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Os Limites da Ciência

Roberto C. P. Júnior

1ª PARTE

Quando uma pessoa comum se depara com o pronunciamento de um cientista sobre um assunto qualquer, sua reação é invariavelmente uma mescla de interesse sincero, profundo respeito e humildade auto-imposta.

Ela se recolhe silenciosamente num canto, esforçando-se o mais possível em compreender o pensamento do cientista. Quer beber, por pouco que seja, daquela fonte de sabedoria que julga sobre-humana.

Este conceito - da superioridade da ciência e de seus discípulos frente aos demais mortais - está tão arraigado em nossa sociedade, que ninguém das castas inferiores ousa questioná-lo. Seria isso quase uma heresia, uma tentativa subversiva de romper a ordem natural das coisas.

O escudo separador entre humanidade e ciência, moldado por esta última com a arrogância e presunção que lhe são peculiares, cuida de rechaçar com admirável eficiência qualquer pensamento contrário à estrutura de valores estabelecida: cientistas no cume da pirâmide; demais segmentos da sociedade estratificados em seqüência descendente até a base, sempre alojados segundo seus dotes intelectuais.

Ao longo do tempo essa pirâmide abstrata de valores demonstrou ser muito mais sólida, muito mais avessa à mobilidade de seus integrantes, do que as pirâmides sociais dos vários povos. Atravessou séculos firme e inabalável, impassível ante a ascensão e queda de impérios, indiferente a governos e regimes políticos. Essa estabilidade fantástica deve ser creditada indistintamente a todos os integrantes da pirâmide de valores, que jamais se permitiram imaginar que sua estruturação pudesse ser diferente.

Assim é que já desde muito a ciência impinge à humanidade muitas idéias absurdas e errôneas, sem encontrar a menor resistência vinda de baixo. A cada proclamação de um dogma científico, segue junto uma mordaça compulsória coletiva, na forma de uma linguagem obscura e ininteligível, totalmente inacessível aos não eleitos.

Somente os membros da cúpula científica detêm as prerrogativas e os meios para discutir os novos dogmas, benevolentemente outorgados ao resto do mundo. Em conclaves internacionais eles exibem então suas descobertas recheadas de neologismos polissilábicos, condição indispensável para serem notados e reconhecidos pelos demais membros da irmandade.

Num ponto, porém, cientistas e simples criaturas se igualam. Todos estão firmemente convencidos de que a ciência é capaz de fornecer respostas aos grandes questionamentos humanos. Uma grande parte acha até que isso já aconteceu...

Poucas pessoas apenas percebem quão limitado é, na realidade, o campo de atuação da ciência. E como tem de parecer pueril, ridícula até, a pretensão desta em querer desvendar a seu modo os últimos segredos do universo.

O dogma da infalibilidade científica só pôde obter assim tão ampla e irrestrita aceitação, porque a humanidade como um todo deu muito mais valor ao raciocínio do que ao seu próprio espírito.

Prova disso é que a simples menção da palavra espírito já causa um certo mal-estar em quase todas as pessoas. Basta que ouçam ou leiam esta palavra para o raciocínio entrar imediatamente em ação, procurando fazê-las acreditar que provavelmente estão frente a algo "não muito sério".

O mesmo efeito se observa com qualquer outro conceito que o intelecto não pode assimilar. Assuntos legitimamente espirituais não desencadeiam mais em nossa época sentimentos de alegria e interesse, mas sim de descaso e rejeição, provocados pelo próprio raciocínio, na sua costumeira função de manter-se a todo custo no trono usurpado. Quando muito ele, o raciocínio, colabora no incremento da fantasia, fornecendo à indolente humanidade os sucedâneos para os assuntos espirituais que ela negligenciou: ocultismo, misticismo, magia, crença cega. E assim o espírito permanece dormindo placidamente, sem se fazer notar, sem ameaçar o tirânico reinado cerebrino.

Este o retrato do ser humano hodierno: o ente de espírito que se envergonha de sua origem espiritual, o escravo do seu próprio raciocínio, a lânguida criatura, que desprovida de qualquer vivacidade de espírito, aceita apaticamente as mais crassas mentiras religiosas e as mais tolas fantasias místico-ocultistas.

Se quando provou da árvore do conhecimento, a humanidade não tivesse ao mesmo tempo deixado de regar o jardim de suas aptidões espirituais, teríamos hoje um paraíso na Terra.

Como, porém, isso não aconteceu, temos de sobreviver num mundo dilacerado pelo ódio, conspurcado pela cobiça, envenenado pela inveja e afundado na miséria. É o mundo que o intelecto tem a oferecer, quando dissociado do espírito, que, unicamente, é capaz de fazer do ser humano um ser... humano.

 

2ª PARTE

A fé irrestrita da humanidade em relação às suas habilidades cerebrais já vem de muito longe. Milênios. E os sucessivos êxitos materiais exteriores só serviram para solidificar ainda mais essa idéia.

O que presentemente observamos é apenas a coroação deste processo, onde o intelecto se firma como o único apoio confiável. A "divindade" onipresente e onisciente, a quem a ciência se consagrou por inteiro, e que julgou ser seu dever impingir à humanidade. E a quem todos oram também, cada vez que lançam mão de maquinações intelectivas para atingir míseros e efêmeros objetivos terrrenais.

Quando os antigos gregos começaram a desvendar paulatinamente as leis da mecânica celeste, há muito o desenvolvimento espiritual havia sido posto de lado. Já naquela época isso era tido como algo sem importância, desnecessário, até mesmo estorvante para o "progresso" humano.

Sem concorrente à altura, o raciocínio foi se fortalecendo cada vez mais, desimpedidamente, na mesma velocidade aliás em que os dotes espirituais humanos iam se atrofiando. Cada anúncio de uma nova descoberta científica era mais um bloco utilizado na construção daquela pirâmide intelectual de valores, que naquele tempo já ostentava considerável altura.

Fazendo referência aos gregos daquela época e suas descobertas, o conceituado cientista brasileiro Marcelo Gleiser declarou textualmente o seguinte em sua obra A Dança do Universo: "Seu amor pela razão e sua fé no uso do raciocínio como instrumento principal na busca do conhecimento formam o arcabouço fundamental do estudo científico da Natureza. Não devemos nunca fugir dessa busca, intimidados pela nossa ignorância."

É este o ponto, precisamente.

A base sobre a qual a ciência se apóia é o intelecto, o raciocínio humano. E nem poderia ser diferente. Se ela se propõe a analisar e classificar fenômenos físicos, terrenalmente perceptíveis, tem de se valer mui naturalmente do raciocínio, que é um produto do cérebro, órgão pertencente ao corpo material do ser humano.

Utilizando o raciocínio como instrumento, a ciência é capaz, sim, de grandes feitos, os quais no entanto terão de permanecer sempre circunscritos ao âmbito da matéria. Os resultados obtidos até agora pelos vários ramos da ciência são exemplos claros desse sucesso material inquestionável.

O grande erro aí surge quando, incentivados por esses êxitos visíveis, os cientistas se julgam igualmente aptos a perscrutar, com o seu intelecto atado à matéria, coisas que se acham fora do âmbito material. Eles imaginam poder encontrar dessa forma respostas às questões fundamentais do ser humano: Qual a origem do universo? Como surgiu a vida? Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos?

E em todos os degraus da pirâmide de valores habita essa mesma crença, de uma capacidade ilimitada da ciência terrena. Cheias de esperança, com mal disfarçado orgulho, todas as classes erguem os olhos para os seus idolatrados cientistas, a nata da espécie humana que habita lá no topo, na expectativa de obter respostas também para essas questões tão cruciais. Mesmo cientes de que serão incapazes de compreendê-las, por não dominarem o hermético idioma científico, elas aguardam ansiosamente pelas respostas, a fim de apaziguar seus próprios anseios íntimos.

Uma espera sem esperanças...

Nunca será possível ao intelecto humano, que pertence incondicionalmente à matéria, desvendar enigmas cujas soluções encontram-se em outros planos da criação. Para tanto é necessário mobilidade do espírito, algo que os cientistas de hoje - com raríssimas e honrosíssimas exceções - não possuem mais. Eles, que em sua maior parte sequer admitem a existência do espírito, e muito menos ainda de um Criador, insistem em pesquisar assuntos de caráter espiritual com seu restrito raciocínio preso à Terra. Querem desvendar os segredos da criação com balanças, tubos de ensaio e microscópios eletrônicos. Uma situação que seria até cômica, se não fosse tão triste.

E apesar da lógica cristalina que reside nessa impossibilidade natural, de apreender fenômenos espirituais com meios materiais, a ciência nunca poderá reconhecer essa sua limitação. Não exatamente por vaidade, mas por absoluta incapacidade.

Justamente por acreditarem que o raciocínio é a chave para tudo, que pode resolver tudo, os cientistas se privam da capacidade de vislumbrar o que se encontra além dos limites traçados para o saber intelectual. Para eles é de todo impossível estender a visão além desse ponto. Eles nem mesmo podem considerar a hipótese de que exista algo que o raciocínio não seja capaz de destrinchar. Não possuem mais, na realidade, a capacidade para tal discernimento.

Os discípulos da ciência imaginam estar no ápice do saber humano, e se deixam embalar, satisfeitos, nos acordes dessa ilusão. E, na verdade, para eles é assim mesmo. Encontram-se de fato no topo do conhecimento intelectual, que, no entanto, constitui um degrau muito inferior, extremamente baixo em relação ao saber que poderiam ter da imensa obra da criação, caso tivessem feito uso das capacitações de seus espíritos.

Se a humanidade não tivesse abandonado tão levianamente seu desenvolvimento espiritual, tudo se apresentaria agora numa forma totalmente diferente. Ciência seria hoje sinônimo de verdadeiro saber, e todas as grandes questões humanas estariam há muito solucionadas.

Obs.: Nos próximos artigos vamos analisar as respostas que a ciência tem a dar em relação às questões fundamentais da vida humana.

Roberto C. P. Júnior é Mestre em Engenharia e autor do livro on-line "Vivemos os Últimos Anos do Juízo Final"

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