Fernando Coelho Cintra
O ACESSO A ESSÊNCIA DA VERDADE PELO SABER DO SER VIA
ALETHÉIA (CONHECIMENTO)
Trabalho apresentado sobre a História da Metafísica I do
Curso de Pós-Graduação em Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte – Professor Markus Figueira da Silva
UFRN
Natal / Agosto / 2002
I. TÍTULO DO TRABALHO
O acesso a essência da verdade pelo
saber do ser via alethéia (conhecimento)
II. IDENTIFICAÇÃO
Autor: Fernando Coelho Cintra
Aluno do Curso de Especialização em
Filosofia
III. INTRODUÇÃO
Platão
buscava a idéia do bem para encontrar a essência através do ser.
A sabedoria
antiga no qual Platão herdou de Pitágoras pregava que toda natureza refletia o
plano de uma mente divina. E Platão dizia que “Deus geometriza”
com o objetivo de todos os seres evoluírem de acordo com um plano.
Através
deste plano que não é mecânico e sim energias de átomos que geometrizam
que o Logus se manifesta esperando que cada ser cumpra seu papel reunindo estes
átomos e a humanidade.
Vivemos num
jogo constante com o Logos e Platão nos ensina a sabedoria do idealismo através
do conhecimento.
A temática
do conhecimento através da epistemologia na obra de Platão nos leva a vários
questionamentos tais como:
1. O
conhecimento da realidade no mundo dentro do relativo seria necessário?
2. De que
forma seria ensinada?
3. O mundo
dos pensamentos concretos, da memória, do inconsciente, do consciente, dos
sentidos seriam usados?
4. O
objetivo do conhecimento seria então um trampolim para se acessar a essência, o
absoluto através do relativo?
IV. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Platão
deixa bem claro que o conhecimento não pode ser obtido pelas aparências do
mundo e sim pelas idéias perfeitas.
O mundo das
aparências nos é dado pelos sentidos que nos remete ao mundo das ilusões.
Neste mundo
das ilusões, do relativo nunca poderemos ter conhecimento pois ele é falso.
O mundo dos
sentidos, dos fenômenos, do inconsciente e do consciente serve de canal ou
seja, é passagem obrigatória para se chegar a essência que era o objetivo de
Platão.
Não
concordamos com o Ceticismo absoluto no qual consiste em negar
radicalmente o conhecimento da verdade e também do Ceticismo relativo
que nega parcialmente o conhecimento da verdade.
A partir do
ceticismo relativo algumas doutrinas surgiram como o subjetivismo e o relativismo.
O relativismo
foi trágico porque o materialismo foi seu seguidor e deixou como herdeiros o
capitalismo e o marxismo incluindo suas ramificações que afastaram a essência
ou o espírito de qualquer questão, e impera no nosso mundo até hoje. E de igual
tragédia surgiu o subjetivismo no qual rotula o conhecimento como uma
relação puramente subjetiva e pessoal entre o sujeito e a realidade percebida.
Dos que
abraçaram esta idéia Protágoras, sofista do século (V A.C.) foi o mais famoso e
dizia que o “homem é a medida de todas as coisas” um de seus seguidores, Górgias (Séc. IV. A.C.) dizia:
“Nada existe. Mesmo se existisse alguma coisa, não poderíamos conhecê-la; concedido que algo existe e que o podemos conhecer, não o podemos comunicar aos outros”
No
subjetivismo, o conhecimento fica limitado pelas idéias e representações
criadas pelo sujeito pensante, não sendo possível conseguir a objetividade.
No século
(V A.C.) de Péricles, que foi o mais brilhante da cultura grega, onde a
atividade artística e cultural tiveram muita expressão, os pensadores tiveram
um tema que persiste até os nossos dias e a obra de Platão se concentra com o
objetivo de compartibilizar o conhecimento verdadeiro
através da ciência com a moral e a política.
O sofismo
existiu nesta época e Protágoras, de Abdera foi um
dos interlocutores de Sócrates nos diálogos de Platão.
Através dos
diálogos Platão atacava e criticava os sofistas levando a questão para o lado
político por não aceitar o modelo sofista vigente.
Os sofistas
surgiram numa fase transição da tirania dos deuses e da oligarquia para a
democracia. Os sofistas eram pessoas que detinham a oratória e retórica ou
itinerantes que percorriam a Grécia e passavam suas habilidades em troca de
dinheiro e fama.
O sofismo
se caracteriza por valorizar o entendimento do real se baseando nos aspectos fenomenais
apenas, sem nenhuma conotação com a essência ou espírito é sim ligadas ao mundo
dos sentidos, pois o Logos não podendo ser provado, o verdadeiro é o que pode
ser provado.
A partir
daí podemos entender melhor o relativismo e o humanismo.
Platão tinha
amor pelo conhecimento e tinha um grupo de pessoas que buscavam não apenas o
aprender mas refletiam e trabalhavam a filosofia existente questionando e
criando. Na sua academia havia no porta uma advertência: “Não entre aqui quem
não for geometra”, e eram ministrados cursos de
matemática, filosofia e política, que era a ciência de governar tendo como base
a justiça.
Suas
matérias preferidas eram a filosofia e as ciências ocultas.
Platão
trabalhava para o seu equilíbrio e em conseqüência tinha harmonia que lhe dava
suporte para o amor ao belo em todas as expressões como a música, a poesia e a
pintura. Quanto as suas poesias ele queimou-as numa festa de despedida de seus
hábitos por achar que as mesmas expressavam o mundo dos sentidos, e não da
essência.
Somente as
coisas eternas pareciam ter razão e fundamento para o ser humano, ao contrário
das formas visíveis, imperfeitas, e de constante mutação.
Sócrates
teve um papel muito importante na vida de Platão pois a partir deste
conhecimento, que Platão passou a buscar a sabedoria.
Nesta época
os sofistas se multiplicavam, e eram contrários aos pensamentos de Sócrates e
Platão, pois negavam Deus e a alma e diziam que não existia diferença entre a
verdade e o erro.
Os sofistas
buscavam provar qualquer idéia e seu contrário e que só há uma justiça que é a
força e uma só verdade, a opinião do indivíduo.
Sócrates
foi acusado de corromper a mocidade e não crer nos deuses o que não passou de
pretexto. Pois na verdade ele combateu a injustiça, desmascarou a hipocrisia e
acabou incomodando o poder porque
possuía uma sabedoria das ciências herméticas ou secretas, e foram os
verdadeiros ateus que o condenaram.
Platão
recebeu de Sócrates a sua fé na justiça e verdade, e após a sua morte injusta
começou a viajar buscando ensinamentos de vários filósofos da Ásia menor e
Egito, a fim de passar pela iniciação de Ísis, assim como Pitágoras também o
foi tendo adquirido uma visão das verdades divinas.
Após o
Egito seguiu para a Itália meridional a fim de se juntar aos pitagóricos que detinham escritos órficos
e pitagóricos.
Há estudos
da escola que comprovam os textos de Platão com as tradições órficas e pitagóricas.
Além disto,
tendo sido iniciado em algumas escolas, posso comprovar a semelhança dos textos
de Platão muitas vezes codificados com esta sabedoria que antecedeu-o como é o
caso de Protágoras e Fedro, como veremos adiante.
Quando
voltou para Atenas, deu partida para continuar a obra de Sócrates em divulgar a
verdade através de saber. Infelizmente não pode divulgar os ensinamentos pitagóricos que recebera pois naquela época os juramentos
que fizera o proibiam de fazê-lo.
Infelizmente
Platão não conheceu totalmente a doutrina pitagórica
pois era baseada numa reunião de um colégio de educação, uma academia de
ciências e uma pequena cidade modelo. O ensino era dado simultaneamente através
da teoria e prática da ciência das artes e finalmente das ciências ocultas ou
herméticas, mas como o que aprendera começou a escrever com o objetivo de
despertar o saber.
Encontramos
nos seus diálogos uma doutrina hermética codificada, dissimulada com um
conteúdo as vezes estranho e incompreensível fazendo analogias em lendas, ou
mitos ou parábolas.
Por vezes
deixa transparecer claramente a sua intenção rumo as verdades sublimes que são
o seu destino final desta viagem de retorno ao lar como dizia o pitagórico filolaus:
“A essência em si mesma escapa ao homem. Ele somente conhece as coisas deste mundo, onde o finito se combina com o infinito. E como pode conhecê-las? Porque há entre ele e as coisas uma harmonia, uma relação, um princípio comum. Esse princípio lhe é dado pelo uno, o qual lhe dá, com sua essência, a medida e a inteligibilidade. Ele é a medida comum entre o objeto e o sujeito, a razão das coisas pela qual a alma participa da razão última do uno”.
Pitágoras
já havia demonstrado no seu primeiro problema da teogonia
pitagórica que a partir da grande monada
surgem todos os números da grande unidade em movimento e que são governados
numa grande harmonia.
Em sua
matemática transcendental, provou através de números que zero multiplicado pelo
infinito é igual a um. Zero, na ordem das idéias absolutas, significa o ser
indeterminado.
Cabe aqui
ressaltar que a base esotérica de Platão estava alicerçada numa das
ramificações das doutrinas herméticas, pois a doutrina pitagórica
da Grécia surgiu numa mesma época em que outras o foram como Numa em Roma,
Esdras entre os Hebreus, Hermes no Egito, pelo último Zoroastro na Pérsia, por Gautama na Índia, por Lao-Tse e
Kong-Tse na China e Son-Mau no Japão que mantinham
estreita ligação secreta entre si, mas
as suas origens remotam outras épocas e sábios como Krishna, Fo-Hi e Zoroastro.
Porque
existem estas escolas iniciáticas? Platão sabia que
era muito difícil fazermos uma idéia da onipresença do absoluto no espaço
infinito, nem conceber esse mesmo infinito, pois a dificuldade repousa no fato
da mente não poder perceber além da tridimensionalidade do mundo objetivo, pois
além da razão humana não há espaço nem tempo.
Daí Platão
ter criado a sua escola com o objetivo do conhecimento e saber a fim de
despertar no homem normal os meios de comunicação entre o visível e o invisível
para introduzi-lo nos diversos segmentos da vida, como política, arte e
ciência.
Platão
deixou claro que para descobrir o mundo real das idéias e formas, o homem deve
abandonar o testemunho dos 5 sentidos.
Muitos
escritores analisam Timeu e Crítias
como a mais completa e detalhada história, pois Platão escreve sobre a Grécia
Antiga e destruição da Atlântida onde o mar ficou cheio de lama causando
problemas por muitos séculos para a navegação.
Platão foi
considerado um iniciado por Helena Blavatsky em seu
livro Doutrina Secreta assim como também a ordem Rosa Cruz.
O segredo do
Cosmo encontra-se no princípio dos três mundos que são o microcosmo, o
macrocosmo e no ternário humano e divino. Pitágoras já havia resumido esta
doutrina com o símbolo tétrada sagrada, que consistia
no grande arcano, a fonte da magia, o templo de diamante do
iniciado que estaria acima das coisas do mundo.
Platão não
podia revelar esta doutrina nos seus textos, pois seria difícil entendê-lo e
ele havia jurado não divulgá-la e então para atacar a corrupção e os políticos
que controlavam tudo era necessário uma alternativa inteligente e então
partindo do princípio dos 3 mundos ele os substituiu de maneira abstrata e
sutil pela verdade, beleza e o bem.
E tudo
começaria no bem como base do homem para chegar ao mundo divino, pois buscando
o bem, a alma se purifica, estando preparada para conhecer a beleza do
conhecimento, do saber que anima as formas das artes, e das ciências servindo
como um trampolim para buscar a idéia do verdadeiro, que é a essência, o
absoluto.
Platão
achava que a filosofia era uma resposta as injustiças cometidas contra Sócrates
e Pitágoras que morreram por uma justa causa, a verdade e que a democracia na
época estava ameaçada pelo fato de estar desconectada da essência.
A partir
destas 3 vias de acesso a essência Platão criou o mundo das idéias ou das
formas que pode ser o início da metafísica clássica.
Segundo
Danilo Marcondes (Iniciação à História da Filosofia) a respeito das idéias nos
diz:
“É precisamente a natureza essencial das coisas que Platão chama de forma ou idéia, partindo da questão socrática, mas, ao mesmo tempo, reformulando-a. O que Platão pretende é estabelecer, num nível bastante abstrato – a metafísica –, uma teoria da natureza essencial das coisas, que nos permita assim realizar, quando nos perguntamos: O que é x?, a análise pretendida. Saberemos quando a resposta foi obtida se ela satisfizer os critérios estabelecidos por esta teoria para a aplicação bem sucedida do método, que se dá quando este nos leva ao conhecimento desta natureza essencial da coisa.”
O que
Platão pretendia em sua teoria era a abstração do relativo das aparências, do
sensível, das ilusões para se chegar ao absoluto, das idéias perfeitas.
Platão
tinha certeza que se os homens permanecessem dominados pelos sentidos, só teria
um conhecimento imperfeito ligado ao mundo dos fenômenos, das coisas que são da
aparência e estão sempre em mutação que chamava de dóxa
(opinião). Ao contrário, o verdadeiro conhecimento a epistéme
(ciência) ultrapassa o mundo sensível e atinge o mundo das idéias, das
essências imutáveis verdadeiras.
De maneira
científica como já dissemos a matemática e a geometria são portas de acesso
para se chegar a este conhecimento.
Acho que a
idéia de Platão não era desprezar a realidade do relativo com relação ao
absoluto como afirmam alguns críticos, pois a intenção de Platão era de
integrar tanto o ideal como o real, como as doutrinas herméticas o dizem e não
separá-los.
Acredito
que tais críticas surgem do não conhecimento destas ciências, e talvez pelo
fato de Platão ao expor suas idéias, não as mostrasse exatamente por motivos de
serem naquela época secretas.
Existia
também o fato de que para se chegar no absoluto, a transcendência através dos
sentidos é necessária e os realistas não aceitavam até porque não entendiam
nada do processo pois não tinham acesso a estas ciências, pela qual a
finalidade do processo é tornar um só o ser com o Uno e aí o relativo da
realidade se transmuta na realidade do absoluto.
Os sofistas
tinham o hábito de convencer não através do saber, mas da manipulação das
ilusões, dos interesses, da ambigüidade, de metáforas e Platão como filósofo
achava que a conquista da verdade só seria possível através do saber, da razão
se opondo ao discurso demagógico dos sofistas, estabeleceu então a base dos
diálogos nesta premissa a fim de que o
interlocutor tivesse a consciência da diferença dos modelos.
Em
Protágoras, Platão nos revela várias passagens que mostram a intenção do saber
chamada via alétheia, procurando os meios do
conhecimento, da verdade, em recuperar a memória perdida e o conhecimento tem
que ser idêntico a realidade, que para Parmênides o movimento existe apenas no
mundo sensível, pois a percepção levada a efeito pelos sentidos é ilusória, e a
partir daí só o absoluto se comunica com o ser formando uma identidade que
passou a ter uma teoria da identidade entre o ser e o pensar.
Ao
contrário, os sofistas que se valiam pela via da dóxa
em que o conhecimento vem de fora, segundo Heráclito, já vem pronto e acabado,
é adquirido sem uma prévia crítica que pode ser verdadeiro ou falso, não existe
identidade, onde tudo flui e que tudo que existe nada pode ser aprendido na sua
essência.
No diálogo
entre Sócrates e Hipócrates, Platão escreve (pg. 98 – Protágoras) como exemplo:
“Assim também os que fazem circular conhecimentos pelas cidades, vendendo em grosso e a retalho a quem quiser, elogiam tudo quanto vendem, mas talvez alguns, excelente amigo, também ignorem disso que vendem o que é bom ou mau para a alma; e da mesma maneira igualmente os que compram deles, a menos que, também nesse caso, algum seja médico da alma.”
O discurso
do sofista se baseia no ser da coisa e para Platão, o ser é o centro de tudo,
quando diz:
“Porventura,
Hipócrates, não será o sofista uma espécie de comerciante ou varejista das
mercadorias com que a alma se nutre? Para mim, pelo menos, é assim que ele
parece – e de que é que se nutre a alma de alguém? – de conhecimentos, sem
dúvida, respondi-lhe.”
O que
Platão mostra é que para se alimentar a alma é necessário buscar o conhecimento
que é a epistéme (teoria do conhecimento –
consciência de si), e aí está toda a questão, pois é um trabalho individual, ao
passo que para os sofistas, estes ensinavam que havia apenas opiniões válidas
para o homem por necessidade psicogenética.
Os
sucessores sofísticos de Sócrates achavam ser impossível adquirir-se um
conhecimento seguro através das hipóteses naturalísticas e metafísicas para a
ética do homem, pois se baseavam na intuição prática como conhecimento da vida
moral, pois a ciência só tinha valor na medida em que proporcionava ao homem a
intuição capaz de o tornar feliz, tendo em vista que toda a vida psíquica
consistia apenas nas percepções.
A questão
para Platão é o homem estar conectado com a essência do absoluto, através do
saber o que para os sofistas o importante é ser feliz através das percepções, o
que é uma ilusão.
Outra
passagem muito importante em Protágoras, onde Platão escreve:
“Quando porém é sobre virtude política que vão a conselho, cujo andamento é todo através da justiça e da sensatez, com razão suportam ouvir qualquer homem, certos de que a cada um cabe participar desta verdade sob pena de não haver cidades. Mas, para que não imagines estar sendo enganado na idéia de que realmente todos os homens julgam que todo homem participa de justiça e de qualquer virtude política, considera por outro lado esta prova. Pois nas outras virtudes, como tu dizes, se alguém afirma que é bom em flauta, ou em qualquer outra arte em que não é, ou riem ou se irritam, e os parentes vão a ele e o aconselham como a um louco.
Mas no caso da justiça e da virtude política em geral, se de alguém sabem que é injusto e se contra si mesmo diz a verdade na frente de muitos, o que ali consideravam ser sensatez dizer a verdade, aqui consideram loucura e afirmam que todos devem declarar-se justos, sejam ou não, ou que está louco o que não fingir justiça, pois acham uma necessidade que ninguém de qualquer maneira deixe de participar dela sob pena de não ficar entre os homens...
... E se os demais povos castigam e punem os que eles julgam cometer injustiça, sobretudo assim agem os atenienses teus concidadãos: de modo que, segundo esse argumento, também os atenienses são daqueles que julgam ser a virtude algo que se prepara e se ensina. Portanto, que os teus compatriotas com razão aceitam que ferreiro e sapateiro aconselhem sobre questões políticas, e que julgam virtude com algo que se ensina e se prepara, está suficientemente demonstrado Sócrates, pelo menos a meu ver.”
Platão
comenta o trecho acima porque tinha em mente que qualquer que fosse uma
sociedade, nunca seria perfeita por causa do homem não possuir vergonha (aidos) e não fazer justiça (diki)
e estas virtudes não podem ser ensinadas como achavam os sofistas, pois
estariam desconectadas da justiça divina (métis).
Esta justiça a que se refere Platão está inserida na árvore da vida das
ciências ocultas, e ela está presente entre o ser (espírito) e o uno e para acessá-la é preciso passar pelo mediador que é o espírito.
Os sofistas
estavam longe deste caminho por ignorância, por desconhecerem.
Platão
dizia que o comum do ser humano é ensinar a evitar o erro, mas não se ensina a
proceder corretamente, e somente através da via alethéia
(intenção do saber) através da alma e do espírito que o homem tem vergonha e
faz justiça.
Bem no
sentido inverso, os seguidores de Protágoras desenvolveram o hedoismo de Aristipo:
“Nós não conhecemos as coisas, opina ele, mas apenas o valor que representam para nós e os estados que suscitam em nós. Estes, porém, são repouso e indiferença, movimento violento e dor ou movimento suave e prazer. De todos eles, só ao último vale a pena aspirar-se (CFR, Atrás §§ 7,9).” E. LAAS, Idealismus und positivismus, vol. I, Berlim, 1880.
Como se vê, os sofistas não tinham a menor
intenção de chegar a verdade, e por isto não poderiam ter vergonha e justiça,
pois quanto a verdade, Protágoras diz:
“O homem
é a medida de todas as coisas, daí que são como são e daí que não são como não
são.”
Para a
educação é necessário que hajam virtudes e não seja baseada em convenções,
feita por leis, como é o modelo sofista que prevalece até hoje, pois a
sociedade nunca poderá ser perfeita tendo em vista que quem faz as leis não o
faz pelas virtudes que estão ligadas a alma e ao espírito, pois estes estão
desconectados das essências, é o que Sócrates dizia, e Platão muito bem as
colocou.
Para a
política se fazer justa é necessário que o político seja virtuoso, pois assim
sendo será justo, piedoso, sábio, honesto, integro e não irá se corromper no
poder; o que vemos na realidade é que os políticos usam muito uma cópia
distorcida deste ideal, pois o discurso fica no simulado não se aprofundando e
com isto só atinge o mundo dos sentidos, do relativo, pois não chega ao mundo das
idéias do ser, do absoluto, da perfeição.
Para
Protágoras a força é que vale, e as virtudes existem em função de quem tem o
poder para usá-lo em seu próprio proveito, e prevalece até os dias de hoje este
pensamento, como dizia no diálogo:
“...Sabedoria
é força; mas eu também neste caso de modo algum concordo que os poderosos são
fortes, e sim que os fortes são poderosos; pois não penso ser a mesma coisa
poder e força, mas sim que o poder provém da ciência, e também da loucura e da
emoção, enquanto que a força é da natureza e da boa nutrição dos corpos.”
Como vemos
é um discurso totalmente ligado aos sentidos e neste caso o modelo sofista
jamais vai atingir o ser e o absoluto, pois não busca o conhecimento, ficando
na ignorância que leva ao vício e por não trabalhar com as virtudes, a verdade
não terá o saber.
Para
Sócrates, o mal é cometido pelo não saber, pela ignorância que está nos
sentidos, no inconsciente e se for voluntariamente seria pelo efeito da ação.
Ensinou
também que existe uma diferença entre a ousadia que está próxima da
loucura enquanto que o corajoso o é, pois tem sabedoria e saber.
Protágoras dizia que o corajoso pode ser injusto, e que não há necessidade do
saber.
Se a
coragem é conseqüência do saber, é então uma virtude que não pode ser ensinada,
daí o pensamento sofista que não há ligação entre a coragem e a virtude.
Quem sabe
por virtude não erra e para Platão a filosofia é o diálogo da alma consigo
mesmo, levando-o à sabedoria que é a ponderação de escolher o modo e a ação, e
só o é pelo conhecimento.
Platão em Fedro (mito da parelha alada § 247) – nos diz:
“Devemos
dizer sempre a verdade, quanto mais obrigados o seremos ao falarmos da própria
verdade. A realidade sem forma, sem cor, impalpável só pode ser contemplada pela
inteligência, que é o guia da alma e é na idéia eterna que reside a ciência
perfeita, aquela que abarca toda a verdade.”
E é aí que
está toda a idéia de Platão, integrando o homem com sua mente, emoções,
sentidos, memória, inconsciente para o mundo das realidades da essência como a
verdade, a justiça, a sabedoria, a ciência, a beleza e o bem que são perfeitos.
V. CONCLUSÃO
Nestes 2500
anos que nos separam de Platão, a temática do saber, do conhecimento é a mesma.
Infelizmente
o modelo que sobreviveu é sofista e vemos este modelo em todos os setores da
sociedade.
A falta de
vergonha e de justiça levou tiranos a cometerem atrocidades bárbaras em toda a
nossa história, por estarem desconectados da essência, da verdade.
Platão
sabia que o mundo vive na dualidade entre o bem e o mal e a busca da verdade
seria a nossa salvação e sobrevivência, pois desde a Suméria
(3800 A.C.) onde foi o marco zero do que é conhecido da nossa civilização já
havia o mal, que é uma constante e os mestres como Platão, Buda, Cristo,
Pitágoras, etc. tiveram a missão de mostrar a verdade e a essência do Uno, e
com isto a tragédia humana seria evitada.
Desde o
marco zero da nossa civilização onde temos os primeiros registros por não haver
a conexão com a essência, tivemos um passado marcado pelo horror.
Na Suméria (3800 A.C.) o Deus Enlil
quis que os homens passassem fome, e isto aconteceu, além de outras
barbaridades. Nasceu aí o canibalismo, pois se passou a comer crianças.
Se
passarmos pelas monarquias, de Uruk, UR, Nipur, Lagash e Kish vamos ver que o terror era oficial.
Em Ur, os sacrifícios mais conhecidos eram feitos quando
várias pessoas se imolavam simultaneamente e eram enterradas junto com as
“entidades sagradas” e seus tesouros.
Na China de
Chang-Ti muitos sacrifícios foram feitos também, e em
213 A.C. Che-Huang-Ti atacou as escolas de filosofia
como subversivas, pois eram uma ameaça para a tirania.
Sila 86 A.C., descobriu um
sistema de arrecadar dinheiro que funcionou muito bem: bastava proclamar
através de decreto um homem como criminoso, sem sê-lo evidentemente, e enviá-lo
AD-partes e reivindicar sua fortuna. Segundo a lei que Sila
criara, qualquer um tinha o direito de matar estes homens acusados. O processo
teve tanto sucesso em Roma que muitos anos adiante outros ditadores de outros
países inspiraram-se em Sila.
Calígula se
divertiu em brincar de Deus, e seguiu os passos de Sila,
além de ter prazer em matar.
Se fossemos
enumerar todos aqueles que detinham o poder e se afastaram da verdade da
essência, faríamos um livro, mas analisando pela questão numérica, foi no
século passado a maior tragédia, com a implantação do comunismo.
Hoje na
Rússia existem organizações que estimam entre 60 a 80 milhões de russos que
foram mortos a partir da Revolução de 1917 para a implantação do comunismo e
após esta matança toda e com a máfia russa dirigida por elementos do governo em
plena atividade e muita corrupção, este sistema acabou como se fosse por
decreto, tendo a maior parte de sua cúpula permanecido no poder se tornando
capitalistas da noite para o dia como se nada tivesse acontecido e que até hoje
muita gente de lá e do mundo ainda não entendeu o que se passou; e ainda o
sistema mentia quando fazia propaganda enganosa para o resto do mundo passando
uma idéia de justiça e virtude política exatamente como Platão dizia no seu
diálogo.
O mesmo
aconteceu com os países que pertenciam a cortina de ferro. Na Romênia, por
exemplo, foram encontrados nos porões da casa do presidente uma quantidade
enorme de ouro e dólar e o povo revoltado com a brutalidade de seu ditador
condenou-o a morte. Na China desde a Revolução Vermelha de Mao,
segundo organizações de direitos humanos, foram mortos 120 milhões de chineses
e que ainda hoje ainda são perseguidas várias atividades culturais e
espirituais.
No Camboja,
30 milhões foram mortos pelo governo da revolução, tendo sido eliminados todos
com curso superior pois poderiam incomodar o sistema. Um dos seus líderes foi
julgado recentemente.
O nazismo
não foi diferente e se cometeu outro grande crime bárbaro contra a humanidade
matando inocentes em nome de uma suposta superioridade de uma raça humana.
O
capitalismo sendo irmão do comunismo atua de outra maneira perversa, pois
existem países ricos que controlam a economia do mundo e as bolsas de valores
em nome da superioridade tecnológica que por serem os mais fortes mesmo sendo
uma minoria ditam as regras, como diz Thomas Cahill,
257 a Dádiva dos Judeus:
“O capitalismo e o comunismo são filhos bastardos da Bíblia, pois são
credos progressistas, moldados na fé bíblica, exigindo de seus adeptos que
nunca percam a fé no futuro, mantendo diante de seus olhos a visão de um amanhã
melhor, que esse amanhã contenha um produto nacional bruto maior ou um paraíso
dos trabalhadores. Mas como o capitalismo e o comunismo são credo progressistas
sem Deus, cada um é uma forma de loucura – uma fantasia sem garantia.
Todos os
que partilham esse sonho ultrajante de fraternidade, paz e justiça universal,
que sonham os sonhos e tem as visões dos grandes profetas, podem chegar a contemplar
a possibilidade de quem sem Deus não há justiça.”
Na verdade
o capitalismo e o marxismo e todas as suas ramificações são herdeiros do
materialismo e este do relativismo. Vemos que há uma relação grande do discurso
sofista de Protágoras com o relativismo e com o humanismo, pois o discurso
sofista se baseia no conhecimento que se limita às idéias e representações
elaboradas pelo sujeito pensante, sendo impossível alcançar a objetividade se
fixando no mundo sensível do relativo; no relativismo que tanto o capitalismo e
marxismo e socialismo, se originam através do materialismo não existem verdades
absolutas, mas apenas verdades relativas, se igualando ao discurso sofista, que
é pela vida da dóxa – vem de fora, vem pronto, se
adquire sem uma prévia crítica e neste sentido é um conhecimento com um valor,
que pode ser verdadeiro ou falso e só tem a aparência do saber.
Podemos
observar que a maior parte dos sistemas que já existiram e que existem tem este
discurso inclusive o socialismo que tem a definição do indivíduo como sendo uma
existência concreta e real, e apenas esta existência tem sentido humano e
natural.
Quanto ao
humanismo, há uma semelhança grande com as idéias de Platão, pois enquanto o
relativismo e discurso sofista anti-metafísicos, esvaziam o homem do ser
reduzindo-o a natureza, o humanismo e o idealismo de Platão dão uma dimensão
espiritual ao homem pois o espírito o torna um ser livre, através da dimensão
da transcendência, pois conhecendo-se a si mesmo, o homem pode conduzir sua
existência. Com certeza, a integração do relativo (natureza) com o absoluto
(espírito) que Platão pregava e que não foi muito bem estendida até pelos neo-platonistas, e aqui voltamos para Platão, que dizia que
sua filosofia estava certa porque estava ligada a essência das verdades
absolutas e pela sua doutrina o mal destes todos modelos políticos existe
quando há ausência da essência, ou quando há outras intenções ocultas e
nefastas que podem se valer em nome desta essência para outros fins como dizia
Platão, para o caso da justiça e da virtude política que todos políticos
afirmam declarar-se justos, sejam ou não, ou que está louco o que não fingir
justiça;
Platão
também dizia que qualquer sociedade, não será perfeita por causa do homem e do
político não ter vergonha e justiça e é exatamente isto que vemos, pois para se
ter vergonha e justiça é preciso ser virtuoso, e as virtudes não podem ser
ensinadas pois estão inseridas no espírito através da alma, e o saber (epistéme) vão acessar as virtudes.
O homem, o
político e os sistemas políticos cometem o mal porque este é oriundo do não
saber, da ignorância, que gera o vício pois estão atuando na área do
inconsciente, dos sentidos, do relativo da alma, pois se acessassem o espírito,
encontrariam o caminho da perfeição, da essência, da verdade.
No Brasil
quando assistimos recentemente associações de partidos políticos socialistas e
comunistas com igrejas evangélicas vemos que o ser humano ainda não entendeu
por questões de interesse pessoal ou outros duvidosos o significado de
transcender as ilusões do mundo sensível e alcançar a essência da verdade, pois
são filosofias, teorias e credos diferentes, uns que negam as verdades
absolutas, outros que supostamente acreditam.
É preciso
repensar a teoria que Platão do ser integrado e realizado para se criar um
partido político que busque essa essência da verdade, onde a justiça não seja
cega, onde a educação ensine como chegar a esse essência, onde a saúde integre
o ser humano como ele foi criado e não por partes, onde o capital não escravize
e nem destrua com suas práticas nefastas, onde as ciências trabalhem em prol
desta verdade.
Este ser e
sistemas perfeitos são possíveis, desde que haja consciência e vontade.
Platão foi
mal interpretado pois como dissemos muitos desconheciam e desconhecem seus
verdadeiros objetivos por não saberem a respeito da iniciação, como diz Edouard Schuré pg. 307 – Os
grandes iniciados:
“Platão definiu e criou, fora dos sistemas estreitos e das religiões particulares, a categoria e das religiões particulares, a categoria do ideal, que devia substituir por séculos, e substitui até nossos dias, a iniciação orgânica e completa. Ele franqueou as três vias sagradas que conduzem a Deus, como a via sagrada de Atenas conduzia a Elêusis pela porta do cerâmico. Tendo penetrado no interior do templo com Hermes, Orfeu e Pitágoras, julgamos melhor a solidez e a retidão daqueles largos caminhos construídos pelo divino engenheiro Platão. O conhecimento da iniciação nos dá a justificação e a razão de ser do idealismo...
... Estabelecendo a categoria do ideal, o iniciado Platão criou portanto um refúgio, abriu o caminho da salvação a milhões de almas que não podem nesta existência, alcançar a iniciação direta, mas aspiram dolorosamente à verdade.”
Tenho
certeza que um dia todos conhecerão esta verdade, e tudo será diferente.
Fernando Coelho
Cintra
VI. BIBLIOGRAFIA
ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: introdução
à filosofia. Editora Moderna Ltda.
CAHILL, Thomas. A Dádiva dos Judeus. Editora Objetiva
Ltda.
COTRIM, Gilberto. Fundamentos da Filosofia. Editora
Saraiva.
FRAILE, Guillermo. Historia de La Filosofia
III. Biblioteca de Autores Cristianos. Madrid.
JERPHAGNON, Lucien.
Dicionário das Grandes Filosofias.
Edições 70,LDA. Lisboa.
MARCONDES, Danilo. Iniciação à História da Filosofia.
Jorge Zahar Editor.
MARINI, Alex. Fedro – Platão
– Martin Claret.
SCHURÉ, Édouard. Os Grandes
Iniciados. Ibrasa.
TEIXEIRA, Eleazar Magalhães.
Platão, Protágoras. Universidade Federal do Ceará.
VILHENA, V. Magalhães. Panorama do Pensamento
Filosófico. Edições Cosmos, 1958.
VITAL BRAZIL, Stella Telles. A
Divina Filosofia Grega. Ordem Rosa Cruz. Amorc.