Temos ainda uma semana antes de ir para a Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima e é uma semana de repouso e preparo profundos. Longos passeios de dia e de noite, dormir e acordar cedo, pegar leite diretamente das tetas desas vacas tão comuns no Sul de Minas. Região que é abençoada pelo relevo tão bonito, colorido e marcante. Tomar café da manhã numa varanda com vista para uma praça de cidade do interior, há quantos anos não faço isso?
Costumamos passear pela mata do Parque das Águas de Cambuquira de manhã, depois do café. Atravessamos a cerca de arame farpado atrás do Cambuquira Tênis Clube que faz divisa com a mata e com o próprio Parque das Águas de Cambuquira. Subindo pelo caminho de terra, nós encontramos um pequeno santuário feito em cimento, de formato semicircular, com uma imagem de santa dentro, talvez Santa Edwiges (ou Santa Edwiges está no outro santuário, mais adiante?). A santa era protegida do vandalismo total e dos amigos do alheio por grades. Em torno do santuário se espalhavam pacotes de velas de plástico e de papelão que enfeavam o recinto, puro lixo da fé.
A mata se bifurca em várias direções, seguindo o rumo dos ventos. As trilhas que são grandes dão sinais de um dia terem sido menores, talvez retirada de árvores.
"Sim, e esse é o grande perigo para a água das fontes já que as matas formam a sombra necessária para impedir a evaporação total da água nas correntes subterrâneas. Querem ver? Venham comigo."
Nos levou a duas fontes no próprio interior da floresta. Uma era normal. A outra, repleta de sais de ferro. Eu e Jorge olhamos para Romero.
"Água ferruginosa", disse ele e confirmava assim os nossos pensamentos. Bebemos bastnate dessas fontes, já que o calor da manhã foi suficiente para provocar sede junto com a caminhada. Água gelada do interior da terra, límpida, puríssima. Nós dois a recolhíamos em grandes copadas, bebendo com evidente prazer e satisfação. Romero apenas ria.
Jogos de luz e sombra sobre o chão dessa floresta, sombras que o Sol em curso carregava e transportava, trocando sombra por luz, luz por sombra. Quietos andamos ouvindo o som dos pássaros e prováveis macacos nas copas das árvores. Não havia a preocupação do tempo, de nada. Nessa mata, não havia noção de tempo e ela mesma não iria ser de muita ajuda na difícil tarefa de saber as horas.
A floresta tem pontos mais escuros, fechando-se à medida que avançamos por dentro dela. O nosso anfitrião Romero explica que esses são pontos onde temos a ocorrência de riachos, cursos de água e nascentes que por sua vez alimentam as fontes do Parque das Águas de Cambuquira.
Paro para olhar uma planta isolada em uma ilha de claridade imersa na escuridão sombreada daquele trecho. O efeito é simples, mas ele acaba prendendo a atenção dos três por um longo tempo. Quando Romero vem chamar nossa atenção e despertamos, o foco de luz já se encontra distante da planta original, indo iluminar algumas pequenas pedras mais à esquerda.
Me levanto depois do Jorge, procurando entender o que é que estávamos observando realmente. Se é que estávamos observando realmente alguma coisa. Romero só fazia nos fitar e dar algumas boas risadas. E assim, mansamente, a semana avança para a última etapa. A última fonte. A Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima. E seja o que Deus quiser.
Esta é a noite. Céu estrelado. A frase é rotina aqui no Sul de Minas invernal. Romero pergunta se estamos prontos para seguir para a Fonte Sulfurosa Dr. Sousa Lima e estamos. Temos que estar. Pegamos nossas coisas, Romero reuniu seus apetrechos em seu alforje de caçador. Conversando baixo pelas ruas da cidade, chegamos ao Parque das Águas de Cambuquira. Entramos pelos fundos do Parque das Águas, por uma abertura que só Romero e o povo do lugar conhecem.