Tecendo uma teia especial
Eu confesso, sempre gostei do Homem-Aranha, lia (e ainda leio) as revistas em quadrinhos. Obviamente, adorei o primeiro filme quando ele foi lançado em 2002. Mas o que esperar da continuação? Ser tão bom quanto o primeiro? Para o diretor Sam Raimi isso não era suficiente - o segundo filme tinha que ser superior. E não é que ele conseguiu? Com a mesma equipe e apostando naquilo que já havia de bom no trabalho anterior, Raimi, acrescentou na segunda aventura alguns elementos que agradarão desde o colecionador de gibis mais hardcore ao mais transeunte dos freqüentadores de cinema.
Em termos técnicos, o longa avança no campo dos efeitos especiais proporcionando ao público cenas de ação perfeitamente adaptadas das histórias em quadrinhos. Em um trabalho notável do legendário John Dykstra. Perdoe-me, "X2". Mas a ação (de gibi) do "Homem-Aranha 2" deixa no chinelo a ação (de filme) dos mutantes comandados pelo professor Xavier. O filme também entrega uma roupa de Homem-Aranha mais caprichada e uma trilha sonora mais cativante, com o compositor Danny Elfman deixando nossos ouvidos mais afeiçoados a música tema do herói.
Apesar dessa pujança estética, que consumiu 200 milhões de dólares, o grande atrativo do filme está longe dos efeitos pirotécnicos ou de suas cenas de ação sensacionais. E mais perto do público, com um inusitado enredo intimista, alternativa quase inexplorada pelo cinema pipoca. "Homem-Aranha 2" consegue convencer com personagens fortes, bem caracterizados e desenvolvidos, com uma história (que contou com as mãos habilidosas de Michael Chabon, ganhador do prêmio Pulitzer, e dos criadores do seriado "Smallville", Alfred Gough e Miles Millar) que consegue reproduzir (com uma fidelidade elogiável) o espírito dos comics publicados em meados da década de 70 (ignorando recauchutagens mais recentes como a série Marvel Millenium).
É desta origem septuagenária que nos divertimos com o nerd Peter Parker, provavelmente o cara mais azarado do mundo, bem servido na pele e no jeito todo atrapalhado do ator Tobey Maguire, em sua vida dupla de combatente do crime e fotógrafo do Clarim Diário. Seguindo a trama iniciada no longa passado, Peter ainda está tentando esquecer seu amor platônico por Mary Jane Watson, interpretada pela bela Kirsten Dunst (cada vez melhor), que cansada do gelo dado pelo "tigrão", resolve se enamorar pelo astronauta John Jamerson (Daniel Gillies), filho do truculento editor-chefe e inimigo número um do atirador de teias, J. J. Jamerson (J. K. Simmons). Para completar, o melhor amigo de Parker, Harry Osborn (James Franco), culpa o Aranha pela morte do pai e está disposto a qualquer sacrifício para se vingar. Não imaginando que o herói mascarado é na verdade seu (melhor) amigo - e seu pai, recém-falecido, o vilão Duende Verde - derrotado no primeiro filme.
O que abre espaço para um novo supervilão, Dr. Octopus, personagem de Alfred Molina. Um típico "cientista maluco" que após uma desastrada experiência científica acaba preso nos braços metálicos que utilizava durante o experimento. Se tornando ainda mais "louco" ao saber que o acidente custou a vida de sua amada esposa e que seus novos braços adquiriram vida própria (único exagero do filme, pois diferente dos quadrinhos, aqui, os braços chegam a formar uma dupla personalidade na abalada mente do doutor, lembrando muito o drama existencialista do Gollum em "O Senhor dos Anéis").
É lógico que logo a aranha teria que combater o polvo, daí para frente é uma série de combates (que fazem juz a um dos vilões prediletos dos marvelmaníacos), crises existencialistas do herói (que assim como nos HQs vive as turras entre ser ou não ser o Homem-Aranha), perda de poderes (causado pelo Stress, é sério!) e inúmeras referências aos quadrinhos (como colocar a câmera em certas posições para copiar alguns desenhos clássicos das revistas do escalador de paredes).
O filme até abre com o famoso resumo do capítulo anterior, no traço e na perfeição do melhor desenhista da atualidade, Alex Ross, além de deixar as portas abertas para três novos vilões em uma seqüência - pelo menos um destes ganchos é explícito - com direito a participação de Willem Dafoe, o ator que interpretou o Duende Verde no primeiro filme! Vale destacar também as falas dúbias de tia May (Rosemary Harris), que parece falar para o sobrinho Peter tanto quanto para o herói aracnídeo. Lembrando que, recentemente, foi revelado nos quadrinhos que May já havia descoberto (há muito tempo) a identidade secreta do Aranha e apenas fingia não saber de nada para satisfazer o sobrinho, fato que parece estar sendo muito bem aproveitado por Raimi.
Mas é no fim que "Homem-Aranha 2" prova ser especial. (ATENÇÃO: SPOILER) Na última cena, após descobrir que Peter é o Homem-Aranha, M. J. abandona o noivo, John Jamerson, em pleno altar para declarar seu amor não correspondido no filme passado. Após o casal Parker-Watson finalmente se acertar (e Peter, enfim, poder dizer: "obrigado Mary Jane Watson"), um take tocante encerra a produção - um close no rosto angustiado de Mary Jane - após ter que assistir seu amado partir em disparada para salvar o dia como o "amigão da vizinhança". Afinal, como nos lembra novamente tio Ben (Cliff Robertson), "com grandes poderes vem grandes responsabilidades". Sejamos sinceros, qual blockbuster acaba com uma imagem tão dramática? Revelando mais uma faceta do complicado relacionamento amoroso dos protagonistas e não numa pose heróica? É só olhar qualquer filme-pipoca por aí e conferir. Como Peter Parker dizia no início do primeiro longa, realmente, "essa é uma história sobre garotas..."

