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A Disney do futuro

DivulgaçãoProvavelmente não era esse o futuro que Walt Disney queria. Não que exista algo de errado com o belo mundo futurista idealizado nesta animação. O problema é mesmo a difícil situação da Disney neste começo de século, quando abandonou o ramo das animações tradicionais para enveredar-se no campo das animações computadorizadas.

Mais uma vez, sem a presença e o selo de qualidade da Pixar (ocupada com suas próprias criações), o resultado, pra dizer o mínimo, decepciona bastante. Foi assim com o “Galinho Chicken Little” e o mesmo se repete com “A Família do Futuro”. Dois filmes parecidos, infelizmente, nos acertos e (principalmente) nos erros.

A começar pela clara preferência pelas tramas infantilizadas - ao extremo. A idéia de um filme para toda a família (uma das principais marcas da casa e do próprio criador de Mickey e Cia.) passa longe e fica relegada ao passado da empresa. A aposta é mesmo nas crianças. E só elas para sustentar as bilheterias de uma produção que peca em agradar qualquer outro público. O resultado, com isso (mais uma vez), é mediano. Se muito.

O filme é bonito visualmente. De bom ritmo. Nada é inadequado ou mal construído. Porém, tudo é muito simples. Sem o mesmo preciosismo técnico e a riqueza de detalhes das produções sob a tutela da Pixar. A idéia por trás disto é tornar a experiência mais acessível, trabalhando apenas com o básico para não deixar a criançada confusa com informações em excesso. Entregando, assim, uma experiência audiovisual voltada ao público infantil - e não para quem já passou da idade e se acostumou com mais do que isto (ao ponto que os "grandinhos" sequer vão ter dificuldades em desvendar de cara as “surpresas” do final).

Baseado no livro “Meet the Robinsons” de William Joyce (que até conseguiu uma vaga como produtor), “A Família do Futuro” mostra as aventuras e desventuras de um órfão inventor que vai parar no futuro depois de ter um de seus inventos roubado pelo malfeitor típico (só que munido de uma máquina do tempo). Mas mesmo nessa premissa existe um enorme equívoco. O futuro é parcamente mostrado, principalmente se levarmos em conta que boa parte do filme se passa nele. Tudo fica concentrado em explorar a estranha família do título. Sujeitos excêntricos, única e exclusivamente, independente se vivessem no presente. Pouco importando se são ou não de outro período do tempo. Isso sem contar os inúmeros paradoxos temporais. Mas nem precisa se preocupar. Aqui, eles são ignorados.

Outro ponto que incomoda bastante é o zelo desproporcional que a Disney assumiu em suas recentes produções. O medo de não ser politicamente correto acaba afetando o enredo, enfraquecido com os cuidados exagerados e engessado pelas rígidas lições de moral. Uma coisa é fazer um filme saudável para a gurizada, outra é estragar a diversão do público com resoluções bobas e ultrapassadas. Mal comparando, é como se os realizadores do longa pensassem primeiro nos valores que querem transmitir e depois na história que pretendem contar - enquanto a Pixar, pensa apenas no filme e dele (naturalmente, sem forçar nada) extrai bons e saudáveis exemplos. Uma diferença que faz toda a DIFERENÇA.

O único personagem que foge à regra (e não por acaso, se torna o coadjuvante mais bacana) é o companheiro de quarto e de orfanato do menino gênio. Com sua sinceridade e sarcasmo, o jovem é o responsável pelas melhores sacadas e pelas poucas “ofensas” ao que é “apropriado e correto”. Um pouco dessa fórmula se aplica ao melindroso vilão da história. Em menor proporção. Para a Disney, até o mal tem que seguir preceitos éticos. Que essa ética descabida não atinja os inventivos artistas da Pixar. O futuro do conglomerado da qual fazem parte depende disso. Walt Disney que o diga.

 

Carlos Campos

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