Presente de grego
Tróia - o filme, é um bom exemplo de como seria um verdadeiro presente de grego. Tudo graças ao alemão Wolfgang Petersen, que dirige uma película totalmente desprovida de qualquer personalidade e/ou brilhantismo.
Baseado na obra Homérica, o longa relata a guerra entre os gregos e a lendária cidade estado de Tróia, em um palco de conflitos políticos (controle do mar Egeu), religiosos (mitologia grega, as muralhas impenetráveis de Tróia eram obra dos deuses) e amorosos (o famoso rapto de Helena).
O mundaréu de estrelas na marquise do cinema em nenhum momento compensa o desgastado roteiro, que equivocadamente relega ao ostracismo todo o aspecto mitológico do confronto. Ao mesmo tempo em que coloca todo o filme nas costas de Aquiles (o "calcanhar de Aquiles" do filme), o personagem mais atingido pelas mudanças no enredo, pois longe de ser uma figura divina como no original, e principalmente na pele de Brad Pitt, o herói deixa de ser um semi-deus para se tornar uma espécie de pop-star do mundo helênico.
Vamos aos fatos, sem a ascendência dos deuses na história, boa parte da guerra de Tróia se esvai. Mesmo porque a guerra não para apenas para ver Aquiles e Heitor (o "Hulk" Eric Bana) terem seu "ranca-rabo", mas para ver o confronto divino que homem algum pode interferir (uma vez que Heitor também é da mesma estirpe de Aquiles). E falando em guerra, nada mais decepcionante do que ver uma das maiores (se não a maior) luta da história da humanidade relegada à meia dúzia de cenas, sem mencionar que diferente do filme, o cerco à cidade estado durou anos e não (apenas) alguns dias.
Não dá para acreditar que com "bilhões" de barcos lotados de guerreiros prontos para o titânico embate só a barcaça de Pitt chega à praia e dá conta de todas as tropas dos inimigos. Ao invés de aproveitar a oportunidade e fazer uma espécie de "Resgate do Soldado Helena", com direito aos dois lados se digladiando insanamente de terra a mar numa nova Omaha... É lógico que nem é preciso alertar para as cenas (usadas) de batalha, que devem ter saído do material que Peter Jackson jogou no lixo em "O Senhor dos Anéis".
E por falar no épico de Tolkien, fica ainda mais difícil engolir "Tróia" depois do sucesso comercial e criativo da trupe do anel, pois as páginas que nos levam até a terra-média não são mais difíceis de serem reproduzidas nas telas do que as peripécias escritas por Homero. Sendo assim, assistir um filme tão modorrento, que sucumbe quase que por inteiro ao pragmatismo, é frustrante, irritante, e só serve para enaltecer o talento daquele cineasta neozelandês que fez de seu filme de fantasia uma aula de como se fazer cinema.
Olhem com cuidado e vocês verão que "Tróia" de W. Peterson nada mais é do que um apanhado porcamente misturado de tudo o que já foi feito em termos de épico (como "Gladiador", "Ben-Hur" e "Spartacus"). As escolhas do diretor são de manual, é de enlouquecer: grua para as cenas abertas (para "ressaltar" a "escala" das coisas) e closes sensacionalistas nos momentos dramáticos (e tem gente que reclama de "Olga"). A Câmera de Petersen parece míope, esquece de enaltecer seu próprio trabalho - dos trocentos figurantes e dos escandalosos cenários gigantes nada é realmente aproveitado pelo olho do diretor, que prefere desperdiçar seu tempo com a "beleza" de seu protagonista (Pitt), para delírio da mulherada e dos mais chegados.
Tecnicamente o filme apresenta parcas surpresas, uma fotografia equivocada cria efeitos de noite vergonhosos até para seriados do "naipe" do "Chaves" e deixam o contraste nas cenas ao sol menos bonitas do que se pretendia. A música? Qual? A horrível que entrou de última hora ou a mais ou menos que ficou na sala de edição porque brigaram com o compositor?
E olha que a edição tenta o milagre de salvar o filme, mas esbarra nas próprias pernas de uma incompetente direção. Percebam a cena onde Heitor se despede do filho, o pobre rebento fica fora de enquadramento até que miraculosamente a mãe levanta a criança, que está em seus braços, para o alcance do carinho de Bana, só para devolver, logo em seguida, o filhote para fora do alcance da câmera. Patético.
De bom mesmo, apenas, as participações de Peter O'Toole - emocionante como o pai de Heitor e Paris (Orlando Bloom) - e Sean Bean, que faz (bem) o papel de Ulísses, conseguindo a proeza de se desgarrar da figura de Boromir tão astutamente que é uma pena não ter sido melhor aproveitado. Assim como O'Toole, pois são dois focos de vida isolados no meio de tanta bobagem, como o romance de Pitt com uma "inimiga" e o desastre que é Helena, "interpretada" por mais uma bela e incompetente modelo semi-desconhecida.
Outro elemento que poderia ser melhor aproveitado é o episódio do "presente de grego". Talvez o melhor momento do longa, porém, perdido entre o vilão cartunesco (Daemon) e o apático Orlando Bloom, que só se destaca no filme quando, por ironia, assume o papel de "Legoras" e dispara fatídicas flechas contra o herói principal. Aqui, vale dizer, é mais uma invenção para o longa-metragem, pois na história tirada da "Ilíada" (o livro de onde saiu à saga retratada no filme), Paris, o personagem de Bloom, deveria ter morrido na luta contra o marido (traído) de Helena. Mais um dos incontáveis erros deste pretensioso épico de Wolfgang Petersen.

