THX não é apenas um sistema se som...
Concebido há muito tempo, por um jovem George Lucas, em sua estréia nas telas, "THX 1138" é uma obra quase gaética. Que serve como uma espécie de metáfora futurista sobre o consumismo e o conformismo do final dos anos 60 (o filme foi lançado em 1970). Primeiro projeto da American Zoetrope, uma companhia independente, THX quase foi o último projeto do cia. cinematográfica fundada por Lucas e pelo "chapa" Francis Ford Coppola, ao extrapolar os conceitos cinematográficos em um espetáculo meramente visual que Hollywood e seu folhetim cinematográfico não foi capaz de entender, literalmente... Muito menos gostar.
Levando o filme a um inevitável fracasso e a uma queda de braço entre Lucas e os executivos da Warner, patrocinadora da Zoetrope e distribuidora do longa. Resultando na amputação de cinco minutos de filme (a rebelia de Lucas), que, só agora, são reincorporadas na versão do diretor, "THX 1138 The George Lucas Director's Cut", lançada em DVD com extras que incluem o making-off do filme, um documentário sobre os primeiros anos da Zoetrope e até o bendito curta-metragem que deu origem ao filme. Para fechar, trailers da produção e comentário de áudio, infelizmente, não legendados.
Como qualquer lançamento do "tio George", não poderiam faltar modificações e melhorias nos efeitos especiais (e com um filme cheio de "defeitos especiais" as coisas não seriam diferentes). Apresentando por volta de cem tomadas novas (entre adições e modificações), Lucas, revitaliza sua obra primordial, com direito a áudio 5.1 (THX, diga-se de passagem) e imagem restaurada. Por exemplo, foram incluídos ao filme: seres digitais, tomadas que mostram o trânsito de pedestres e veículos, novos planos de fundo... Tudo para dar uma dimensão de escala muito maior do que o filme em sua concepção original. Permitindo uma releitura mais apropriada e meticulosa de um trabalho que, a seu tempo, foi injustiçado.
O criador de Star Wars alega que seu filme não foi compreendido, o que não é difícil de acreditar, uma vez que a idéia básica por trás dessa sopa de letrinhas em forma de título é criar um filme-visual, cuja linha de entendimento fosse propositadamente limitada. Criando uma singularidade típica de "filme estrangeiro", portanto, fora dos padrões culturais massificantes (que o filme se presta a criticar). Causando, assim, toda a estranheza necessária para dar o clima certo à uma sociedade futurista, underground, e totalmente submersa na passividade de um ideário de vida pautada pelo consumo.
O mundo pós-apocaliptico de Lucas é estéreo, frio, binário, onde as emoções são extirpadas do comportamento humano. É nesse mundo opressor que o herói THX 1138 se envolve com sua companheira de quarto, LUH 3417, em um relacionamento sexual considerado criminoso pelas autoridades da sociedade tecnocrata. Uma vez que a pregação religiosa propõe que todas as emoções sejam suprimidas e controladas pelo estado com o uso de medicações, das quais THX e LHU deixaram de tomar, provocando, assim, um crime farmacológico. Eles acabam presos e THX fica a mercê de perder sua "humanidade" recém-adquirida.
A saída para THX preservar suas emoções é a audaciosa fuga da sociedade, que o leva a encontrar outros excluídos, como um holograma desgarrado e SEN, que difere do protagonista, pois não tem a coragem necessária para deixar a segurança confortadora da alienação para assumir os riscos de uma vida livre na superfície do planeta. Diferente dos que se deixam dominar pelo sistema, THX é capaz de tomar uma atitude desafiadora, daí ser um herói. Exemplificado pela exerção de um pequeno trailer na abertura do filme, que nos remonta a Buck Rogers e aos filmes de aventura e fantasia das matinês de sábado (gênero que inspirou a criação de Star Wars), onde as maiores façanhas heróicas partem de uma pessoa comum (como Buck e THX).
Se o final de THX é revelador, e a fuga revela-se poética, trágica e não se resolve a nenhuma solução, é porque o filme não propõe nenhuma linha ideológica, não faz nenhum juízo de valor para veicular uma idéia pré-estabelecida. Apenas se coloca numa posição questionadora, levantando aspectos interessantes para observar os efeitos em uma sociedade que bem poderia ser contemporânea. Mas que foi transplantada para um universo totalmente estilizado e rebuscado.
Pode-se reclamar que a história é "owerística". Que baseada num curta-metragem (feito para um trabalho de faculdade de Lucas) não suporta os (parcos) 88 minutos de fita. Porém, seria um equívoco esquecer que a verdadeira "história" de THX é contada visualmente e se ampara na força de seus ícones, e em nenhum momento eles decepcionam ou deixam o filme na mão.
Esta é uma ótima oportunidade para descobrir que THX não é apenas o nome do sistema de som criado pela LucasFilm, mas um filme inovador, experimental e diferente de tudo o que se poderia esperar do homem que nos deu Star Wars (por tabela, "inventando" o cinema que conhecemos hoje). E antes de ir embora, vale um destaque: os habitantes hominídeos que vivem na crosta terrestre em THX são chamados de Wookies, um nome que mais tarde estaria representando a raça do co-piloto alienígena, carinhosamente conhecido como Chewie, na "space ópera", que, nestes tempos, já parecia querer levar o novato Geoge Lucas para uma galáxia muito, muito distante...

