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A paixão de Olga

DivulgaçãoDesde que o diretor Jayme Monjardim anunciou que estava adaptando o livro "Olga", de Fernando Morais, para o cinema, já era sabido que o fruto cinematográfico do famoso diretor de novelas não seria diferente daquilo que ele mesmo havia feito na telinha. E conforme o esperado, "Olga", muito bem poderia passar no lugar da próxima mini-série da Globo. E existe algum mal nisso?

Apesar das críticas negativas sobre a predileção do autor por uma linguagem televisiva (em detrimento a linguagem cinematográfica), em sua primeira incursão às telas do cinema, é injusto taxar o filme de ruim apenas porque está embrulhado numa embalagem de novela - o que seria menosprezar à própria televisão.

É lógico que os maneirismos adquiridos durante centenas de capítulos de folhetim deixaram a direção de Monjardim um tanto desgovernada. O excesso de closes pode dar certo na televisão (onde o campo visual é menor e é preciso realçar os detalhes), mas na tela grande (onde tudo já é enorme e visível) fica uma sensação desconfortável, irritante, de ter que olhar para aquele "cabeção" durante toda a projeção. Mas que não chega a estragar a produção.

Uma produção, aliás, bem competente, que cria a sensação de se estar vendo um filme estrangeiro (cortinas foram usadas para dar um ar europeu a iluminação "natural"). Amparando uma direção de arte que parece tirada dos melhores filmes "de época" dos americanos. Para quem acha (ainda) que o nosso cinema é rudimentar, com certeza irá se chocar com o nível obtido pela equipe técnica do filme, das roupas ao som tudo é digno de uma super-produção (o que não nos deixa esquecer dos oito milhões de reais investidos no longa-metragem).

Outro ponto que pode fazer o espectador chiar um pouco é a falta de aprofundamento histórico. O filme, em nenhum momento ajuda a quem matou a aula de história e não têm a menor idéia do que foi a "Era Vargas". Toda a trama política em "Olga" é lacrada nos fundos de uma história que coloca em primeiro plano, antes de tudo, o lado sentimental da personagem título. Fica difícil entender toda a vastidão dos acontecimentos que cercam a vida (e obra) de Olga Benário sem o adendo histórico, que poderia estar mais nítido no filme, nem que fosse através de textos introdutórios.

É complicado para quem não leu o livro (como eu) dizer o que foi adaptado e/ou acrescentado a trama do filme, que leva a judia-alemã Olga a se torna uma agente a serviço de Moscou, encarregada de proteger Prestes, em um relacionamento de viezes amorosos que culminaram na gravidez da revolucionária. E é nesse ponto que o filme cresce. Longe de uma abordagem mais politizada, o filme deposita todas as fichas na intimidade sentimental da alemã, desde sua súbita paixão por Prestes até o nascimento de sua filha (Anita Garibaldi, nome que homenageia outra heroina de nossa história). A esta altura, já presa pelo governo varguista e deportada para um campo de concentração nazista na Alemanha.

O sentimentalismo da protagonista (em contrapartida ao ativismo político) só não se torna maçante por causa da interprete de Olga: Camila Morgado, numa interpretação corajosa (precisou ficara até careca) e habilmente executada, numa mescla de ternura e força que a priva de exageros e caretas. Camila, assim como fazem as grandes atrizes (sendo ela mesmo uma grande atriz), não precisa exacerbar suas atitudes para emocionar, ela o faz mesmo de uma forma discreta, não deixando, é claro, de transmitir com a intensidade necessária todo o sofrimento de Olga. Mostrando de forma convincente todas as vicissitudes de uma mulher, que além de representar o "sexo frágil", ainda era judia e comunista (o que dificultava tudo).

Para aqueles que já haviam se encantado com a moça na TV, vê-la em todo o seu esplendor na tela grande já seria o bastante para uma passada no cinema, pois se o filme de Monjardim peca ao não politizar, ele acerta em emocionar (para irritação daqueles que consideram tal "emoção" coisa de novela). Hora explorando a relação marido e mulher de Olga e Prestes, ora mostrando a relação de mãe e filha de Olga e Anita. O que proporciona cenas fortes e impactantes como a imagem singela de Benário no chuveiro, onde em meio a água e ao ambiente opressor da cadeia ela ostenta com carícias sua protuberante gravidez.

Para finalizar, fica o destaque para Fernanda Montenegro, e sua curta aparição como a mãe de Prestes. Ela ilumina todas as poucas cenas que aparece com um talento nato e muito raro de ser encontrado. E nisso vale pelo menos um grande elogio para Monjardim: ter encontrado entre os rostos conhecidos da televisão interpretes como Montenegro e Camila, a protagonista perfeita para uma produção luxuosa, que conta a história de uma heroína como o diretor planejava, emocionante e de um jeito noveleiro bem brasileiro.

 

Carlos Campos

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