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Entre heróis e humanos

Divulgação"A Conquista da Honra" é um filme incompleto. Explico. A adaptação cinematográfica do livro "Flags of Our Fathers: Heroes of Iwo Jima", de James Bradley (filho de um dos “heróis”) retrata apenas o lado americano do confronto. Mas Clint Eastwood é um cara experto, ele transformou seu pseudo-erro em acerto de uma forma, no mínimo, curiosa: dividiu seu projeto sobre a batalha de Iwo Jima em duas frentes, deixando para a "continuação" de seu filme americano, "Cartas de Iwo Jima", a função de não esquecer (e prestigiar) o lado nipônico da história (evitando, evidentemente, ser injusto e imparcial para com os representantes da terra do sol nascente).

Nesta sua primeira incursão as praias da “terra do enxofre”, Eastwood, retrata os japoneses como guerreiros invisíveis. Sempre na penumbra e a espreita dos valentes soldados americanos, os únicos dotados de "rostos" visíveis pelo público (as "sombras" japonesas quase não aparecem fisicamente, a não ser como corpos largados no campo de batalha). Tal dualidade se torna ainda mais cabível quando o diretor aposta sua munição na humanidade dos “Filhos da América”, mostrando que a saga dos heróis de Iwo Jima é estrelada por pessoas comuns - iguais a todas as outras - cuja ascensão ao patamar de “heróis” é decorrente muito mais da máquina publicitária do que nos feitos do (sempre) desonroso confronto bélico.

É assim que o filme começa (e termina), contrapondo a desumana guerra (através de uma montagem não-linear) com a turnê pelos EUA de três dos heróis de Iwo Jima. Estes, agora usados como “garotos propaganda”, enfrentando um novo e mortal inimigo - as finanças do exercito americano, que necessitam urgentemente de doações para a manutenção da guerra. Para tal missão, os convocados são retirados de uma foto simbólica, a bandeira americana sendo hasteada no campo de batalha. Uma imagem representativa de vitória - mesmo que na realidade, a coisa seja bem diferente - com a luta na ilha japonesa se arrastando para muito além do dia em que a fotografia foi tirada, levando consigo metade dos homens registrados na imagem, mortos muito tempo antes dela ser publicada nos jornais estadunidenses.

Os que chegam vivos as Estados Unidos, apesar das honrarias, são “heróis” feitos para a exposição na mídia, já que segundo as próprias palavras de um dos soldados glorificados, seu maior feito na guerra foi “evitar levar um tiro”. Como o filme nos lembra em diversos momentos, os verdadeiros heróis de Iwo Jima estão mortos na ilha japonesa. Essa desconstrução da figura do herói é curiosa. Em certo ponto, ainda mais contundente pela presença de Eastwood na direção. Antes, a representação viva da figura do herói americano (imortalizado em seus tempos de ator), agora a cargo de desmascarar as aparências e mostrar a humanidade e seus representantes como eles realmente são na realidade (assim como a própria guerra).

Guerra mostrada segundo a manual visceral criado por tio Spielberg em “O Resgate do Soldado Ryan”, não por menos, produtor de “A Conquista da Honra” e seu derivado nipônico, além de patrono em outras incursões ao tema da Segunda Guerra, como a mini-série “Band of Brothers”. Principalmente em termos de fotografia (indicada ao Oscar), que compartilha a mesma beleza do filme sobre o dia “D”, e a luta nas trincheiras com o assalto pela praia inimiga - retratando os horrores da guerra como na película concebida por Steven Spielberg.

Pena que o ritmo alucinante nas batalhas e as idas e vindas na história prejudiquem a percepção do público, que mal consegue distinguir os personagens entre si (marcando apenas os três heróis principais), sendo algumas destas figuras “secundárias” muito importantes para os efeitos dramáticos que permeiam o longa. Isso não só amputa a linha de compreensão, como, naturalmente, ameniza o impacto de algumas cenas. A impressão é que o filme perde seu tempo em momentos sem grande importância e depois precisa passar correndo pelos pontos em que deveria dar um maior destaque (como a morte dos “heróis” esquecidos de Iwo Jima).

Pecados a parte, “A Conquista da Honra” se esquiva do pragmatismo em seu apelo aos “heróis de carne e osso” e a existência de sua contraparte. De mediano, caso fosse filmado sozinho, o filme se transforma em um belo aperitivo para seu co-irmão “Cartas de Iwo Jima”, a pedra preciosa (e indicada ao Oscar de melhor filme) do (belo) retrato humano criado por Clint Eastwood.

 

Carlos Campos

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