De volta ao quadrilátero de cordas
Sessão nostalgia. Não existe outra forma de descrever a experiência que é assistir Rocky Balboa. A produção, estrelada, escrita e dirigida por Sylvester Stallone é, por mais inacreditável que possa parecer, a grande surpresa do ano - longe de ser um fiasco como seus antecessores e rebatendo todas as expectativas negativas criadas pelo anúncio de “Rocky 6” - Balboa se torna uma deliciosa homenagem - explícita - ao filme “Rocky - O Lutador” de 1976.
Seu apelo nostálgico, refletido na própria melancolia que se apossa do personagem título, encontra ainda mais ressonância se comparada com a vida de Stallone - que aqui se confunde com sua própria cria. Ambos são ex-heróis decadentes, que depois de glórias passadas, tentam, pelo menos, retomar um pouco da dignidade perdida no ostracismo a qual foram jogados a partir do momento que ficaram "velhos demais" para repetir os feitos de outrora. Conseguindo, contudo, voltar ao batente, ostentando um carisma que justamente falta para os heróis do presente (o grande tema do filme e uma analogia clara aos “astros” atuais, que por mais competentes que sejam, não conseguem ter a simpatia que o público parece nutrir para com ícones da estirpe de Balboa).
Stallone, sabendo disso, retrata seu personagem com o carinho de quem sabe que este é o papel mais importante de sua vida. Garantindo com isso, uma integridade a história e aos filmes passados que talvez não fosse possível se outra pessoa estivesse a cargo de levar Rocky de volta às telas. Mas a paixão e a dedicação de Stallone ficam ainda mais evidentes na forma como o ator interpreta Balboa.
Sim, eu disse “ator” e “interpreta”. Pois, Stallone, que nem sempre é lembrado por seus dotes artísticos (muito pelo contrário, nisso ele é quase sempre criticado), demonstra estar totalmente à vontade no papel que o imortalizou, atuando com a mesma honestidade e simplicidade que caracteriza seu personagem. Seu jeito franco e desajeitado de lutador durão com coração é um dos pontos mais inspirados de sua carreira - e isto fica claro no ótimo trabalho realizado neste longa.
Pena, que, o filme como um todo, tem um grave problema. Ele deveria ter sido lançado há uns 15 anos. Hoje, seu enredo parece datado demais para os novos tempos, perdendo sua significância para o público que não acompanhou o apogeu do herói nos anos 70/80. A incompreensão dos mais novos aos “exageros” da trama se parece com a mesma indiferença que Rocky encontra nos jovens que o abordam ao longo da história. Balboa, realmente, é um herói de outra época (mais romântica e inocente do que a de agora).
Já para aqueles que pegaram a saga deste seu início, assistir ao novo filme é como voltar no tempo. Para quem tem as cenas originais na lembrança, acompanhar novamente Rocky treinando, correndo com seu agasalho indefectível, subindo mais uma vez as escadarias do Museu de Arte da Filadélfia, ao som de “Gonna Fly Now”, de Bill Conti, é nada mais do que eletrizante.
Não que o filme não seja passível de erros, por exemplo, a luta final é mostrada de forma muito cortada, o que, em alguns momentos, acaba por abafar seus momentos mais dramáticos. Mas convenhamos, "Rocky Balboa" não é um grande filme por ser perfeito e digno de um Oscar (longe disso), ele acerta por simplesmente conseguir resgatar um dos elementos mais primordiais do próprio cinema: os grandes heróis - aqueles por quem (realmente) nos pegamos torcendo. E quanto a isto, Rocky é mesmo o cara!

