A Babel de Chieko
Uma verdadeira panacéia mundial marca a história de "Babel". Um filme que conta quatro histórias paralelas (em quatro línguas distintas) com um elo comum entre elas: uma bala perdida.
Alejandro González Iñárritu fecha sua "trilogia" ("Amores Brutos" e "21 Gramas") através de uma referência Bíblica que não precisa ser explicada. Seu significado fica mais do que evidente no decorrer de “Babel”, mostrando que o mundo está cada vez mais globalizado. E a cada dia, mais dividido.
Construindo suas cenas a partir de contrapontos (crianças americanas se divertindo/crianças marroquinas trabalhando), Iñárritu nos mostra como a indiferença e os preconceitos impedem a comunicação entre os povos. De forma hábil, construindo um emaranhado multi-cultural que une, em um único drama, turistas americanos, uma família marroquina, uma garota japonesa e uma babá mexicana. Unidos em um mundo dos mais sujos e brutos. Exagerado? Talvez, mas com certeza, humano - e verdadeiro.
Como é verdadeira a aversão de muitos povos aos americanos "donos do mundo" e o preconceito dos estadunidenses para com os diferentes. E nesse ponto o filme chega a ser chocante. Enquanto Brad Pitt encontra assistência de um honesto marroquino para salvar sua esposa baleada (Cate Blanchett), nos EUA, Amélia (Adriana Barraza), a babá dos filhos do casal, sofre com as hostilidades - apenas por ser latina. Os "mundos" de “Babel” são exatamente assim, em choque uns com os outros. Como no caso das marcas mundiais aparecendo em todos os lugares visitados pelo filme - elas ("Coca-Cola", "McDonalds"...) são o único lembrete de que fazemos parte de um todo.
Se pequenos incidentes no deserto africano podem se ligar com uma família no Japão, a conexão é incapaz de fazer as partes perceberem os dramas pessoais vividos em cada um dos lados. Como o caso de Chieko (a novata Rinko Kikuchi, em uma atuação memorável), uma surda-muda japonesa que sofre com todo o impacto da incompreensão gerada pela falta de comunicação (aqui, em seu sentido mais amplo - e não só físico).
Se o drama da americana baleada ganha o mundo, o de Chieko não consegue transpor a barreira de seu próprio universo. Eternamente aprisionada no mundo que apenas os surdos-mudos conhecem e compreendem. Destaque para a cena em que a jovem japonesa chega a uma casa noturna. Lá dentro, em meios as luzes e ao som das baladas, Iñárritu nos apresenta - através de imagens - o mundo particular de Chieko (e seu ponto de vista único de enxergar as coisas da vida). Lisérgico e perturbador como o próprio longa como um todo. Mas condensado em sua personagem mais emblemática, não por coincidência, justamente a mais distante da trama central, dos personagens e do próprio público, incapaz - propositadamente - de imaginar o conteúdo de um misterioso bilhete escrito pela carente garota nipônica. A mensagem é clara: não são os povos que não se entendem, são as pessoas que perderam a capacidade de entender o drama dos semelhantes.
Se ninguém compreende a “Babel” de Chieko, a expectativa é de que pelo menos a Academia entenda o filme de Iñárritu - e a indicação de Rinko Kikuchi ao Oscar de melhor atriz coadjuvante já é um bom indício para o filme do diretor mexicano ser reconhecido. Acho que vem Oscar por aí. É esperar para ver.

