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Clínica Universitária

     Luiz A. G. Cancello

    Texto escrito em 1992, quando deixei de ser supervisor de estágios no Curso de Psicologia da Universidade Católica de Santos.

     Colocação do problema

     Os cursos de psicologia das universidades brasileiras costumam ter uma clínica de atendimento popular, para que os alunos de 5o ano possam praticar as técnicas psicoterápicas aprendidas nos anos anteriores. O atendimento se dá sob a orientação de supervisores experientes. Esse esquema tem funcionado há mais de dez anos na Universidade Católica de Santos, onde venho fazendo uma parte do trabalho de supervisão.

     A experiência mostra, nesse período, um alto índice de ausências por parte dos clientes. O interessado não comparece a uma grande parte das sessões que são marcadas, faltando constantemente. A desistência do tratamento é um fenômeno bastante freqüente. Tal fenômeno é comum a outras Clínicas Universitárias.      Para entender a evasão da clientela é necessário fazer algumas considerações sobre o tipo de "cura" oferecido pela psicologia, tal como aparece nas expectativas dos que a procuram.

     I. - A esperança de cura.

     No universo cultural brasileiro os agentes de saúde mental são oriundos de 3 campos: médico, místico e psicológico. O doutor, o curandeiro e o psicólogo coexistem na procura do equilíbrio; não é raro que um mesmo cliente freqüente as três modalidades de esperança de cura.     

Cada uma dessas especialidades (por assim dizer) está inserida numa faixa identificável do espectro social. O médico tem sua mobilidade assegurada pelo mito da ciência. Esta é confiável pela imagem social que alcançou, mesmo que dela se saiba muito pouco; por isso é possível caracterizá-la como um mito.

     O curandeiro, por sua vez, move-se no reino do sobrenatural. Ele não é, diretamente, o agente da cura; seu papel é o de representar uma entidade mais poderosa, proveniente de uma realidade supra-sensível. Seu poder está assegurado pelo "status" histórico que esse tipo de religiosidade alcançou no país.

     O problema começa a aparecer quando se tenta definir o universo de crenças em que o psicólogo se move. Para uma camada social com acesso à informação, há algo de científico na psicologia. Mesmo esta noção, no entanto, é nebulosa: pergunte-se ao leigo como "funciona" a psicoterapia, e logo aparecerá a imprecisão com que o tema é tratado. O próprio psicólogo tem uma série de indagações a respeito de seu lugar no espectro social. Não é à toa que, desde o meu tempo de faculdade, vejo anunciadas conferências sobre "O papel social do psicólogo". Este título, além de suas evidentes e justificáveis preocupações políticas, trai a indefinição de limites claros para o exercício da profissão.

     II. - A psicologia e suas referências.

     O comportamento humano, para adquirir um sentido, precisa estar situado num plexo de referências. Em outras palavras, não existem atos "soltos no espaço", sem que um certo número de informações e de fatos vividos os legitime. O incréu não vai procurar o curandeiro, pois este não tem lugar em seu universo cognitivo. Para um exemplo mais drástico: dificilmente uma aula de física quântica poderá atrair um economista, a não ser que seja um economista muito especial.

     É muito difícil estabelecer formalmente o plexo de referências em que habita a psicologia. No cliente com poder aquisitivo suficiente para freqüentar um consultório particular é possível, às vezes, acompanhar o percurso das associações que o levaram à psicoterapia. Esse caminho fornece indicações sobre a gênese da imagem social da psicologia. O indivíduo se queixa de um sintoma qualquer (desde uma vaga depressão até uma fobia severa). A partir daí começam os "palpites" dos parentes e amigos, sugerindo "procurar um profissional". Essas recomendações vão se mesclar com as informações disponíveis acerca das possíveis "causas psicológicas" de determinadas afeções, informações obtidas através de programas de televisão e de leitura de revistas leigas. Freqüentemente um médico é procurado, mas nenhum problema físico é detectado, aproximando ainda mais a possibilidade de um tratamento de outro tipo. A decisão de procurar o psicólogo surge, em geral, a partir da palavra de alguém em que o futuro cliente deposita muita confiança, às vezes uma pessoa que já "fez psicoterapia". O processo todo _ desde a primeira vez em que a psicologia foi pensada como solução até a primeira sessão de psicoterapia _ demora um certo tempo, não menos que um mês, num desenvolvimento típico. Costumo chamar esse período de "pré-terapia".

     A importância do período pré-terapêutico pode ser atestada pelos clientes que procuram o psicólogo por indicação médica. A pessoa vai ao consultório de um clínico geral, gastroenterologista ou ginecologista (para ficar com os casos mais comuns). Nenhuma doença é detectada. O médico, por exclusão, decide que o problema é psicológico. No dia seguinte o doente, obedecendo à indicação, marca uma entrevista com o psicólogo, apesar de não ter referências que dêem suporte à esse ato. O primeiro encontro é desconcertante, pois o cliente não sabe o que está fazendo ali. Muitas vezes não retorna para a segunda sessão.

     A pré-terapia tem como função situar a psicoterapia no plexo de referências que o meio social do indivíduo lhe oferece. Se esta fase é bastante nebulosa para clientes com bom acesso à informação, torna-se ainda mais obscura para a clientela das clinicas populares.

     Um dos modos de encaminhar os clientes que não "passaram" por uma pré-terapia é dar-lhes alguma idéia inicial sobre o processo terapêutico. A partir desse primeiro esclarecimento _ que pode ser feito individualmente ou em grupo _ pede-se ao indivíduo que retorne depois de algum tempo, que pode variar de quinze dias a um mês. Se o interesse pelo tratamento foi despertado, ele procurará outras informações, constituindo assim as referências antes inexistentes. Este procedimento fica registrado aqui apenas a título de sugestão; suas implicações a nível de indução de comportamento precisam ser discutidas com mais cuidado.

     III. - Referências e classe social.

     Os clientes que freqüentam a clínica psicológica das universidades são, na maioria das vezes, indicados por pessoas de classe social mais favorecida. Quando encaminhados por instituições, passam pelo crivo de uma assistente social, profissional com formação universitária. São comuns os casos de empregadas domésticas encaminhadas por suas patroas e de mães cujos filhos estão em psicoterapia na mesma clínica universitária, encaminhadas pela psicóloga da criança. Esta, por sua vez, está em terapia por indicação de sua professora, detentora de maior status social (mas nem sempre de maior status econômico). A origem do encaminhamento está sempre "acima", em relação ao espectro social.

     Essa clientela carece do que chamo de "ganchos" para permanecer no processo de psicoterapia. Não tem parentes ou amigos que tenham passado pela mesma experiência, nem um sistema de crenças que possa referendar seus encontros com o psicólogo. Como o cliente indicado pelo médico, "não sabe o que está fazendo ali". Após algumas sessões abandona o tratamento, para desespero do estagiário, que tende a chamar sobre si a culpa de tal abandono.

     Evidentemente descrevi um processo típico. Há clientes que freqüentam as sessões regularmente, obtendo resultados bastante satisfatórios. Mas o grande número de desistências do tratamento não pode deixar o profissional responsável de braços cruzados, atribuindo somente a uma suposta "resistência" do paciente ou à inabilidade dos estagiários os seguidos insucessos terapêuticos ocorridos nas clínicas universitárias. Tal avaliação traduziria uma enorme miopia social, "psicologizando" fenômenos melhor compreendidos por outras áreas das ciências humanas.

     A tendência para interpretar a nível individual o fenômeno da evasão é tamanha, que por várias vezes surpreendi alunos tentando "convencer" o cliente da excelência da psicologia. Essa é uma prática a que o supervisor deve estar atento, pois trata-se (além dos problemas teóricos e práticos aí envolvidos) da apresentação de um universo ideológico imposto do alto de uma suposta autoridade por parte do supervisionando. Em todas as vezes em que chamei a atenção de um aluno para isto, a formulação foi recebida com surpresa, evidenciando o despreparo do corpo discente no trato com questões interdisciplinares mais amplas.

     IV - Questões práticas

     1. - Linguagem e visão de mundo.

     Tenho tentado, nos grupos que supervisiono, trabalhar grande parte do tempo com a diferença da linguagem falada pelos supervisionandos e pela clientela. Ao perceber que estão formulando, em um discurso típico da classe média e do jargão universitário, as queixas de pessoas que pertencem a um outro universo de discurso, os alunos podem avaliar as dificuldades teóricas e práticas do atendimento "popular". Pelo caminho da linguagem é possível vislumbrar o universo de crenças em que se move o cliente, dar-se conta da realidade e da legitimidade desse universo e procurar a "tradução" possível entre as duas concepções de mundo envolvidas no encontro terapêutico. Sem essa avaliação prévia a tarefa redunda em fracasso.

     O meio socio-cultural que dá sentido e realidade à experiência do cliente precisa ser acessível à experiência do seu terapeuta. Com estas palavras queremos abarcar um fenômeno muito complexo, que compreende, além de um esforço analítico, o reconhecimento da existência de outros contextos sociais, econômicos e consequentemente lingüísticos. Fenômenos que o aluno percebe de uma determinada maneira podem ser exprimidos pelo cliente numa acepção completamente diferente, sem que essa outra face das coisas esteja "errada" em algum sentido. Isto pode parecer fácil, mas supõe uma formação que excede a psicologia, prendendo-se também à Antropologia, à Filosofia e à própria experiência de vida. (falta algo sobre linguagem: sua independência em relação ao falante)

     Levando a fundo as considerações precedentes, arrisco dizer que a questão, muito além do âmbito científico, vai encontrar seu esclarecimento na política, na ética e na estética, funcionando estas como elementos de suporte para uma atitude aberta à pluralidade evidenciada na Antropologia e na Filosofia.

     2. - Ética, política e estética.

     A classe economicamente dominante tende a considerar sua visão de mundo como "correta", negando as outras concepções de vida. Isso lhe permite, através de mecanismos sociais evidentes (por exemplo, a posse dos meios de comunicação) ou não (por exemplo, um dado sistema de ensino teoricamente "igual para todos"), impor a sua hegemonia, perpetuando-se no poder. É inadmissível que o psicólogo, inocentemente, faça parte de um desses mecanismos sociais pervertidos, "impondo", através de sua autoridade injustificada, modos de encarar a existência estranhos ao meio do cliente. Neste sentido nosso problema é político.

     Mas a ética também tem algo a dizer a respeito do tema em questão. Não estou tratando da moral, palavra ligada aos costumes, à lei, ao código de ética tão somente (embora este deva ser respeitado!). Falo de ética no sentido grego de "ETHOS", da "morada" do indivíduo, do seu habitat, daquilo que lhe é familiar, ali onde ele tem a sua identidade e o seu limite _ ali onde a vida lhe faz sentido. (CITAR) Por conhecer as limitações a que necessariamente está sujeito, condição de sua singularidade, o psicólogo sabe que seu lugar não é o único do mundo. Por estar sempre no mundo com os outros, condição de sua humanidade, percebe seu poder (no sentido de possibilidade) de acercar-se da singularidade do seu semelhante, tendo mesmo o desejo de realizar tal aproximação. Mas, se devorar a alteridade do outro, acabará por estar no mundo apenas consigo mesmo, onipotente e só. Se mantiver uma distância protetora, defendendo-se do seu próprio canibalismo, mudará somente a qualidade da solidão. Há toda uma ciência _ uma ética _ na aproximação não-invasiva, aquela que respeita o outro, abrindo a ele condições para perceber com clareza as próprias possibilidades vitais. Palavras, dirão os céticos. Atitudes, dirão os éticos. Mas existirão meios concretos de realizar proposições aparentemente tão abstratas?

     Há maneiras práticas de realizar os objetivos propostos no parágrafo acima. A constante reciclagem do próprio conhecimento psicológico, social e geral, a discussão de atitudes terapêuticas com outros psicólogos, a supervisão e o submeter-se à psicoterapia levam o terapeuta ao constante auto-questionamento ético. Mas duas outras condições são necessárias para o bom andamento dessas atividades práticas: a >predisposição ética e o encanto.

     A predisposição ética é uma qualidade que independe do curso de psicologia; depende da formação que o aluno traz de casa, de sua educação, de seu projeto enquanto pessoa. A consideração pelo outro e a percepção dos limites a serem respeitados certamente podem ser treinados, mas uma parte significativa dessa aprendizagem é dada antes do ingresso na faculdade. Ao supervisor cabe observar a possível inabilidade ética do supervisionando e, nos casos extremos, em concordância com os outros supervisores, desaconselhá-lo a praticar a psicoterapia. As implicações desta atitude são vastas e graves, mas discuti-las desviaria o texto de seus objetivos.

     Nenhuma das condições já citadas é suficiente sem a presença de um encanto, de algo que chame o futuro psicólogo para a compreensão do seu semelhante. Vocação, palavra derivada do verbo vocar, que significa falar, chamar: eis a acepção original do termo. Já Platão e Aristóteles diziam ser o assombro a mola propulsora da indagação filosófica. Sem o fascínio pela configuração do universo do outro _ pela sua beleza, por sua estética, por seu lugar no movimento das coisas e dos homens _ a prática da psicoterapia fica sem brilho. O desinteresse do terapeuta sempre é percebido pelo cliente, que por sua vez perde o ânimo para prosseguir o tratamento.

     Não se confunda, no entanto, encanto com deslumbramento. Certo tipo de fascínio pseudo-racional por teorias que "explicam tudo" são porta de entrada para uma psicologia cada vez mais perto da mistificação e cada vez mais longe da seriedade. Uma vez possuído por essas concepções, o psicólogo se fecha para qualquer outra possibilidade de compreensão. Neste campo cabem tanto uma psicanálise mecanicista como a "terapia das vidas passadas". Sempre é bom lembrar que algum mistério deve permanecer, pois ele é a mola e o horizonte da nossa busca.

     Política, ética e estética dizem respeito à psicologia, mas antes de tudo dizem respeito ao mundo. Certa vez Norberto Bobbio, um dos maiores cientistas políticos da atualidade, disse a respeito do marxismo: "Não se pode ser bom marxista sendo só marxista." Parafraseando, eu diria que não se pode ser bom psicólogo sendo só psicólogo.
     Tratei de expor, em linhas gerais, o que penso sobre as condições mínimas para que o aluno venha a exercer a profissão de psicólogo. Mas o assunto fundamental deste texto _ o problema de atender uma clientela de classe social desfavorecida _ está apenas esboçado. Uma breve aproximação histórica ajuda a esclarecer os pontos básicos da questão.

     V. O advento da modernidade.

     1.

     Dois processos históricos ajudam a compreender o surgimento do psicólogo. O primeiro é o progressivo desaparecimento de "médico de família", aquele que tratava de duas ou três gerações de um mesmo clã, freqüentando a casa (e a intimidade) de seus clientes. O outro prende-se à paulatina dessacralização do universo, cada vez mais interpretado sob a égide da ciência, abrindo um espaço antes reservado à confissão e ao ministro religioso. O psicólogo entra na história por essas brechas, ocupando os lugares vagos com suas (vagas) teorias, espremido entre o científico e o esotérico, misto de rigor e de fé.

     No começo do século a revolução do pensamento é decisiva. Darwin disseca o orgulho dos homens, amarrando-os a uma ascendência animal. Marx passa seu bisturi na hipocrisia social. Freud inaugura os próximos cem anos com a publicação da "Interpretação dos Sonhos", e cinco anos depois Einstein expõe a primeira versão de sua Teoria da Relatividade. Na esteira dessa onda Saussure formula os princípios da lingüística moderna, que mais tarde veio à luz com o título de "Curso de Lingüística Geral". As novas formas de arte fragmentam as concepções anteriores. O conhecimento nunca fora tão vasto, nem a liberdade tão assustadora.

     Duas guerras mundiais e duas bombas atômicas trazem ao mundo novas indagações. O desenvolvimento da tecnologia mostra um potencial destrutivo jamais sonhado. Entre a realização de alguns sonhos milenares (como o aumento significativo da média de vida humana) e o pesadelo das novas formas de matar, surge um novo homem, menos temente a Deus e mais temente a si mesmo, mais covarde e mais megalomaníaco, dependente de uma Ciência da qual entende, quando muito, os princípios mais elementares.

     A psicologia nasce nesse mundo novo, fascinante e cheio de forças e objetos poderosos e misteriosos: a gravidade, a relatividade, o avião, o computador, a Bomba. Não é à toa que passa a formular para seu próprio consumo um mundo similar a esse, porém "interno" ao indivíduo: pulsão, energia orgônica, inconsciente, arquétipos, eros, instinto de morte. Divulgada e explorada até as últimas conseqüências pelos meios de comunicação de massa, passa a fazer parte da auto-concepção do indivíduo comum, como uma forma perversa (porque simplificada, mecanizada e desenraizada) de "pré-terapia". Sem antecedentes históricos e culturais, a "interioridade" eletronicamente construída é fornecida a cada um por supostas "autoridades no assunto", assíduas freqüentadoras dos programas do horário nobre de domingo. E por incrível que pareça, apesar de suas conseqüências indesejáveis (também conhecidas como "sintomas"), a identificação do sujeito com seus encantos e horrores "internos" tem uma enorme vantagem: é própria de cada um, aparenta definir uma individualidade, não deixa que ele se perca num mundo "externo" cada vez mais incompreensível e (portanto) hostil. Mas acaba por prendê-lo a uma concepção estreita da vida, extremamente "individualista" e centrada em si mesmo. Uma conhecida conseqüência desse fenômeno, em psicoterapia, é a "resistência". Uma pessoa "resiste" ao tratamento não por "não querer melhorar", mas para não cair no desamparo geral. De certo modo, opta pela prisão.

     Será esta a psicologia adequada ao trato com a clientela de uma clínica popular, essa psicologia formulada por uma categoria de pensadores voltada para esse suposto "interior", torre de kevlar da tecnologia das ciências humanas? Os problemas trazidos pelos nossos pacientes são bem alheios a esse clima. O desespero da mulher cujo marido chega em casa bêbado, bate nela e nos filhos e vai para a casa da amante sem deixar dinheiro para o arroz e feijão, a "gang" do bairro que rouba os poucos pertences dos moradores, o homem desalentado pela ausência de possibilidades de melhorar a situação da família, serôo problemas que possam ser ao menos amenizados "internamente"? O "transportar" de tais situações de um nível de considerações para outro pode ser uma perigosa forma de induzir o conformismo e de perpetuar um certo tipo de dominação cultural.

     Em geral, as pessoas que procuram as Clínicas Universitárias, por sua própria condição educacional, têm uma compreensão muito tênue do impacto que a ciência e a tecnologia trouxeram ao mundo. Conhecem as mudanças introduzidas pela modernidade distorcidas pela tela da televisão. No entanto, tais pessoas são percebidas e "tratadas" através de teorias derivadas dessas transformações. Freqüentemente acabam por perceber a si mesmas através do filtro _ distorcido _ dessas teorias. A bem dizer, entram na modernidade pela porta dos fundos.

     2.

     Dois exemplos ilustram o que acabei de dizer no item anterior. O primeiro fato, com ligeiras modificações, ocorreu entre uma psicóloga e sua cliente, em atendimento numa Clínica Popular. Esta entidade atende pessoas que não têm recursos para arcar com as despesas decorrentes de uma psicoterapia em consultório particular. Tomo este episódio como um caso típico, que certamente já ocorreu outras vezes, com outros protagonistas.

     A moça que estava sendo atendida queixava-se da ausência do marido em casa, nos finais de semana. Ele tinha uma outra mulher, com quem passava boa parte do sábado e do domingo. A paciente era uma pessoa de pouca instrução, estando na época desempregada e com dois filhos de um primeiro casamento para criar. Dizia, na sessão, que estava sendo "traída" pelo marido. Mas esclarecia que esse sentimento não se devia tanto à existência de uma outra mulher, "pois isso é até natural", mas pela pouca participação do seu companheiro na vida doméstica.

     A psicóloga _ na melhor das intenções _ perguntou se a moça "não estava traindo a si mesma". A formulação encantou a paciente, que provavelmente nunca tinha usado o verbo "trair" em voz reflexiva. Disse que "nunca havia pensado nisso". A partir deste momento foi condenada: nunca mais poderá se livrar da maldição de ter, em algum lugar de seu "interior", uma instância _ uma força _ que trai o seu próprio ser, as suas próprias palavras. A partir desse momento, passou a "ter" um inconsciente.

     O esboço do que uma psicoterapia não deve ser aparece claramente neste exemplo. Tal procedimento impõe um modo de configurar a relação do homem com o mundo. Acaba por criar necessidades através de uma ação autoritária. Esta autoridade, mesmo em terapias "não-diretivas", emana da própria posição social de que o psicólogo desfruta frente à clientela menos favorecida. Não querer enxergar estas variáveis sociais é puro "psicologismo", ou seja, acreditar que a situação terapêutica é independente do contexto social e histórico em que adquire seu sentido.

     O outro exemplo ilustra o bombardeamento de psicologia televisiva a que está sujeito o cidadão comum. Um cliente especialmente inteligente, em sessão numa Clínica Psicológica Universitária, manifestou à estagiária que o atendia o desejo de "fazer um teste de Q.I., para saber se estou aproveitando todo o meu potencial". Esse mesmo paciente perguntou se a aluna fazia hipnose, "para falar diretamente do inconsciente, por que assim as coisas seriam mais verdadeiras". Esse homem se coloca, através de suas palavras, como "totalmente alheio a si mesmo", se é que isto faz algum sentido. Precisa da suposta autoridade do profissional para saber a "verdade" acerca de si próprio. Foi convencido de que há, na sociedade, um especialista em conhecer o "interior" das pessoas, como um médico conhece o interior de um estômago. Ciência e misticismo mal formulados fornecem, sutilmente, o solo onde podem aparecer coisas como testes de Q.I. e hipnose, um com seu aparente rigor e outra com sua enganosa magia. Pela porta dos fundos da modernidade entram cobras e lagartos.

     VI. - O encontro terapêutico.

     O sentido do encontro terapêutico pode ser buscado na antropologia e na história. Em todas as sociedades conhecidas, os homens buscaram, para o alívio de seus males, um determinado membro de sua comunidade referendado para ser o conselheiro, o pajé, o xamã, o sábio, ou qualquer outro nome que se dê a tal personagem. Talvez cause estranheza e pareça pretensão iniciar por este caminho uma possível compreensão do papel do psicólogo em nosso meio. Creio, no entanto, que as bases para um entendimento histórico do fenômeno começam por esta via. Quem sabe a estranheza prenda-se ao referendum, confundido com um diploma universitário, substituição científica da iniciação do feiticeiro. Ou talvez nem seja estranheza aquilo que se sente ao ver a questão colocada dessa forma, mas o peso da responsabilidade. Pois se o psicólogo sabe que não é conselheiro ou pajé, freqüentemente o cliente age como se estivesse frente a frente com esse tipo de "salvador". O terapeuta, na falta de outros deuses, é ungido pela suposta deusa da Ciência.

     Alguém ainda afirmará, hoje,

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