Alto do Piripau, uma semana depois. Perspectiva noturna. O carro de Romero avança pela subida de terra, levando Jorge e eu e uma garrafa com a água das quatro fontes misturadas. Ele pára o carro bem ao lado da torre de transmissão celular do Alto do Piripau que é bem parecida com a torre de transmissão celular do Alto de Santa Quitéria. Procuro gravetos agora fora do carro e reúno um número ótimo, o mesmo acontece com o Jorge. Sem demora, temos a fogueira pronta, apesar do vento frio da noite sobre o Alto do Piripau. Romero enche a chaleira pela última vez dentro de nossa experiência e quando ela levanta fervura a retira do fogo, adicionando o fantástico, incrível chaquinam. O processo aqui é o mesmíssimo processo de dentro de cada uma das fontes pelas quais passamos. Nós três ficamos olhando o fogo que vai se extinguindo devagar. Quando resta apenas o braseado, Romero completa as três xícaras com o chá.
"Podem beber o chaquinam."
E depois, diz para mim com uma piscada marota:
"Aprecie o céu então, já que veio até aqui. É sempre bonito o céu noturno. As constelações", ele disse.
Isso me remete a um dos caminhos, me lembro de ter ouvido essa frase em algum dos momentos no estado de torpor e percepção do chaquinam. Fico olhando para Romero e ele só sorri. Orienta Jorge e eu para que nos sentemos antes que o chaquinam comece a trazer suas derradeiras impressões em nossa experiência. Nós nos sentamos de frente para o panorama absurdo lá embaixo onde as estrelas apareciam aberrantemente nítidas e em enormes quantidades, seguindo o rastro da Via-Láctea. Depois de algum tempo eu começo a ficar com o corpo dormente, mas não é o chaquinam propriamente, é a posição do corpo que me cansa. Eu fico inquieto, pensando em quando o chaquinam iria me "transportar" para o que quer que sejam as Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais. Faço menção de falar , mas Romero encosta o indicador dos lábios, pedindo calma e paciência. Volto o olhar para os lados e num deles vejo o Jorge com o queixo pendurado, olhando a imensidão do mundo lá embaixo. Acho que ele está passando mal e olho para Romero. É quando ouço a voz tremida do Jorge dizer:
"Alguém mais está vendo o que eu estou vendo!?!"
Romero aponta na direção que o Jorge olhava e eu vejo. Vejo o que nunca pensei que veria. Vejo o motivo do espanto, do queixo pendurado, vejo o prêmio de todos os caminhos, a água de todas as fontes, a motivação de toda a jornada, o frutos de todas as escolhas. Vejo. Vivencio.
Era como se todo o céu pegasse fogo em frente aos meus olhos. Uso aqui a palavra mais certa. Ou será melhor dizer, a mais aproximada. Não há palavra existente ou que possamos inventar para descrever o que vejo. Milhões de riscos luminosos caem do céu como uma chuva de densidade e intensidade absurdas; eu olho em todas a direções e em todas elas as Chuvas Luminosas e Bombardeios Astrais têm a mesma quase perturbadora majestade. Viro meu pescoço de lá para cá, assustado com a chuva que chega a ferir meus olhos de tão brilhante. As constelações aparecem como desenhos geométricos no céu, assumindo os contornos de seus nomes originais. Órion aparece com sua clava; a Oficina Tipográfica em pleno funcionamento; a Cabeleira de Berenice revôlta, se agitando num vento astral distante demais dali, os Gêmeos em constante confraternização, a Máquina Pneumática com suas partes móveis trabalhando sem parar. Quando mais meu cérebro me avisa que está prestes a fritar, mais eu quero ver. Mais, muito mais eu quero vivenciar. No momento em que se iniciam os Bombardeios Astrais estamos os três, muito longe do Alto do Piripau, quilômetros e quilômetros acima, pairando numa imensidão flutuante que é apenas o mundo inteiro. Se a alegria fritar o meu cérebro, pela alegria não terá sido desperdício nenhum.
Alguém por aí está vendo o que eu vejo?