TRAFFIC



TRAFFIC


RESUMO DO FILME

* Um juiz conservador � escolhido pelo presidente para liderar a crescente guerra Americana contra o tr�fico de drogas. Ele apenas n�o contava descobrir que sua filha adolescente � uma viciada em crack e coca�na. Com Michael Douglas, Catherine Zeta-Jones e Benicio Del Toro. Dura��o: 2h27min. A��o � 18 anos. Em Cartaz:



CR�TICA DA NET

* � tentador qualificar Traffic como uma daquelas obras que se inscrevem como renovadoras do cinema, se n�o em sua compreens�o mais ampla, ao menos no territ�rio de Hollywood, o que para boa parte do p�blico d� na mesma. O novo filme de Steven Soderbergh que estr�ia hoje tem status e pretens�o para tanto. Mexe com as estruturas e, diga-se logo, � muito bom.

Congrega tema e formato no m�nimo fora do esquadro mais popular da produ��o de entretenimento. A tem�tica: o mundo das drogas visto em todo o ciclo, dos produtores ao consumidor final. A forma: um painel de tr�s hist�rias interligadas por personagens contrastantes mas sugados pelo mesmo destino. Com esta cria��o que descende diretamente da linhagem de Robert Altman, Soderbergh quebrou a banca com um inesperado reconhecimento da ind�stria. Ganhou cinco indica��es ao Oscar: filme, dire��o, edi��o, roteiro adaptado e ator coadjuvante para Benicio Del Toro. Nisso seria poss�vel comprovar uma renova��o. Antes de tudo, renova��o da carreira do diretor. Nunca � demais lembrar. O americano Soderbergh fez fama aos 26 anos com Sexo, mentiras e videotape. Foi o estreante mais jovem a conquistar a Palma de Ouro em Cannes. Viveu emparedado pelo sucesso. Foram dez filmes desde ent�o, incluindo Traffic. Mas h� dois lados nessa verdade. Ele nunca foi t�o incompetente que n�o merecesse leitura por vezes elogiosa, nem t�o brilhante que se revelasse superior ao in�cio precoce. Da� ser preciso ampliar o panorama para dimensionar Traffic.

E nada melhor que lan�ar m�o de outro par�metro e de mesma fonte. O filme anterior do cineasta est� em voga. Erin Brockovich, ve�culo para Julia Roberts exercitar algo mais que carisma e seus grandes l�bios, tamb�m busca sua estatueta na festa da Academia, indicado nas categorias de melhor atriz, filme, dire��o e roteiro original. Ou seja, Soderbergh concorre consigo mesmo e poder� ser celebrado ou se autoderrotar. � mais prov�vel que conquiste o tributo que cabe a Traffic. Amb�guo, o cineasta se mostra em faces diferentes, como ali�s � multifacetado o seu cinema.

Ambig�idade talvez seja a �nica rela��o a ser feita em todos os t�tulos da carreira de Soderbergh e �, dentro e fora das telas, sua marca registrada. Por tr�s das c�meras, ele n�o possui um norte tem�tico. Vai do amadurecimento de um adolescente nos anos de depress�o americana em O Inventor de Ilus�es ao estigma do machismo na com�dia rom�ntica Irresist�vel Paix�o. Embaralha tamb�m refer�ncias, da influ�ncia de um John Cassavetes a Orson Welles, e vai e volta no el�stico conceito de produ��o independente e comercial. Confirmam isso, mais uma vez, os dois �ltimos t�tulos de sua lavra. Mas talvez tal caracter�stica amb�gua, a que mais interessa, esteja realmente enfronhada como recurso de dramaturgia. E a� sim um realizador original se exp�e em plena forma.

Para ficar nos mesmos exemplos. Julia Roberts abre Erin Brockovich numa sucess�o de incidentes que levam o espectador a ficar desnorteado quanto a um registro imediato da personagem. Esse perfil ainda ser� transformado algumas vezes. � um confronto com o que Hollywood tem de mais freq�ente em suas produ��es, a apreens�o r�pida de uma personalidade e a imediata identifica��o por parte do p�blico.

Traffic n�o trai essa voca��o de Soderbergh. Pelo contr�rio, a evidencia e trabalha com ela em ebuli��o, ao camuflar os perfis e as inten��es em jogo. � essa h�bil manipula��o que faz o filme seguir em ritmo surpreendente at� o final, mesmo que muitas das situa��es sejam reconhec�veis e recorrentes do cinema. A abertura � sintom�tica. Numa estrada empoeirada do deserto, um carro � parado para o que parece ser uma vistoria. Dois homens requisitam um ped�gio ao motorista. Benicio Del Toro � um deles. Logo se pensa na figura do policial corrupto. Ao sugerir a gorjeta, acabam por capturar um carregamento de coca�na. Mais adiante, ambos tamb�m ser�o surpreendidos. Levar� algum tempo at� que o espectador saiba que cartas jogam os amigos. N�o basta constatar que Del Toro � mesmo um homem da lei. Mas na fronteira entre M�xico e Calif�rnia essa tamb�m � uma defini��o complexa.

Como ser�o outras. Michael Douglas nunca foi t�o ele mesmo - de um executivo predador em Wall Street � presa em Proposta Indecente. Cai como uma luva a esse registro de "wasp" (o americano branco bem-nascido) o cargo de respons�vel nacional pelo combate �s drogas nomeado pela Casa Branca. Recrutado, seu personagem passa a conhecer a burocracia e as medidas ass�pticas tomadas no escrit�rio.

Conhece tamb�m algumas verdades que desmoronam seu lar classe m�dia. Sua filha adolescente (Erika Christensen) adora festinhas de embalo com os amigos, onde a coca�na, a hero�na e outros acess�rios batem com freq��ncia. Seria de se esperar uma atitude mais profissional de um conhecedor. Mas o pai tomado de supresa � t�o inapto quanto qualquer outro. Pior, a crise se estende ao casamento (sua esposa � vivida por Amy Irving). Quando a mulher cobra a presen�a de pai, uma senten�a soa como navalha para homem t�o enquadrado: "Tomo dois goles de scotch para n�o me aborrecer todos os dias."

Voc�, por certo, j� viu isso antes. Mas nunca com a coragem, franqueza e rudeza que Soderbergh tenta exprimir dentro das fronteiras poss�veis da moldura hollywoodiana. Sim, porque o cineasta n�o perde de vista o triunfo que tem nas m�os. Tocar num assunto t�o pouco palat�vel e pol�mico, que n�o desce bem junto com a pipoca com manteiga, caberia ao velho esquema da seara independente que o diretor conhece e parece cada vez menos disposto a retomar. Nem sempre se v� t�o explicitamente nas telas comerciais a bula, digamos, dos m�todos de utiliza��o das drogas, como praticados pela filha do l�der antitr�fico. N�o por acaso, os grandes est�dios recusaram o roteiro. Ou seja, sua conquista tamb�m � louv�vel nesse sentido e a inten��o foi endossada por astros como Douglas e uma infinita lista de cr�ditos de nomes veteranos ou em ascens�o.

No mais, n�o s�o todos que ousam tirar o glamour de Catherine Zeta-Jones, a senhora Douglas, inchada por uma gravidez real. Ela � a terceira ponta do pesadelo e talvez a personagem que melhor sintetize as qualidades de dissimula��o perpetradas pelo diretor. Dona de casa milion�ria, mulher de um magnata que � exemplo na comunidade, ela assiste � derrocada da fam�lia quando o marido vai preso por comandar um dos principais cart�is de distribui��o. Deixa claro que n�o quer voltar � mis�ria e assume os neg�cios.

� uma reviravolta maravilhosa, mais uma vez, justific�vel por v�rios �ngulos, da m�e que protege a cria, da esposa fiel e mantenedora do lar. Ou um simples caso de adapta��o a um novo modo de ganhar a vida.

� um painel � americana, que se vale pouco de uma frustra��o geracional e se fixa num problema pr�tico, embora possam se encontrar arestas misturadas ao prin-cipal. � o caso, por exemplo, da quest�o da fronteira mexicana, na dualidade de cultura e perda de identidade representada pelo idioma duplo do personagem interpretado por Benicio Del Toro, o mexicano que vive com um p� l� e outro c�, e ter� uma dura decis�o final a tomar.

Soderbergh n�o chegou sozinho a esse mundo. Traffic � baseado em "Traffik", miniss�rie da televis�o inglesa produzida em 1989 e dirigida por Alastair Reid, o adaptador tamb�m de "Tales of the City". O mesmo roteirista da s�rie, Simon Moore, assina a adapta��o para o cinema.

Para contornar expectativas mais filos�ficas, o cinema americano apresentou recentemente craques no molde da desilus�o contempor�nea, sendo o principal Paul Thomas Anderson com seu belo Magn�lia. Num contexto mais aleg�rico e superficial, Sam Mendes pintou um retrato da crise familiar em Beleza Americana. A pedofilia ganhava ares de v�cio maldito, mas quase novelesco, influ�ncia talvez do patrocinador Steven Spielberg. Beleza Americana foi a grande sensa��o do Oscar do ano passado, o que prova tamb�m que os membros da Academia t�m l� suas ambig�idades, contradi��es mesmo. A nova obra de Soderbergh tem a estatura inc�moda que no passado recente seria rejeitada. Na noite de 25 de mar�o, poder� at� haver marmelada, prato t�pico servido na grande festa. Mas s� por estar no banquete, Traffic j� cumpriu papel mais do que transformador.(Orlando Margarido - Investnews/Gazeta Mercantil )





CR�TICA DO AUTOR DA P�GINA

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