Hell, boy
Não se assuste com a estranheza causada pelo nome, nem se importe se você não sabia que existia um herói com esse nome. Nem ligue se ele é todo vermelho, chifrudo e irônico, importe-se com o fato de que Hellboy é mais um representante das adaptaçãos de quadrinhos. E se incomode em passar o filme todo pensando: hell, boy... Não dava para ser melhor?
Vindo do inferno para o universo cult dos gibis, Hellboy conta a história de um demônio que ainda bebê é capturado pelas forças aliadas depois de ser invocado pelos nazistas. Criado pelo governo com o sugestivo nome de "Hellboy", o vermelhão se torna a principal arma do governo americano contra qualquer ameaça sobrenatural, se tornado um entre tantos agentes (humanos ou não) do Boreau de Pesquisa e Defesa Paranormal - uma versão MI-6 (da série James Bond) dos Arquivo X de Fox Mulder.
Com essa premissa estranha (porém, cinematográfica) como ponto de partida, o diretor Guillermo Del Toro e o criador da HQ, Mike Mignola, construíram um filme que segue com fidelidade sua versão de papel (graças a presença de Mignola), mas escorrega na função de ser um bom espetáculo audiovisual (graças a presença de Del Toro) ao perder o equilíbrio entre ser um colírio visual e ter uma história bem desenvolvida.
Tecnicamente o filme segue a risca outros trabalhos do diretor mexicano, como as cores fortemente saturadas - marcas registradas de Del Toro (que já tinha assinado outra adaptação de quadrinhos: "Brade 2", com outro personagem semi-desconhecido dos HQs) - amparadas pelas câmeras poderosas da lente do diretor de fotografia Guilherme Navarro, (que também já havia trabalhado em outro filme de super-heroi: "Spawn") e de uma maquiagem notável de Rick Baker, num trabalho que chega a dispensar o uso exaustivo dos personagens em computação gráfica, tão populares no cinema atual.
Visual a parte, parece que os 60 milhões de dólares de orçamento não foram suficiente para se ter um roteiro decente (apesar do plot ser uma recriação direta dos quadrinhos "A semente da destruição"). No enredo, Hellboy é adotado pelo Dr. Bloom (John Hurt), que passa a criar o demônio vermelho como se fosse um filho - com direito a brigas típicas de família - quase sempre resultando em castigos para H. B. Diferente do que ocorre nos quadrinhos, onde Bloom morre ainda nas primeiras páginas, não chegando, portanto, a desenvolver tal relação com a cria dos infernos. Acontece que a relação paternal acaba apenas esboçada no filme, pois "pai e filho" quase não trocam palavras durante a história (uma vez que "brigaram" por causa do "mau comportamento" do "garoto infernal"), enfraquecendo o enredo.
O filme esboça também outras tramas como um triângulo amoroso entre Hellboy, seu interesse romântico Liz Sherman (Selma Blair) - uma agente capaz de controlar o fogo, (e se descontrolar) que deixou o Boreau para viver uma vida normal - e John Myers (Rupert Evans), um novato na área, sem nenhum poder em especial, que banca a babá do vermelhão e precisa ajudar Liz (se apaixonando no processo) em sua vida de volta ao time das aberrações.
O agente Myers, que não existe nos quadrinhos, foi criado para o filme para ser o elo entre as personagens bizarras da história e o público, que passaria a entender o universo de Mignola pelos olhos de um humano normal. Acontece que o personagem não é tão essencial assim e o triângulo amoroso parece servir apenas para meia dúzia de cenas engraçadas de um Hellboy ciumento do que para qualquer desenvolvimento dramático. Outra falha do roteiro é o "trato" dado ao personagem Abe Sapien (Doug Jones faz o personagem e David Hyde Pierce a voz), a impressão que dá é que o ser aquático não foi bem aproveitado no filme, pena, dos personagens coadjuvantes ele é com certeza o mais interessante.
Outro ponto frustrante é a ação. Quando deveria empolgar se desgasta numa série de clichês já esgotados, está tudo lá: o mostro que é detido pelo herói graças a uma providencial descarga elétrica (de alguma fonte próxima o suficiente das mãos do mocinho); a ponte que começa a desmoronar enquanto os nobres aventureiros tentam atravessá-la... Será que ninguém se cansa de usar as mesmas soluções de sempre? Não que a história no papel fosse totalmente inovadora, mas é preciso de muito mais para sustentar uma trama que envolve um vilão imortal chamado Rasputin (Karel Roden), sua fiel parceira Ilza (Biddy Hodson) e o típico guarda-costa-assassino-cool, Kroenen (Ladislav Beran).
De positivo, nos resta a singela participação de um esqueleto-falante e do astro da companhia: Hellboy, que encontra na figura do ator Ron Perlman sua cara-metade perfeita. Perlman, acostumado a pequenos papéis (incluindo "Brade 2" e "Cronos", ambos de Del Toro) não só vive o primeiro personagem principal de sua carreira como também o personagem de sua vida. Hellboy é para ele o que o Super-Homem foi para Christopher Reeve.
Apesar de uma bilheteria regular, compensada pelo bom rendimento do DVD (uma versão estendida já foi lançada, quem sabe aqui o roteiro seja menos ruim), existem planos para uma seqüência na qual Del Toro e Mignola já estão trabalhando. Resta esperar para que os erros da primeira empreitada não se repitam, afinal, Hellboy merece um filme (e um roteiro) muito melhor. E quer saber? Se dependesse apenas do protagonista, que inferno... Que venha a continuação!

