UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA
CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO DE HOMEOPATIA
3ª ETAPA
TRABALHO 2
MATERIALISMO EM MEDICINA
ALUNO: FERNANDO COELHO CINTRA
NATAL, SETEMBRO/2002
MATERIALISMO EM MEDICINA
Diz Hahnemann no § 13 do Organon: “A
doença é considerada pelos alopatas como algo separado do todo vivente e que
isto é concebível por mentes de cunho materialista que durante milhares de anos
imprimiram um sistema médico dominante todos aqueles impulsos perniciosos que o
transformaram numa arte verdadeiramente maléfica”.
O homem
está doente porque lhe falta a unidade.
Na medicina holística, incluindo a homeopatia vemos o ser
humano que está doente, e não que ele fica doente. Existe então uma grande
diferença desta concepção para a medicina oficial. Que vê a doença como uma
anomalia do estado normal da saúde e tenta fazer com que esta anomalia seja
eliminada rapidamente.
Como a
medicina oficial é materialista, isto quer dizer que ela ignora o espírito, e
este é perfeito, pois é uma representação do absoluto, um mediador a partir da
alma. O que fica doente é a alma a nível energético e isto é em decorrência de
vários fatores, como vidas passadas, códigos genéticos, retorno de ações
passadas, etc.
A alma
estando doente, ela deixa também o corpo emocional, corpo mental, o físico e o etérico também doentes, pois a alma é o conjunto destes.
Se
acessarmos o espírito e imaginarmos que ele é perfeito, a cura começa a se
processar, mas para isto tem que haver uma conexão que infelizmente a medicina
oficial não entende e não aceita, pois esta atua no mundo sensível, a dos
sentidos, do relativo.
A medicina
oficial na realidade, ela estuda o ser humano somente pelo aspecto da natureza,
e o cunho materialista que se refere Hahnemann está
inserido exatamente nisto.
Pelas
possibilidades do conhecimento, o materialismo nos remete ao ceticismo que
filosoficamente prega a impossibilidade de conhecermos a verdade.
Dentro do
ceticismo, deparamos com o relativismo, uma das divisões do ceticismo que seria
a mãe do materialismo e por definição, entende que não existe
verdades absolutas, mas apenas relativas, que tem uma validade limitada
a um certo tempo, a uma situação determinada, todas pertencentes ao mundo
sensível da natureza.
O
relativismo causou uma tragédia grande no nosso mundo, pois todos
os nossos sistema de saúde pública, educação, político,
econômico-financeiro estão atrelados ao mundo dos sentidos quando nega a nossa
condição de sermos livres, e ficamos dependentes somente das idéias
provenientes das nossas percepções sensoriais.
Todas as nossas idéias são provenientes de nossas
percepções sensoriais (Locke). Nada vem a mente sem passar pelos sentidos. Não há conhecimento além do derivado da
experiência. Confiança exclusiva na razão humana como
instrumento capaz de conhecer. Para o racionalismo, a experiência sensorial é
uma fonte permanente de erros e confusões somente a razão humana
trabalhando com princípios lógicos pode atingir o conhecimento verdadeiro. Todo conhecimento começa com a experiência mas
que a experiência sozinha não nos dá o conhecimento. É preciso um trabalho para organizar os dados da
experiência. Por isto ele buscou saber como é o sujeito a
priori, isto é antes de qualquer experiência e concluiu que existem no
homem certas faculdades ou estruturas (que Kant denomina formas da
sensibilidade e do entendimento) que possibilitam a experiência e
determinam o conhecimento. Para Kant a experiência forneceria a matéria do
conhecimento (os seres do mundo) enquanto a razão organizaria essa matéria
de acordo com suas formas próprias, estruturas existentes a priori no
pensamento (daí o nome apriorismo).


Quando Kent fala do mundo da inércia, se refere a este (sensível)
e o outro mundo do movimento e da energia encontramos
o caminho para transcendermos a inércia e acessarmos o espírito, que Einstein
chamou de campo unificado.
A doença
vista pelo mundo da inércia vai sempre existir e é preciso deslocar esta doença
para o mundo da inteligência, da sabedoria, a fim de a anularmos.
O
materialista não tem esta visão, pois está limitado ao mundo sensível, da
experiência das percepções sensoriais e da natureza e portanto da alma.
Enquanto a alma estiver ligada ao relativo ela estará sempre doente, e o homem
também.
Na verdade
o capitalismo e o marxismo e todas as suas ramificações são herdeiros do
materialismo e este do relativismo. Vemos que há uma relação grande do discurso
sofista de Protágoras com o relativismo e com o humanismo, pois o discurso
sofista se baseia no conhecimento que se limita às idéias e representações
elaboradas pelo sujeito pensante, sendo impossível alcançar a objetividade se
fixando no mundo sensível do relativo; no relativismo que tanto o capitalismo,
marxismo e socialismo, se originam através do materialismo não existem verdades
absolutas, mas apenas verdades relativas, se igualando ao
discurso sofista, que é pela vida da dóxa – vem
de fora, vem pronto, se adquire sem uma prévia crítica e neste sentido é um
conhecimento com um valor, que pode ser verdadeiro ou falso e só tem a
aparência do saber.
Podemos
observar que a maior parte dos sistemas que já existiram e que existem tem este
discurso inclusive o socialismo que tem a definição do indivíduo como sendo uma
existência concreta e real, e apenas esta existência tem sentido humano e
natural.
Quanto ao
humanismo, há uma semelhança grande com as idéias de Platão, pois enquanto o
relativismo, materialismo e discurso sofista anti-metafísicos,
esvaziam o homem do ser reduzindo-o a natureza, o humanismo e o idealismo de
Platão dão uma dimensão espiritual ao homem pois o espírito o torna um ser
livre, através da dimensão da transcendência, pois conhecendo-se a si mesmo, o
homem pode conduzir sua existência. Com certeza, a integração do relativo
(natureza) com o absoluto (espírito) que Platão pregava e que não foi muito bem
estendida até pelos neo-platonistas, e aqui voltamos
para Platão, que dizia que sua filosofia estava certa porque estava ligada a
essência das verdades absolutas e pela sua doutrina o mal
destes todos modelos políticos existe quando há ausência da essência, ou
quando há outras intenções ocultas e nefastas que podem se valer em nome desta
essência para outros fins como dizia Platão, para o caso da justiça e da
virtude política que todos políticos afirmam declarar-se justos, sejam ou não,
ou que está louco o que não fingir justiça;
Platão
também dizia que qualquer sociedade, não será perfeita por causa do homem e do
político não ter vergonha e justiça e é exatamente isto que vemos, pois para se
ter vergonha e justiça é preciso ser virtuoso, e as virtudes não podem ser
ensinadas pois estão inseridas no espírito através da alma, e o saber (epistéme) vão acessar as virtudes.
O homem, a
doença vista pelo lado do mundo sensível, o político e os sistemas políticos
cometem o mal porque este é oriundo do não saber, da ignorância, que gera o
vício pois estão atuando na área do inconsciente, dos sentidos, do relativo da
alma, pois se acessassem o espírito, encontrariam o caminho da perfeição, da
essência, da verdade.
É preciso
transcender a alma, a natureza.
Kent fala que com 5 ou 7 diferentes dinamizações poderemos encontrar a cura,
exatamente porque passamos do físico para planos mais elevados.
Fala também
que através de sinais e sintomas, se pode conhecer quando a doença é curável,
pois as doenças incuráveis tem pouco sinais e
sintomas. O que nos dá uma visão da gravidade, inclusive quando o paciente
decai gradualmente sem quaisquer sintomas.
Os sinais e
sintomas são parte do processo da cura do homem e mostram a condição
desordenada da força vital no seu interior, que seria a sua alma pois esta
engloba o seu físico, a mente, as emoções e seus sentidos, memória,
inconsciente.
E como diz Kent, no mundo em que vivemos, mergulhado num estado de
ignorância e materialismo, fica difícil para a medicina entender toda esta
verdade, e pela homeopatia pode-se compreendê-la.
Aqueles que
transcendem o mundo das experiências do sensível encontrarão homeopatas que
encontram a sabedoria e a verdade pois acessaram o espírito, e o estudo
constante e profundo do Organon nos possibilita
encontrá-las.
Kent fala de sua
experiência, que ensinara por muito tempo, a matéria médica comparada pensando
que era o melhor caminho, e viu que o melhor caminho é o estudo de cada remédio
como uma unidade, assim como cada doença, uma unidade, pois quando se conhece
perfeitamente um remédio ou uma doença, pode-se então compará-los.
Quanto as doenças crônicas, é preciso fazer o estudo de alguns
remédios com os miasmas agudos e de outros com miasmas crônicos.
Em alguns
remédios encontrarão a imagem do sarampo, em outros ainda a
imagem dos miasmas crônicos da psora, da
sífilis e da sicose.
A partir
daí estarão aptos para o processo de individualização, pois das generalidades
passamos para os particulares e destes para as comparações. Este era o metido
de Hahnemann.
O nosso
relativo sensível é a nossa porção imperfeita e ignorante. Se observarmos de
perto, veremos que todos nós temos males que aparentam saúde, pois vivemos muito no mundo das ilusões, e é necessário a partir
do respeito aos seus limites, que ele faça a transposição destes para à
unificação do verdadeiro pela via alétheia
(conhecimento).
E é pela
doença que possibilita o homem a atingir a essência da verdade que o levará a
sua cura.
É preciso
que estabeleçamos um contato com nossos sintomas, para então captarmos as suas
mensagens, pois a cura está associada, a uma ampliação da consciência; E é esta
consciência que vamos contactar através do nosso
espírito e não mais no mundo sensível, no mundo das ilusões, longe do
materialismo.
Fernando
Coelho Cintra
BIBLIOGRAFIA
1. Organon. Da arte de curar de Samuel Hahnemann.
José Alberto Moreno. Editora Hipocrática Hahnemanniana. Belo Horizonte, 2000.
2. Cotrim, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. Editora
Saraiva.
1. Kent. Filosofia Homeopática.
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