições (vide o olhar de súplica do Gato de Botas) e aos típicos arrotos, puns e vômitos, tão presentes nas “pastelônicas” comédias (e animações) americanas.
Nada que atrapalhe demais na hora de dar boas risadas do Homem-Bolacha “se borrando” de medo. Só lamento que a produção tenha se restringido a isto. Apenas. Perdendo um pouco da velha química, que se faz presente a conta gotas, como na revanche das princesas (até então, indefesas). Mas, se algo salta aos olhos na nova produção é a parte técnica. Não raro o expectador se pega babando pelos lindos quadros pintados pela computação gráfica (da pelagem dos cavalos as texturas e fundos extremamente detalhados). “Shrek Terceiro”, assim como seus antecessores, representa mais um salto (gigantesco) na qualidade gráfica das animações em três dimensões.
Nessa etapa, fica evidente que Shrek perdeu muito do seu fôlego. Talvez, não o suficiente para asfixiar este trecho, contudo, o suficiente para demonstrar um processo sintomático que pode prejudicar (sensivelmente) novas empreitadas no futuro. Vide a estratégia escolhida para o próximo filme, que contará a história de origem do personagem título. Uma saída fácil, comum e emblemática - faltam idéias (boas) novas e criativas. Se isso se confirmar, o que sobrará para o (já anunciado) quinto capítulo? Desta forma, será mais fácil se ufanar pelas aventuras solo do Gato de Botas (também em produção) do que pelo episódio padrão com o monstro (às avessas), a patroa e os bebês-ogros.

