Show da Aranha?
Um ponto de vista que não impressiona
Já passavam das cinco e quinze da tarde daquele sábado, da semana de estréia do filme, quando adentra ao hall da bilheteria um senhor empolgado pelo que se ouvia a respeito da arte de realizar filmes. Uma fila desestimulante o aguardava... “Será que ainda tem pras seis e dez?” Escutava-se dos últimos. Era para onde caminhava este senhor, jovem rapaz, que combinou com os amigos às dezessete horas na praça de alimentação e pegar a sessão das dezoito e dez.
O filme em cartaz é “Homem Aranha 3”. Uma aranha que briga com ela mesma, com o amigo dela mesma, com o assassino do tio dela, com a quase noiva, explora uma vizinha. Zanga-se com o proprietário, com um fotógrafo chato e anda de mobilete. O animal galã-teia uma lourinha, ganha um anel da tia, depois devolve o anel pra tia, é popular, chora muito e gosta de imitar John Travolta.
Por ser o ultimo da fila, o senhor ficou preocupado, pois perderia este espetáculo se não existissem mais bilhetes de entrada. A outra fila de pessoas que foram para a sala de cinema, fazia curva. Se tiver lugar é só na frente - concluiu. Então, é notificado que seus amigos eram os primeiros daquela fila. Ufa! Um bom lugar garantido. Era só ter os ingressos.
O que os esperava era a história de um rapaz comum, sacaneado pelos colegas da escola, picado por uma aranha-bombada (que tomou muito esteróides anabolizantes), que o transformou em Homem-Aranha. Havia lutado com um cara louco e verde, pai de um amigo seu e encarado um cientista que virou polvo. O filho do cara verde gostava muito do pai e não achou bom o Homem-Aranha ter vencido. Agora o amigo virou inimigo, que viria a se vingar e resolver outra questão: uma ruiva “dentes de vampiro”.
O jovem senhor, agora já nas cordas que delimitam a fila do caixa, vê chegar mais um amigo ao final da fila. Relaxou por não ser o único atrasado. E ainda fez a boa ação do dia, retirou os bilhetes do amigo... Nessa hora a sala estava liberada para o público. Todos tomam seus lugares. E os primeiros amigos também, como também reservam as cadeiras dos demorados.
Ingresso carimbado. Todos na sala. Vai começar o filme. Não, falta o refrigerante! Mais fila pro refrigerante... Abaixaram a luz, vêm os primeiros avisos. Trailer. E enfim o conjunto da obra do Evil Raimi. Guia do Tobey “MacGaren” (seria Peter Parker primo segundo do filho de Satan Goss?) numa atuação que é inevitável pensar que mais de dez milhões é muito dinheiro para um ator só. Que muito close nos olhos choramingados parece novela das seis (e dez!). Que precisar ter uma aranha demasiada “santa” para depois "A Coisa" (filme que a crítica dos anos 80 julgou “tão ruim, tão ruim, que acaba sendo bom”) que ficou preta e colou na pele do Parker mudando seu espírito para maligno, foi nobre de um “Homem-Aranha-Cor-de-Rosa”. Título de filme que pertence a outro gênero no Cinema. Que o Aranha pensar em família, casamento. Ouvir conselhos da tia e até escolher um anel. “Ta” novela das seis e dez, das oito e dez, das nove e das dez!
Mas fazer um filme de super-herói pede correr esses perigos. E arriscar é possibilitar por na tela cenas de um homem de areia como nas histórias em quadrinhos: grandes e prontos para impor o caos na cidade. De volta ao filme, o Homem-Aranha se defende do amigo que o culpa pela morte do pai. Descobre que o verdadeiro assassino de seu tio é feito de areia. Disputa uma vaga de emprego num jornal com um fotógrafo impertinente. E acaba recebendo a chave da cidade das mãos da opção loura na história.
O amigo, filho do cara verde, perde a memória com uma pancada que levou da Aranha na cabeça. O homem de areia leva um banho de esgoto e vira lama. A ruiva “dentes de vampiro” é um fracasso da Broadway e não ficou feliz com o fato da lourinha dar para o Peter Parker, pessoa qual tinha um relacionamento amoroso. Só para explicar, Mary Jane odiou ter visto seu amor beijar a moça que deu a chave da cidade para ele diante do povo que clamava um selinho dos dois.
Inconsolável, o Homem-Aranha é dominado pelo mal e ataca amigos e inimigos. Inclusive o fotógrafo e o humilha, mas ele vira o Venom. O filho do cara verde se lembra de tudo e agora quer matar o Peter Parker. Venom fica amigo do homem de areia, que já estava seco. Os dois capturam a M. J. e penduram-na para a morte. O Aranha não tem ajuda e está sozinho para salvar a ruiva contra dois malfeitores. Vai morrer se não é o mordomo do amigo, filho do cara verde. Que não comprou um caminhão de inseticidas para seu patrão matar a aranha e ainda o convence de que Peter Parker, o Homem-Aranha, é um cara legal.
Com a ajuda é o fim dos vilões perigosos e do sofrimento da ruiva-vampira. Os ferimentos no amigo, também conhecido como Harry, são fatais. Resolvendo-se assim todas as questões. Mary Jane e Peter Parker abraçados formam um casal feliz e muito romântico. Exatamente como numa novela das seis.
Para o jovem rapaz, ter assistido ao filme do Pelé foi melhor.

