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O espírito da penitência

DivulgaçãoO que dizer de uma pessoa que vende sua alma ao diabo? Não, não me refiro a Johnny Blaze, personagem de Nicholas Cage - que se transformará em Motoqueiro Fantasma ao assinar um perigoso acordo com o “demo”. Mas de Mark Steven Johnson, diretor e roteirista desta (e de outra) fraca adaptação de quadrinhos.

Tudo começou com “Demolidor”, quando Johnson conseguiu vender seu peixe e assumir (apesar de sua inexperiência) um filme da nova safra dos heróis Marvel no cinema. Seu entusiasmo e amor ao universo dos gibis eram a garantia de fidelidade e integridade as obras originais - o que, por si só, já justificava seu emprego. Mesmo assim, algo deu errado no filme do “homem sem medo”, e o mesmo ocorre neste.

Em meio a visão apaixonada, Johnson equivocasse na hora de traduzir em cena suas boas idéias. Se visualmente sua versão do “espírito da vingança” compensa cada frame gasto com o anti-herói flamejante, a disposição do diretor em assumir diretrizes que desdenham das origens góticas do "Motoqueiro" é mais um passo em falso em suas (boas) pretensões - ele até demonstra preferir uma abordagem mais séria do personagem, mas aceita rebaixar o peso e os sustos de sua obra para pegar uma censura mais leve e garantir a presença maciça do público mais jovem nos cinemas.

Exatamente como aconteceu com Demolidor. Tal atitude, de forte teor comercial, conspira contra o próprio filme, incapaz de construir na tela muitas das idéias que ele mesmo propõe - flertando, porém, jamais assumindo seu lado mais maduro e pesado - como o diretor (e uma parte do público) gostaria.

Ao vender seu trabalho (ou seria sua alma?) por esse preço, Johnson se limita e impossibilita que seus filmes se tornem tão legais quanto - a priori - aparentam. Assim, o diretor (munido da melhor das intenções) revela um amadorismo impressionante para quem, em outros momentos, até demonstra possuir certo talento. Pois, é quase que imperdoável, engolir de alguém minimamente capacitado, momentos tão prosaicos como a “cena romântica que termina em close na lareira” (Demolidor) ou o “casal que marca seu amor deixando suas iniciais entalhadas em uma árvore” (Motoqueiro Fantasma).

Deixando este triste aspecto de lado - e ponderando que por causa dele o filme não engrena em nenhum momento (pelo menos, não como deveria), fica a boa impressão visual do personagem que dá título ao filme e os ótimos efeitos visuais, que aproveitaram muito bem o farto investimento e o tempo extra ganho na pós-produção graças as constantes mudanças na data de lançamento (originalmente, o longa-metragem sairia ainda em 2006).

Pra finalizar, uma nota interessante, Nicholas Cage (fã confesso de HQs), apesar de ostentar uma cara de “tacho” durante todo o filme, foi capaz de ter uma grande sacada durante a divulgação de ”Motoqueiro”. Ao comentar sobre sua parceira de tela, Eva Mendes, o ator não teve dúvida, já a escalou para outro filme baseado em histórias em quadrinhos: Mulher-Hulk. E não é que concordo com ele? O filme da prima do Hulk, bem verdade, não está sendo produzido, contudo, a tal da Eva poderia muito bem encarnar Jennifer Walters nos cinemas. Ela tem a presença (inclusive física) que a personagem tanto necessita.

Quem sabe não está aí a chance para Mark Steven Johnson se redimir de todos os pecados? Se bem que, depois de duas oportunidades desperdiçadas, ele deveria mesmo é receber o “Olhar de Penitência” do próprio Motoqueiro Fantasma em pessoa.

 

Carlos Campos

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