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Análise Existencial, Pascal e Encontro Terapêutico
Sonia Maria Cardoso Dutra
(Trabalho apresentado no III Congresso Brasileiro de Psicoterapia Existencial, SP 1995)
Em tempos conturbados como os nossos, somos chamados a refletir acerca de lições seculares, focalizando-as sob os mais diversos aspectos. Por isso minha escolha de Pascal como fonte de iluminação da realidade vivida em psicoterapia.
O método através do qual as ciências naturais têm realizado grandes progressos é por excelência experimental: concebida a hipótese, o pesquisador, orientado pela teoria, empenha-se na obtenção de provas objetivas de fenômenos que, muitas vezes, jamais poderão ser observados, senão por seus efeitos e conseqüências.
O homem atual (tanto quanto o antigo), em busca do seu próprio ser, vem se alistando, voluntariamente nas fileiras da luta de se descobrir humano e, assim, despertando sua própria sensibilidade para ouvir e reconhecendo uma profunda satisfação em ser ouvido. Durante muitos anos, senti também esta necessidade em mim, e pude perceber o quanto é importante conseguir ouvir-me. Saber o que está acontecendo em mim não é nada simples, mas tenho me encorajado a fazê-lo, pois creio que assim me percebo mais aberta a novas idéias; meu encontro com o outro cresce, aumenta, se amplia. Talvez seja esta, na verdade, a única tarefa da vida inteira.
Ligar a filosofia de Pascal ao pensamento analítico existencial é tarefa delicada, à medida em que preciso ser fiel à profundidade de suas questões, cuidando para não cair no misticismo ou no pieguismo.
Pascal, na trajetória de sua existência, não renega nada ao homem; na verdade, atravessa o homem para chegar a Deus, e talvez esta fosse a única possibilidade de viver com os males que o atormentavam. A incessante busca da compreensão das razões da existência, perseguindo até o fim de sua vida a luta do seu coração, e a própria forma como conviveu com a sua doença, tudo isso nos faz lembrar a vontade de potência do pensador Nietzsche, quando a direção do caminho se desvela através da força, da vontade de potência, onde o impulso de vida leva o homem incessantemente a novas possibilidades, e ele deseja, então, criar e transcender a si próprio.
Pascal execrava o pieguismo e apreciava a afeição, que consistia, segundo ele, em "compartilhar, de todos os modos, tudo o que ocorre aos nossos amigos, porque a razão determina que de tudo participemos, a expensa de nosso bem, de nossa comodidade, de nossa liberdade e até de nossa vida, se o assunto fôr digno dela" .
Pascal morreu sem prever que suas anotações seriam recolhidas e, muito menos, que brotariam entre nossos contemporâneos. O mais ínfimo de seus pensamentos toca algum ponto sensível em nós e com segurança desperta algum tipo de correspondência. Ele continua sendo, no sentido mais profundo, nosso semelhante, adaptado à parte mais individual de nós mesmos: o coração. Ele possui no mais alto grau de intensidade o sentimento do ser humano: todo homem que pensa é, de alguma forma, tocado por Pascal, pois sua filosofia se aproxima do conhecimento das singularidades e contradições do homem real, já anunciando Kierkegaard, na defesa da individualidade do ser, "da existência contra a razão, das alternativas inconciliáveis contra a síntese conciliadora da dialética, da liberdade como possibilidade contra a liberdade como necessidade" . A filosofia do pensador dinamarquês foi conduzida pela compreensão da existência humana através da categoria de possibilidades: toda possibilidade de sim também seria possibilidade de não; o próprio desespero cotidiano é uma escolha, pois, para Kierkegaard, "quem desespera escolhe de novo, escolhe-se a si próprio não na sua imediatidade, como indivíduo acidental, mas escolhe-se a si próprio dentro da própria validade eterna" . Segundo Thomas Gilles (1975), "O indivíduo kierkegaardeano nem é um pressuposto do conhecimento ou da existência, nem um mistério numeral concebido por analogia com a substância material. Nem é um ponto matemático sem superfície ou qualidade, nem um ser esculpido em mármore metafísico ou em matéria psicológica. O indivíduo é energia viva, autodeterminante, que surge a partir de situações concretas de opção, situações estas enraizadas nos momentos em que o homem focaliza todas as suas potencialidades numa opção que ressoará por toda a sua vida" .
É preciso lembrar a dominância do pensamento de Descartes no panorama europeu. Descartes pode ser considerado o fundador do racionalismo moderno; suas idéias exerceram vasta influência no mundo cultural francês, especialmente pelo espírito crítico, pelo método racionalista; e Pascal se rebela contra o racionalismo cartesiano, com seus dogmas de exatidão e certeza, com a primazia da razão. O poder da razão, segundo Pascal, encontra um duplo limite: "os segredos da natureza estão ocultos: se bem que ela atue sempre, nem sempre se lhe descobrem os efeitos: o tempo restabelece-os de época para época e, enquanto ela seja em si mesma sempre igual, nem sempre é igualmente conhecida" .
Assim, evidencia-se a debilidade e a arbitrariedade da razão; ou seja, certos princípios devem ser buscados com segurança no coração e no instinto , e não na razão: "O coração sente que há três dimensões no espaço, que os números são infinitos; a razão demonstra que não existem dois números quadrados de que um seja duplo do outro, os princípios sentem as conclusões e concluem-se. Seria ridículo que a razão pedisse ao coração as provas de seus princípios e que o coração pedisse à razão o sentimento de todas as proposições que ela demonstra. A razão encontra limites, e estes limites são os próprios limites do homem" .
Pascal tem como objetivo a busca da compreensão do homem através de um estudo que lhe fosse próprio. Poderíamos dizer que Pascal busca a mudança de paradigma para a ciência do homem - este tema do qual tanto hoje se fala, a partir das colocações da Fenomenologia, da Fisica Quântica e até do movimento denominado "Nova Era". Ou seja, essa exigência de outro paradigma, distinto das ciências naturais, já era então uma preocupação de Pascal - não tão nova, portanto, quanto parece. Porém, homem sensível que era, logo verificou que poucos se dedicavam a um estudo verdadeiramente próprio do homem, pois eram muitos os que se interessavam pela geometria, matemática, que trazem em si deduções lógicas, comprovações, etc. É
Neste caminho, verifica que a ciência não consola o homem nem na vida moral nem nos momentos de aflição em suas dores humanas: só a fé e o estudo da vida cotidiana (da relação e comunicação entre os homens) podem consolá-lo. É assim que ele descobre o trabalho do coração. A tarefa essencial seria então o conhecer-se a si mesmo, e isto não poderia se dar somente pela razão: o coração torna-se o caminho do homem, ao passo que a razão, enquanto guia, é débil, inútil e incerta. O coração traz à luz do conhecimento aquilo que é desconhecido até mesmo pela razão, constituindo outra via de acesso à realidade humana. É então que Pascal se torna conhecido de todos nós dizendo: "O coração tem razões que a própria razão desconhece, entender e fazer valer as razões do coração é tarefa do espírito de finura" . É este espírito penetrante de Pascal que, com assiduidade e trabalho ultrapassa os antigos e chega aos modernos.
Pascal falava de verdades que estão ao alcance do homem, mas às quais o homem só chega pelo espírito e pelo coração. Esta arte de encontrar-se com o mundo não passa pela razão; só o coração e a intuição a conheceriam. Esta era a arte a que Pascal se propunha: despertar o homem. "No espírito de finura, os princípios estão em uso comum e ante os olhos de todo mundo. Basta virar a cabeça sem nenhum esforço; trata-se somente de boa vista, mas que seja boa, pois os princípios são tão sutis e em tão grande número que é quase impossível que não escapem alguns" , advoga Pascal para nos mostrar o sutil que só o coração percebe. Segundo ele, quando omitimos algo, somos levados ao erro; é preciso ter atenção, observar, "ter vista boa" para ver todos os princípios como justos, para que não sejamos levados a falsos raciocínios, até mesmo sobre princípios já conhecidos. O espírito de finura vê o objeto de um lance, de um só golpe de vista, e não através do raciocínio.
É o próprio Pascal que nos evidencia com sutileza a diferença entre os seres humanos: "Todos os geômetras seriam sutis se tivessem a vista boa, pois eles não raciocinam errado sobre os princípios que conhecem: e os espíritos sutis seriam geômetras se pudessem virar a vista para os princípios desusados da geometria" . Penso que Pascal nos fala da possibilidade da abertura humana para ver sem preconceito e sem certezas absolutas. Aqueles que estão acostumados aos seus nítidos princípios e só raciocinam para poderem manejá-los perdem as coisas de finura onde os princípios não se deixam manejar assim.
O espírito de finura é mais pressentido do que visto: é preciso um esforço infinito para torná-lo sensível a quem não o sente por si próprio. Há princípios tão delicados e numerosos que se faz necessária uma visão muito sensível para julgá-los corretamente.
Fica assim estabelecida a diferença entre explicar e compreender. Na realidade, Pascal observa dois modos de existir na humanidade: homens que teriam um espírito penetrante vivo e que profundamente atingiriam as conseqüências dos princípios, e outros, que compreenderiam grande número de princípios, não os confundiriam, mas não teriam a profundidade e a penetração sobre a existência. Uns tendo sua força, seu caminho, no sentimento; e outros na razão. "Assim, é raro que os geômetras sejam sutis, e que os sutis sejam geômetras, porque os geômetras querem tratar geometricamente estas coisas sutis e tornam-se ridículos procurando começar pelas definições e em seguida pelos princípios, o que não é a maneira de proceder nesta espécie de raciocínio. (É..) A expressão se adapta a todos os homens, e o sentimento só pertence a poucos homens" . Um pianista, por exemplo, pode ter uma técnica perfeita ao executar uma partitura de Beethoven, porém, só será um pianista virtuoso se o fizer com, além de toda a técnica, profundo sentimento. Pascal quer nos dizer que conceitos, definições, teorias ou generalizações podem ser próprios para o estudo da natureza, mas inadequados para a compreensão do ser humano. É também nesse sentido que ele se adianta ao que mais tarde nos diz Husserl. Se Pascal privilegia o sentimento, Husserl fala da intuição imediata dos fenômenos, que se dá não apenas pela razão.
O espírito de finura (o juízo, o sentimento, o coração, o instinto) é a via de acesso à realidade humana, compreendendo o homem, levando-o ao conhecimento de si mesmo, e estabelecendo uma sutil comunicação (que seria inviável somente pela razão). No coração, Pascal inclui a compreensão e a intuição. Ele torna expresso assim o antagonismo entre o espírito geométrico e o espírito de finura, que é o antagonismo entre razão e coração, entre o conhecimento que podemos demonstrar e a compreensão. O espírito de finura tem como seu objeto próprio o mundo dos homens, ao passo que o espírito geométrico tem como objeto próprio o mundo das coisas. O homem não pode conhecer-se como objeto geométrico, não pode se comunicar consigo mesmo e com os outros mediante uma cadeia de raciocínio.
Talvez Pascal quisesse demonstrar para a humanidade que nenhuma ciência ou filosofia poderia sobrexceder ao menor movimento de amor. Homem de coragem, enfrenta Descartes com a maravilha de seu pensamento tão próximo do ser humano. Suas idéias filosóficas, sem dúvida, podem ser encontradas no pensamento analítico existencial, que tem em Pascal, na França, um precursor longínquo, dois séculos antes, de Kierkegaard, que irá abordar os dramas da existência humana, a solidão angustiada do indivíduo, em oposição ao coletivo e à soberania da razão.
O que Pascal faz é uma análise da condição do homem no mundo, numa tentativa de alcançar a clareza no tocante ao próprio destino do homem: não objetivo nem racional, mas subjetivo, de modo a construir o homem naquilo que ele verdadeiramente deve ser, na sua autenticidade. Pascal percebe uma forma de o homem se relacionar com o mundo que consiste em desviar o olhar de si mesmo e de seu modo próprio de ser, procurando divertir-se: "Os homens, não tendo podido debelar a morte, a miséria, a ignorância, acharam melhor não pensar, para serem felizes" e isto é o que Pascal denomina divertimento, e o que Heidegger chamou de inautenticidade, isto é, a atitude que faz o homem recuar perante a consideração da sua própria condição, preocupando-se com as mais variadas formas de se distrair ou ocupando-se na vida cotidiana. O valor dessas ocupações é, pois, distrair o homem da reflexão de si e de sua condição. "Mas o divertimento não é a felicidade. Como procede do mundo exterior, torna o homem dependente e sujeito a ser perturbado por mil acidentes que constituem as suas inevitáveis aflições. (É) Mas o divertimento torna-se agradável e assim nos extravia e nos faz chegar insensivelmente à morte" . À medida em que o homem fecha os olhos às suas mazelas, abandonando a reflexão, o olhar sobre si mesmo, estabelece um modo de ser inautêntico, renuncia ao seu privilégio: o de pensar. O reconhecimento da própria miséria só se alcança no termo de uma busca que faz sofrer e gemer.
Heidegger chama o existir humano de Dasein (literalmente ser-aí), ou seja, o processo próprio do ser de transcender, ultrapassar a si mesmo em direção às coisas do mundo e com ele trocar sentidos e significados. Pascal nos fala do coração e da sutileza do espírito de finura, e Heidegger nos diz: "Aos desatentos, o simples parece uniforme".
O encontro terapêutico na análise existencial é um modo ôntico de estar-junto-com-o-outro. Quando percebo a realidade de um cliente submersa em idéias que estreitam seu mundo e limitam suas possibilidades de existir, lembro Pascal e busco as "razões do coração" que o levaram a este estreitamento.
Quero lhes falar agora de uma cliente, uma menina de 16 anos, com diagnóstico de P.C. e hemiplegia tanto nos membros superiores quanto inferiores. Ao longo do processo terapêutico, consegue se perceber como um ser diferente, porém com possibilidades existenciais ampliadas em relação ao que dela era esperado pela a família, escola e comunidade, "conquistando mais confiança, menos dependência e mais progresso". Chamá-la-ei de T.. T., no início do processo terapêutico, mal se sentava na sala, gostava de permanecer deitada, não demonstrava nenhum interesse pela vida. Passava as sessões falando sobre as pessoas com quem convivia e descrevendo o mundo ao seu redor. Suas descrições mostravam-na distante dos demais. Parecia-me uma criança isolada, esquivando-se dos outros. Logo se mostrou cheia de imaginação e nossos encontros me surpreendiam pela riqueza de suas vivências.
Em exercício corporal, na sessão de 12/12/88, T. relata uma cena: "Os bichos estão olhando o sol. Eles estão conversando com o sol. O sol convida os bichinhos: Vamos à praia tomar sol? Um disse: Não quero ir. O outro bichinho não respondeu". Em 21/12/88, em um outro exercício, ela verbaliza: "Estou pensando na cor azul, na cor vermelha, na cor amarela, laranja, azul e rosa, tudo clarinho, é o arco-íris que elas estão formando. O arco-íris está dentro da minha cabeça, resguardado, fazendo uma vibração e falando comigo: 'Você quer ir à praia'. 'Eu quero'. Agora tudo está verde, resguardando a minha cabeça". Entendo que ela está trazendo a possibilidade pela qual, a partir da sua própria potência, pode, apesar do sofrimento, fazer novas escolhas. Agora já pode dizer "eu quero", ao chamado de um outro, para participar do mundo à sua volta.
Em 9/1/89, conta o seguinte: "Estou formando a caixa dos desejos na minha cabeça. Estou me lembrando que estou num lugar cheio de praia. Estou vendo um raio de sol. Estou na praia, tomando banho de mar. Tem muita gente. Estou com 11 anos. O cabelo é do mesmo jeito, as pernas são grandes. Estou vendo barracas e vendo quadros". Primeiro ensaia na imaginação, na relação terapêutica a experiência de se abrir para o mundo. Está na praia, um lugar "cheio de gente". E no final deste mesmo ano, T. concretiza o desejo antes expresso: vai à praia.
Em nosso encontro de 2/1/89, ela traz a seguinte história: "Era uma vez uma boneca. Pode ser uma boneca de verdade. Porém, se existisse uma fada que fizesse ela ser de verdade, nós teríamos uma bonequinha muito engraçada. Ela até pode ser gente, mas ela tem diferença de todas as outras: todos são como nós, mas ela não. Ela é levadinha, mas não anda. Tem vestido, mas não tem sapato, não tem pé. Tem cabeça, boca, tem donos, e não tem amigos. Ela parece comigo, só tem uma amiga: a minha amiga é a Alba" (Alba é a sua fisioterapeuta). T. novamente se percebe diferente dos outros, mas fala de si mesma com carinho, com uma compreensão que vem "do coração": é diferente, mas também é gente. E já pode falar de uma amiga, mesmo que apenas uma e sua fisioterapeuta. T. descobre que existe nela uma história onde reconhece a identidade consigo mesma e o fundamento desta história nas relações com os outros, mesmo no momento em que parece isolar-se. Não poderá renunciar a nada de sua história, nem mesmo aos aspectos mais dolorosos e difíceis.
Depois disso, numa sessão, num exercício corporal, ela verbaliza: "É uma praia com o pôr do sol e o céu laranja-avermelhado. Uma bailarina dança muito, bichinhos correm. Eu gostaria de andar e de dançar. Consigo ver todo o meu corpo e vejo o meu pé pequeno. A cena apagou. Todos dormem". T. assume um compromisso com a vida, com a sua existência. É capaz de fazer projeções para o futuro. Os personagens de suas narrativas cada vez mais assumem o movimento e o desejo de crescer, de fazer "mais coisas". Ao mesmo tempo que experiencia suas limitações físicas, T. busca superá-las. Primeiro no contexto da psicoterapia, tempos depois, no mundo da família. Penso poder estabelecer aqui uma relação com o pensamento de Nietzsche, o confronto entre a vontade de potência e uma verdade estabelecida, a de não poder andar, construir e criar. Depois, movida pela vontade de potência, surge o desejo de andar. É possível que, aceitando sua imobilidade, T. possa também aceitar uma tomada de posição de vontade de tornar-se livre, integrar-se voluntariamente à descoberta da necessidade de conciliar sua liberdade com o mundo. Como nos diria Nietzsche, sai do "tu deves" para o "eu quero" e chega ao "eu sou". |