"This is Sparta"
Não sei qual número me impressionou mais. A dos 300 espartanos que lutaram contra o exército persa, os 70 milhões arrecadados em sua estréia (que garantiram a maior bilheteria para o mês de março da história) ou os 60 milhões gastos em um épico, que sem usar das ferramentas digitais, custaria (pelo menos) o dobro disso. Mas a matemática, nesse caso, é simples. Todas essas contas servem para demonstrar o valor incontestável de “300 de Esparta”.
Mesmo assim, apesar de todos os méritos, “300”, não pode ser considerado como a revolução como muitos apregoam e propagandeiam. Primeiramente, seu efusivo uso da fotografia e cenografia digital é apenas mais um passo no mesmo sentido seguido por outros filmes que se enveredaram pelo mesmo caminho (vide a nova trilogia de "Star Wars"). Nada o que foi feito aqui já não tinha sido tentado (com igual, menor ou maior sucesso) anteriormente. O filme até compartilha com “Sin City - A Cidade do Pecado” a mesma adaptação literal das histórias em quadrinhos - de onde são originários, nesse caso (não por acaso), em duas das criações de Frank Miller.
Sem realmente quebrar paradigmas, o filme reafirma (se é que isso ainda era preciso), todo o talento de Miller, que sequer precisa ter seu texto re-mexido para vê-lo funcionar igualmente em mídias tão distintas. Sua eloqüência verborrágica, constituída por falas curtas e por vezes descritivas, até se justifica muito mais no âmbito da arte-seqüêncial do que no campo cinematográfico. Porém, tão memorável quanto foram os feitos espartanos em sua obra, é a façanha do prolífero autor em concatenar com uma forma híbrida, o mundo bidimensional das páginas de papel com o das telas do cinema. Só que os louros dessa conquista (por justiça) devem ser divididos com o diretor Zack Snyder (responsável também pela recente e cultuada refilmagem de “A Madrugada dos Mortos”).
Zack, usando e abusando de câmera lenta (misturando-a com acelerações rápidas), consegue imprimir movimento aos quadros (estáticos) desenhados por Miller. Transpondo o gibi de forma extremamente natural (e fiel) para o mundo cinético do cinema. Por vezes, o diretor até encontra espaço para acrescentar elementos à trama dos quadrinhos, criando cenas (como a árvore da morte) que não só fazem jus como tranquilamente poderiam fazer parte da versão impressa da história. Escorrega um pouco, apenas, na excessiva atenção dada à personagem da rainha espartana, que adquire um espaço desproporcional à sua importância (só para efeitos comparativos, na revista, a mulher do rei Leônidas só aparece em uma única cena).
Ainda bem, que tal quebra no ritmo da aventura não é suficiente para estragar ou suavizar o impacto que “300” ostenta em todas as suas (demais) cenas. O filme (ou seria a HQ filmada?) usa e abusa da computação gráfica para criar visuais que ficarão marcados na lembrança de qualquer expectador. Recriando com esmero o mesmo realismo-fantástico que Miller se serviu em seus desenhos. Construindo imagens que sincronizam o mesmo impacto gráfico da arte no papel (incluindo a violência estética e as lutas coreografadas) com a beleza pirotécnica dos efeitos computadorizados.
Assim, em meio a toda essa pujança técnica, fica até difícil notar o trabalho dos atores. Aqui, relés componentes do quadro pintado por Miller e Snyder. Valendo apenas destacar a atuação destemida e visceral de Gerard Butler (de “O Fantasma da Ópera”) no papel principal e a participação de Rodrigo Santoro, no importante papel (apesar de aparecer pouco) do rei persa, Xerxes. Santoro consegue, em sua pesada maquiagem (que o deixa quase irreconhecível), usar e abusar dos trejeitos para dar vida ao caricato e estereotipado “Deus-rei” dos quadrinhos.
Aqui, cabe outro comentário. Essa versão “exagerada” do rei e dos próprios persas acabaram gerando uma série de críticas negativas, todas acusando o filme de nutrir certo racismo para com os “inimigos” de Esparta. Contudo, essas manifestações padecem pelo exagero, uma vez que “300”, longe de ser um épico histórico que se presta a relatar (única e exclusivamente) os acontecimentos, se envereda claramente para a fantasia, portanto, longe de qualquer intimidade com a realidade (como demonstra o próprio personagem de Santoro, em seus mais de 3 metros de altura).
Afinal, a própria História se encarrega de contar, por exemplo, que Esparta não guerreou sozinha - o controle do Mar Egeu foi garantido pela poderosa frota naval Ateniense - não por uma “mãozinha” dos deuses. Fora que, reconhecidamente, a cidade-estado espartana era uma sociedade autoritária e escravista - onde o altruísmo pode ter sido exclusivo dos 300 bravos guerreiros que partiram com seu rei para conter o avanço das hordas persas. Entretanto, não nos cabe julgar. Historicamente correto ou não, mito e ficção corroboraram para criar essa história. Não a dos livros e enciclopédias, só aquela que lemos nas páginas de Miller - e que agora - podemos assistir nesta brilhante e bem sucedida adaptação cinematográfica. Como os números nos provam. “300” deve fazer escola. E história.

