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Um filme e dois mundos

DivulgaçãoO 11 de setembro ainda não acabou. Também pudera, as vésperas de seu aniversário, o atentado que mudou o destino do mundo continua em nossa retina. Não só pela lembrança do trágico atentado terrorista, mas pela comoção que tal drama ainda carrega hoje em dia. Amplificada pela malfadada política anti-terror, que remexe nas feridas para sustentar suas campanhas imperialistas. O assunto cada vez mais em voga, porém, começa a se ramificar para além da esfera política. E o cinema parece ter assumido o fardo de esmiuçar os atentados ao WTC (e Pentágono).

O primeiro passo, contudo, não foi dado em solo americano, povo este, ainda cambaleante em transpor o assunto para as telas grandes. É nesse Yasmin - Uma mulher, duas vidas, de 2004 que o mundo pós 11/07 adentra pela primeira vez nas salas escuras. Dirigido por Kenneth Glenaan, essa co-produção Alemã/Inglesa retrata a vida dupla da jovem Yasmin, uma mulçumana presa entre os dois mundos opostos pelo ataque de Bin Laden. A protagonista se redobra entre os valores tradicionais de sua família e as “modernidades” deste lado do planeta. Desgostosa com a tradição familiar que a empurra para um casamento sem amor, Yasmin, se liberta das amarras culturais se entregando ao cotidiano jovem dos Pubs britânicos e a educação feita “no exterior”.

Se no principio, o dia-a-dia na cidade do Big-Ben parece redentor, após o fatídico ataque orquestrado por Bin-Laden, a vida do “gueto” mulçumano sofre um perigoso revés. Yasmin, vê seu ambiente libertador se transformar em pura opressão depois da queda do WTC. Na política comprada por Blater, os imigrantes mulçumanos se tornam, de um dia para outro, potenciais homens-bomba e precisam ser caçados pelo bem do estado, dito democrático.

Com o inocente marido preso pelas autoridades locais, ávidas em encontrar células terroristas, Yasmin se arrisca para libertar seu esposo, na vã tentativa de restaurar o status quo anterior a caça as bruxas que se abateu sob ser povo. Para isso, volta-se para sua família, sofredora dos maldizeres dessa guerra fratricida, o que lhe vale um abraço de confiança do pai ressentido, sua separação definitiva do marido, uma declaração do irmão envolvido na luta santa e o distanciamento de seu colega londrino (que agora lhe é hostil, tal qual seria para com um inimigo no campo de batalha).

Tal dicotomia - entre as duas realidades distintas que povoam a vida desta mulçumana - ganha um tom mais emblemático com o passar do filme: se o choque cultural/familiar parece controverso no ambiente das ruas inglesas, sua rápida depreciação parece refletir o puro preconceito que o ocidente parece nutrir pela religião de Maomé.

Encerrando seu filme sem tentar remediar a situação ou oferecer visões controversas para um eventual desenrolar da questão, Kenneth, parece prever que as coisas estão a compasso de espera para novas reviravoltas. E o cinema continuará a contar histórias sobre o tema nos anos que se seguem.

De conforto, a comovente cena da mulher anônima que se solidariza e socorre Yasmin após ela ser “achincalhada” pelos arruaceiros de plantão. Ainda existe solidariedade no mundo, alheio a qualquer segregação de cunho religioso ou social. Como comprova a cena não tão cinematográfica, a mulher acolhedora não fazia parte das filmagens, segundo os produtores, ela interpelou a gravação pensando que tudo se tratava de uma afronta real... O mundo ainda tem salvação, apesar dos Bush e dos Bin Laden da vida.

 

Carlos Campos

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