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A Noção de Singularidade em Kierkegaard e Nietzsche

(Trabalho apresentado como conferência no IV Congresso Brasileiro de Psicoterapia Existencial - SP 1997)

Estudando e pensando sobre os dois filósofos, Nietzsche e Kierkegaard, surge uma curiosidade: como pode existir um ponto de contato que os torne semelhantes se um é ateu e outro tão religioso? Como podem estes opostos levar o homem à sua própria transcendência? Como posso sentir semelhança entre eles? Descubro tal possibilidade, quando sou capaz de ser demasiadamente humana, como Nietzsche e, ao mesmo tempo, ter a fé absoluta de Kierkegaard. Assim, ambos passam a existir em mim, fazendo parte da minha própria filosofia.

Há alguns anos, costumava andar de bonde e reservava estes momentos para pensar, refletir e escrever. Sentia os olhares curiosos a me julgarem como uma pessoa "diferente". Ao pousar meus olhos em uma cerca florida, observando os filhotes de andorinha recém-nascidos, tão simples em sua liberdade de estar sendo no mundo, pareço desatenta para uns, sonhadora para outros. Mas é justamente neste jeito singular de descobrir a liberdade que sinto a singularidade e a subjetividade mencionadas por Kierkegaard. E a convicção de não me deixar aprisionar pelo convencional faz surgir em mim a vontade de potência, mencionada por Nietzsche como força criadora.

Posso, numa visão do singular, ir do individual ao supra-individual, do simples ao complexo. Neste processo de redimensionar e transformar, caímos num eterno movimento criador rumo ao super-homem de Nietzsche ou ao absoluto de Kierkegaard, mas sempre num mesmo caminho, comum a ambos, que é o da descoberta de si mesmo.

Na busca e na tentativa de encontrar pontos de aproximação entre estes dois grandes filósofos, descubro a paixão pelo ser humano, pela existência, e o AMOR em suas formas mais fortes e mais simples. Torno-me uma apaixonada por ambos, experienciando em mim a contradição e a angústia humana, mas podendo ter a liberdade de escolher ora um ora outro; encontrar-me com um e com outro; mas ser apenas eu.

Kierkegaard afirma a subjetividade: segundo ele, o indivíduo deve primeiro fazer a constatação de que existe em si, por si e para si, numa apropriação de si mesmo. O indivíduo de Kierkegaard pode fazer a abstração de tudo, menos de si mesmo. Não existe o sofrimento, mas o homem que sofre. A singularidade é, então, o que é próprio do homem, é a qualidade a partir da qual é possível assumir a si mesmo na sua condição humana, com toda sua ambigüidade. É a experiência pessoal e sofredora que dá o sentido da vida, um sentido válido para o próprio indivíduo.

Kierkegaard insiste na necessidade da apropriação subjetiva da verdade, pois assim, o desenrolar do pensar estaria fundamentado em algo ligado à sua raiz mais profunda: o indivíduo, a existência. Ele concebe a existência como potência, com a idéia de ir em direção a Deus; uma vontade, portanto, de progressão. Assim, a fé não pode ser dada, como um remédio ou um milagre, para um determinado momento; ela é o resultado de um caminho totalmente pessoal.

O indivíduo kierkegaardeano e sua subjetividade são o ponto central de sua filosofia, que assinala o que há de mais rico, mas também tortuoso na singularidade.

Kierkegaard sinaliza o abismo infinito que há entre o indivíduo em sua singularidade e o Espírito Absoluto; entre o tempo disponível ao indivíduo para realizar suas potencialidades e a eternidade, que é o próprio Deus, o Indivíduo Infinito. É essa paixão, essa importância dada ao indivíduo, eixo condutor de seu pensamento, que o aproxima de Nietzsche. A verdade se afirma na subjetividade, o que significa dizer que a verdade deve ser um compromisso pessoal do indivíduo, já que tem raízes na existência concreta e integrada de cada um. Para Kierkegaard, o indivíduo é energia viva, ativa, auto-determinante, que surge a partir de situações concretas de opção, que se originam em momentos nos quais o homem focaliza todas as suas potencialidades numa opção que ressoará por toda a vida. Neste ponto, Kierkegaard aproxima-se de Nietzsche, que nos fala da vontade de potência, a vontade de poder do homem, que se torna a força motriz para seu percurso na existência.

É na ousadia de sermos nós próprios, de sermos indivíduos libertos do "eu que é para", tornando-nos um "eu para sua própria invenção" que se reflete a singularidade de que nos fala Kierkegaard. Pensar o instante permanecendo no interior do devir; penetrar na existência, consciente de poder estar bem além dela: assim, a conquista da existência é a conquista do próprio eu em sua individualidade.

Na verdade, o pensamento de Kierkegaard sobre a singularidade lhe serve para salvaguardar o indivíduo contra o conformismo da mentalidade das massas.

"O pensamento de Kierkegaard não contém outra coisa, não é outra coisa senão o estudo profundo, impiedoso, cruel até, das diversas formas da luta do homem consigo próprio para a conquista da existência, que é a conquista do próprio eu em sua individualidade."
(Gilles, 1975, p.22)

"Kierkegaard não ignora certamente que do singular fazem parte as relações com os outros e com o mundo que definem a esfera do seu objetivo ou de seu trabalho, mas o que lhe interessa é a solidão do indivíduo perante Deus".
(Abbagnano, p.40)

O homem, quando desespera para ser si próprio, quando mergulha profundamente em seu eu, em busca de sua própria autenticidade, para descobrir seus talentos e qualidades, constata sua própria realidade no abismo profundo de si mesmo, na profundidade de sua alma, mas logo as solicitações da sociedade o fazem abandonar-se e seguir em frente. Porém, a cada busca de si mesmo sempre surgirá um novo ser. Este homem autenticamente humano, despido de tudo diante de seu eu e de Deus, enfrenta a dor de sua fraqueza e a potência de sua capacidade de se saber humilde diante da força da fé absurda diante de Deus, mas seu caminho é feito pela possibilidade de se libertar de si próprio e fazer suas escolhas na dureza do olhar sobre suas mazelas. Este mesmo homem autenticamente humano que enfrenta com desespero suas dores é o herói nietzscheano que supera a si mesmo e ressurge como força de criação.

No desespero de ser si mesmo, o homem kierkegaardeano chega à profundidade de compreender o próprio desespero: desespera pela perda da eternidade e do seu eu determinado pelas tradições e costumes da sociedade. Este desespero não é temporal, não vem de fora: vem do eu, vem de um desafio que traz consigo o progresso e o aprender sofrendo. E esta busca do amor por si mesmo, este contato consigo mesmo é sem dúvida um momento de solidão. Penso então ser este o caminho a ser percorrido: o do desespero do eu para chegar ao seu eu verdadeiro.

Kierkegaard nos diz:

"O desespero em que pretendemos ser nós próprios exige a consciência de um eu infinito, que no fundo não é senão a mais abstrata das forças do eu (...) Com o auxílio dessa forma infinita, o eu quer desesperadamente dispor de si, ou, criador de si próprio, fazer do seu eu o eu que quer ser, escolher o que admitirá ou não no seu eu concreto. Pois este não é uma qualquer concretização, é a sua e, com efeito, comporta necessidades, limites, é um determinado, preciso, particular, com os seus dons, os seus meios, etc..."
(Kierkegaard, O Desespero Humano, p. 76,77)

Escrevendo sobre a filosofia de Kierkegaard a respeito do desespero humano, sinto ser importante fazer algumas considerações sobre Nietzsche.

Certa vez, Nietzsche viu uma tropa de cavalaria passando através da cidade com grande ostentação. Naquele exato instante, conta ele, veio-lhe à percepção a visão da qual viria toda a sua filosofia:

"Senti pela primeira vez que a mais elevada e mais forte Vontade de Viver não encontra expressão numa lastimável luta pela sobrevivência, mas sim numa Vontade de Guerrear, numa Vontade de Poder, numa Vontade de Conquistar."
(Nietzsche, em: Durant, 1985, p.24)

Nietzsche viveu com autenticidade sua própria filosofia. Em dado momento, vendo-se à beira da morte, preparou-se para o fim com audácia e pediu à sua irmã, demonstrando toda a sua singularidade: "Prometa-me, que quando eu morrer, somente meus amigos ficarão em volta de meu caixão e não a multidão de curiosos. Não deixe que nenhum sacerdote ou qualquer outra pessoa profira falsidades junto ao meu túmulo, quando eu não puder mais me defender, e deixe-me descer à cova como um pagão honesto". Mas não foi durante esta grande preparação para a morte que o filósofo faleceu, pois deste momento veio seu amor à saúde e ao sol, à vida, ao riso, à dança, à música. E veio-lhe também uma vontade mais firme, nascida do combate contra a morte, um homem que sentia a doçura da vida mesmo na amargura e na dor. E assim ele se expressa:

"Minha fórmula de grandeza é Amor fati: ... não apenas suportar com coragem as necessidades, mas fazê-lo com amor".
(Nietzsche, em: Durant, 1985, p.42)

Quanta aproximação posso perceber com Kierkegaard e seu pensamento sobre o homem que quer a si mesmo e a tudo que dele vem, e angustia, sofre; mas surge e ressurge no aprendizado da vida, desperta para transcender a si próprio, elevado pelo Amor da busca de poder ser!

Mas o Nietzsche filósofo tornou-se também um poeta do singular, personificando o profundo sentir humano. Diz ele na Itália, do alto dos Alpes:

"Sentei-me lá a aguardar - a aguardar nada,
Apreciando, além do bem e do mal,
Ora a luz, ora a sombra
Havia apenas o dia, o lago, o sol alto, o tempo sem fim.
Então, meu amigo, um passou a ser dois
E Zaratustra passou por mim."
(Nietzsche, em: Durant, 1985, p.45)

Nietzsche havia encontrado um novo Mestre Zoroastro, um novo deus - o super-homem, e ele não podia deixar de cantá-lo em verso, fazendo da sua filosofia uma poesia, sob a mais vibrante inspiração.

"Eu poderia entoar um canto e o entoarei, ainda que esteja sozinho numa casa vazia, e tenha que cantá-lo para os meus próprios ouvidos."
(Nietzsche, em: Durant, 1985, p.46)

Assim, Nietzsche, o homem-filósofo-poeta desvela para toda a humanidade o poder do ser humano. Vê o homem sob nova luz e é desta forma e nesta potência que o homem nietzscheano se torna um super-homem, capaz de fazer tudo por si mesmo, desconsiderando a existência de um Deus.

Foi no alto dos Alpes que surgiu toda sua inspiração, enquanto contemplava o mundo: céu e terra. Kierkegaard também esteve no alto de uma montanha, mergulhado na solidão do encontro consigo mesmo e, através da fé, fez seu contato único com Deus. Este momento de contemplação do mundo e do homem os torna distintos e singulares, e, juntos, fazem-se em mim imprescindíveis.

Nietzsche, ainda hoje, nos instiga a pensar; e Kierkegaard nos mantém na possibilidade de escolher nossos caminhos. É Kierkegaard que nos acena com as possibilidades de escolhas, apesar do sofrimento e da angústia, mas é Nietzsche que, através do seu super-homem, mostra que a verdadeira vida é horror e dor, mas, nem por isso, retrai-se ou foge dela.

Kierkegaard vê o indivíduo como movimento permanente de saída e entrada dentro de si mesmo, apropriando-se e temendo apropriar-se de si mesmo, mas trazendo um sentido para criação e vida na existência.

Nietzsche critica toda forma definitiva, permanente e imutável de vida que tende a petrificar-se e a negar a contínua inovação e diferenciação do devir.

Kierkegaard aceita a realidade e a existência de Deus e não nega nada ao homem como ser criador e governante de seu caminho existencial. Nietzsche nega Deus e crê apaixonadamente em um ser humano capaz de transcender-se e assim colocar-se diante do devir sem fugir, sem desespero, para a construção de um mundo verdadeiro fora do mundo do conformismo e da tradição.

Nietzsche apaixona-se pela vida: diz sim para viver, aceitando até o fim todos os aspectos do devir. Kierkegaard apaixona-se pelo homem. Viver é importante, o indivíduo é importante: a vida do homem é importante; o indivíduo vivendo e sendo vivido é a existência.

Revela-se em seus pensamentos, sem dúvida, a filosofia mais autêntica, verdadeira, singular, dentro de uma subjetividade profunda que dispõe o homem para amar a si mesmo e amar a vida, tornar-se criação chegando à plenitude.

O homem atual busca novos paradigmas, derruba valores, crenças e liberta-se. Solta suas amarras e busca o encontro com uma realidade cada vez mais próxima de si mesmo. Nietzsche muito se aproxima deste homem de hoje quando afirma que o único mundo real é o mundo da experiência. O único mundo é este que se apresenta diante de nós: ameaçador, onde a certeza do homem está na imprevisibilidade de todas as coisas. O mesmo mundo onde o indivíduo kierkegaardeano abre as portas da infinitude das possibilidades humanas para viver um caminho de desenvolvimento real e autêntico.

"O pensador dinamarquês atribuiu a si mesmo a missão de defender o singular contra o geral, tarefa que, no Diário, compara à de Leônidas, o herói das Termópilas, a quem coube resistir às investidas do inimigo. No caso de Kierkegaard, o inimigo, ninguém duvida, é toda forma de sistema. Chegou mesmo a manifestar o desejo de ter como epitáfio a expressão: 'Aquele singular' ".
(Penha, 1982, p.17)

Quando Nietzsche apresenta o super-homem, fala da constituição do homem que parece ter sido feito para melhor suportar os enganos e os erros. Aproxima-se de Kierkegaard quando demonstra a dificuldade que tem o indivíduo de olhar para o seu sofrimento, procurando muitas vezes desviar o olhar de si mesmo, recusando-se a pensar e, assim, abandonando a si próprio. Para Nietzsche, é possível avaliar a força de uma vontade pela resistência, sofrimento e tortura que tal vontade é capaz de suportar e transformar em vantagem própria.

O indivíduo kierkegaardeano, como o homem nietzscheano, vive uma constante inquietude, com o coração palpitando de amor e paixão, com o espírito criador tão apaixonado pela vida que a quer ver repetidas vezes na configuração do movimento de crescimento em direção ao Absoluto de Kierkegaard e ao eterno retorno de Nietzsche.

Quando Kierkegaard se refere à subjetividade como fundamento de sua filosofia, é porque o indivíduo, no percurso da vida, deve primeiro constatar que ele existe em si, por si e para si; o importante é o que eu faço, como faço e para quê faço. Também para Nietzsche, o projeto de vida do homem é criação de si para si. Os homens fracos são exatamente aqueles que demonstram falta de vontade ou prazer de viver para eles mesmos e, odiando-se, preferem não ser indivíduos, abdicando de si mesmos.

Amar a si mesmo é para Nietzsche uma virtude que traz consigo a vontade de potência e a alegria de ser quem se é.

Percebi, ao deter-me nestes dois grandes filósofos, que ambos viveram e sofreram seus pensamentos. Penso que este fato é uma inspiração para a nossa admiração a esses homens de autêntica coragem em advogar o compromisso do ser humano com a sua vida e com a existência, tornando suas idéias filosóficas um ato de crer.

Kierkegaard demonstra estar preocupado com o motivo pelo qual as pessoas tendem a tomar as coisas como certas, e simplesmente aceitar o mundo de acordo com as circunstâncias que lhes são apresentadas. Segundo ele, para sermos os governantes de nossas vidas, não podemos permanecer neste estado passivo de permissão em que nossos sistemas de valores e significados são determinados por hábitos e tradições. Nietzsche também se mostra bastante preocupado com o modo como estes valores externos aos indivíduos tornam-se capazes não só de possuí-los como torná-los alienados de si mesmos.

Kierkegaard acredita que esta tarefa de tomar as rédeas de seu próprio caminho só se tornará possível se o indivíduo mantiver uma parceria com Deus, o que ele mesmo acreditou ter feito. Já Nietzsche acredita que o homem só chegará à realização desta subjetividade, deste estabelecer sua própria verdade, se Òmatar DeusÓ, isto é, se eliminar qualquer transcendência, se destruir a metafísica. Porém, tanto um como outro perceberam que o indivíduo em escolha e ação determina quem ele será e como resolverá seu dilema face à existência. A forma como eles viveram isto em suas filosofias e existências é que revela o modo singular e próprio de cada um.

Para Kierkegaard, verdade é subjetividade. Ele discute a verdade em relação às ações das pessoas e suas atitudes: se temos crenças ou valores que motivam nossas ações, se vivemos estas crenças, então esta verdade é particular, é subjetiva; entretanto, se a minha crença não motiva as minhas paixões, esta crença é objetiva. A verdade objetiva não é verdade. E a vida baseada nesta verdade objetiva está em desespero. É assim que Kierkegaard nos leva a pensar sobre as religiões que institucionalizaram o Cristianismo e estabeleceram valores e verdades objetivas para os indivíduos, e é este Cristianismo institucionalizado (Catolicismo, Protestantismo, etc.) que Kierkegaard vai chamar de inverdade, pois estes não parecem motivar paixões, ações e pensamentos das pessoas, não parecem ser a forma dinâmica de significado e valor na vida das pessoas; mas parecem ser o que Kierkegaard chama de verdade objetiva, talvez uma "verdade morta". O seu cristianismo, pelo contrário, não é institucionalizado, mas interno, subjetivo, dinâmico, vivo, um guia passional da existência, fruto de uma relação pessoal e paradoxal com Deus.

Também em Nietzsche podemos observar a presença desta mesma verdade forte, por ser subjetiva.

"O indivíduo nietzscheano tira sua força do prazer do seu ser próprio (Humano, Demasiado Humano), não precisa dos outros para sentir-se reconhecido porque ele se apresenta, se afirma e se reconhece a si mesmo (...)"
(In Café de Flore no 5, pág. 6)

Nietzsche considera ser verdade somente o que for criação do sujeito: alguma coisa que está nele e que se desvela como ato criador a qualquer momento. É, então, algo que jamais será fechado. A criação de uma verdade alicerça outra e mais outra, num movimento sem fim. E com esta visão, ele combate o determinismo e chega ao pensamento relativista atual, quando a própria Física sai do determinismo para o princípio da Relatividade. Kierkegaard também construiu suas idéias filosóficas dentro da abertura das possibilidades de criação que envolvem o ser em seu próprio processo criador. Em ambos os filósofos, a vida é para ser vivida como uma grande busca, um forte desejo de conquistar. Seja para atingir o super-homem nietzscheano ou para o salto do absurdo da fé do homem kierkegaardeano, é a individualidade o que mais importa na existência do ser.

O homem deve preservar toda a sua possibilidade criadora vivendo a liberdade de seus atos e pensamentos, cuidando para não se deixar aprisionar nem mesmo pelas suas paixões. A simplicidade de ser livre é um caminho difícil, por envolver o tempo todo escolha e responsabilidade, as quais muitas vezes, pelo desconforto da própria angústia, o homem prefere ignorar, caminhando sem olhar a si mesmo. Entretanto, é possível que o ser venha a desenvolver sua singularidade a partir da descoberta do gosto pela liberdade, e deste ponto poderá talvez ser capaz de comprometer-se com um mundo melhor. O compromisso consigo mesmo levará a um compromisso com o outro. A existência é, então, compromisso com a vida.

Chego à conclusão, após ter estudado e ter-me embrenhado pelo pensamento desses dois filósofos, que na aparente diferença há muitas semelhanças. Não posso, sem dúvida, à luz de suas idéias, deixar de perceber que esta aproximação que por hora faço entre eles também depende da minha própria singularidade em vê-los, tornando-se para mim uma verdade. Tal verdade posso ver refletida no encontro terapêutico onde o indivíduo se encontra consigo mesmo e o terapeuta procura auxiliá-lo no caminho de busca do seu crescimento e recriando a si mesmo. Os dois, tal qual um escultor que vai gradativamente moldando sua peça, cuidando para lapidar cada pequena forma, quando afinal, tem sua obra de arte; sem esquecer que uma próxima escultura pode vir a ser diferente, uma vez que aquele que se descobre criador sabe que a criação não se repete: é única, singular. Entretanto, é sempre capaz de motivar-se para novas esculturas e criações. O terapeuta também pode reconhecer, dentro da inspiração do pensamento de Kierkegaard e Nietzsche, que cada encontro com seu cliente é único, singular e possibilita novos caminhos e novas descobertas para ambos.

Em certa ocasião, ouvi, numa sessão de terapia, uma cliente dizer: "Não tenho religião. Fui criada no catolicismo, tenho pavor de espiritismo, entretanto nem sei explicar... sinto-me uma pessoa espiritualizada. E este sentir surge em mim quando fico pensando sobre as sessões, no retorno a mim mesma. Aí encontro uma conexão das minhas idéias com Deus. Será isso o que eu posso chamar de fé? Parece, na verdade, que dialogo com Deus. Sinto-me então, uma pessoa espiritualizada. Você entende o que eu digo?" Como entendi e compartilhei aquelas palavras! Remeteram-me de imediato ao pensamento de Kierkegaard, ao seu entendimento do encontro com Deus, com a fé, com o desejo de ser humano, de voltar-se para si mesmo e perceber seu caminho em direção ao absoluto e infinito e poder fazê-lo sem magias, mas sim pela compreensão e sentimento que surgem do encontro consigo mesmo. Penso que neste momento minha cliente apropria-se da verdade de poder ser um ser de fé e de espiritualidade.

Mais recentemente, diante da tragédia envolvendo a morte de 5 integrantes de uma banda de rock, uma de minhas clientes, uma jovem de 20 anos, traz o sofrimento diante da morte. Ela dizia com grande emoção: "Não entendo, não consigo compreender. Para quê existir, planejar, sonhar, gostar? Resta o quê? Nada? Será que há um depois deste nada que estamos vendo? Sabe, chego à conclusão que temos que viver intensamente cada dia, cada hora, fazer o máximo, buscar nossas forças de viver tudo e todos e ir o mais além que pudermos." É então Nietzsche que vem à minha mente nesta revelação do nada, da ausência do Deus salvador, da finitude do ser e da vontade de potência  que surge para dizer o "sim" à vida, sem fugir do sofrimento da possibilidade da morte.

Encontro-me a cada dia com pessoas singulares: umas que crêem na existência de Deus e na fé como guia; outras que questionam sua existência: mas o que de mais maravilhoso vejo é que de uma forma ou de outra, retornam a si mesmas e buscam uma apropriação de si mesmas pelas suas próprias verdades. Uno, então, Kierkegaard a Nietzsche, na subjetividade e singularidade que se fazem revelar nos seres humanos com experiências vividas, dando-me a possibilidade de crer no homem e crer em Deus; de acreditar no absurdo da fé e poder criar um super-homem. Não me vejo incoerente. Busco um caminho: a harmonia dos opostos.

É como diz Fernando Pessoa  (Obra Poética - Volume Único):

Qualquer caminho leva a toda parte,
Qualquer caminho
Em qualquer ponto seu em dois se parte
E um leva aonde indica a strada
Outro é sozinho.
Um leva ao fim da mera strada, pára
Onde acabou.
Outro é abstrata margem
        .......................
No inútil desfilar de sensações
Chamado a vida,
No cambalear coerente de visões
Do [...]
Ah! Os caminhos stão todos em mim.
Qualquer distância ou direção, ou fim
Pertence-me, sou eu. O resto é a parte
De mim que chamo o mundo exterior.
Mas o caminho deus eis se biparte
Em o que eu sou e o alheio a mim
[...]

BIBLIOGRAFIA

- Abbagnano - História da Filosofia - vol.X
- Durant, W. - A Filosofia de Nietzsche - Coleção Os Grandes Filósofos, Ediouro, 1985.
- Gilles, Thomas - História do Existencialismo e da Fenomenologia - vol.1 Ed. da Universidade de São Paulo, 1975.
- Kierkegaard, S. - O Desespero Humano
- _________________ - Temor e Tremor - Clássicos de Bolso - Ediouro, 1985.
- Machado, R. - Nietzsche e a Verdade
- Naffah Neto, A. - A Psicoterapia em Busca de Dionísio - EDUC, Editora da PUC-SP, 1994.
- Nietzsche, F - Crepúsculo dos Ídolos. A Filosofia a Golpes de Martelo - Clássicos de Bolso, Ediouro, 1985.
- Penha, J. - O que é Existencialismo - Coleção Primeiros Passos - Editora Brasiliense, 1982.
- Severino, E. - A Filosofia Contemporânea

- Café de Flore, jan/95 - Edições Aletheia
- Café de Flore, mai/95 - Edições Aletheia

Informações obtidas por e-mail, via Internet:
- Corbett, B. - Introducing my Students to Kierkegaard
- Correspondências particulares com Julia Watkin, University of Tasmania - Sören Kierkegaard Society.

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