O filme mais preguiçoso do mundo
Ironia suprema. O filme do gato mais preguiçoso do mundo faz o público passar minutos desconfortáveis de preguiça e sono diante da tela do cinema... Pena que tenha sido assim, Garfield pode ser um preguiçoso nato e compulsivo, mas o longa tinha potencial para acordar o expectador mais sonolento.
Não que Garfield (o personagem) não seja do jeito que ele sempre foi, ácido, engraçado e de estômago roncando - some-se a isso uma bela recriação em CG do bichano (que contracena de forma convincente com os animais de verdade) - e Bill Murray! O astro, dono de um humor irônico só comparável ao de... Garfield! É inegável, nenhuma outra voz conseguiria entoar a personalidade irreverente do felino tão bem quanto Bill. Então, como o resultado pode ser tão fraco?
Talvez o grande equivoco tenha sido a predileção pelo público infantil, tudo soa bobo e infantilóide, como o romance de Jon (Breckin Meyer), dono de Garfield, com a veterinária Liz (Jennifer Love Hewitt - no papel mais inútil do ano), que está na trama apenas para fazer Jon se apaixonar e adotar o cão Odie. Outro grande problema de "Garfield" (o filme) é a descaracterização, ele não têm o espírito das tiras tão populares. Fica difícil entender como isso foi acontecer sob a tutela de Jon Davis, criador (e uma espécie de alter-ego) do personagem - que esteve envolvido com a adaptação, atuando como produtor para que o diretor Peter Hewitt pudesse ser, justamente, fiel ao material original.
O melhor das HQs sempre foi o relacionamento do gato mais genioso do mundo com o pacato dono, no filme, eles parecem protagonizar histórias diferentes, tirando o início (onde estão as melhores cenas, exatamente por focar a relação entre ambos), não existe interação entre Garfield e Jon. A química entre os dois é deixada de lado enquanto cada um enfrenta seus próprios problemas, Jon quer conquistar Liz e Garfield se livrar de Odie, que ameaça ser o novo "animal de estimação" da casa.
Tudo bem que os realizadores quiseram construir uma trama que fosse além das situações cotidianas das tiras, todavia, substituir as tiradas por uma história sem graça que coloca Garfield numa jornada para resgatar seu desafeto Odie das mãos de um frustrado apresentador de TV (papel de Stephen Tobolowsky), também já é demais. Será que os produtores não poderiam simplesmente se contentar com o material impresso e esquecer desse enredo ridículo? E por que temos que nos privar da única coisa realmente boa do filme, Bill Murray? Pois, no Brasil, a maioria esmagadora das copias são dubladas e a voz de Bill (ops... Garfield) ficou a cargo do ator global Antonio Calloni, que convenhamos, não chega as patas de Murray e não se parece em nada com o focinho de Garfield.
Verdade seja dita, o longa até inpira seu público. Tornando-o capaz de criar e inventar soluções melhores do que as do filme. Não é raro o momento onde você imagina uma piada, ou percebe uma situação onde ela poderia surgir, e o roteiro deixa a chance passar (como quando um dos gatos questiona se "Garfield é um porco?", devido a natureza virtual do personagem não faltaria piadas para brincar com o fato dele ser "bem" diferente dos bichos reais).
Se Garfield consegue, mesmo assim, fazer você rir, isso só acontece porque ele é muito mais do que um dançarino gordo (a dança com o Odie vale uma olhada), ele também é dorminhoco, irônico e (sobretudo) faminto (por um filme melhor).

