A POESIA DOS CIGANOS          

Nascimento no acampamento

Nascí entre as velhas tendas,
em meio ao falar dos Ciganos
que narram à luz da lua
a fábula de uma branca cidade distante.

Nascí na miséria, entre os campos
ao longo do Beli Vit, sob plangentes salgueiros,
onde a angústia aperta os corações
e a fome pesa no saco de farinha.

Nascí num dia triste de outono
ao longo da estrada envolta em neblina,
onde a necessidade chora junto aos pequeninos
e a dor destila quente entre os cílios.

Nascí, e minha mãe morria.
O velho pai me lavou no rio:
por isso é forte hoje o meu corpo
e o sangue me escorre dentro impetuoso.

Rac saví ni bistarav

Sováv ánde mi kampína
ashunáv avrí, varéko galamí,
ushtilém sa chidén pe te ladén,
den ma muj po anáv
e pachardé tradén.
Dikháv me chavrrén
sar guglé sovén
e naj tsiknorré vazdáv
achilá lésko thán chingó,
morá te ladá? so te kerá?
ináj prvo drom, ni merá.
Ali gejá tsiknorró
ni asvín ni muklá
iziló ánde mi angáli
e vah phutardá
tála péste darátar o than mutardá.
An dji pharipé pelá mánge
e rroméski bax, akushlém prvo drom
kaj sem bijandó bibaxtaló
the kaj sem bijandó sar Rrom.

Uma trágica noite

Dormia no meu carroção
quando ouvi alguém gritar,
levantei-me pronto para fugir
mas me chamaram por nome,
eram os policiais.
Via os meus meninos
a dormir docemente
peguei nos braços o menor
deixando sua caminha molhada,
precisava escapar? que fazer?
não era a primeira vez,
aquele pequenino não chorou
deitou-se entre meus braços
abriu as mãos
mas por medo
fez xixi na terra.
No coração senti então forte o peso
do destino dos Ciganos,
pela primeira vez blasfemei
por ter nascido azarado
e por ter nascido Cigano.

Ánde mol hi o chachipé

Ánde mol hi o chachipé
i sa me tehariná
sa mi túga the mi bax,
me asvá, mo barvalipé,
mi ljubáv, mo sastipé.
Man víshe níko ináj po thém,
ináj ma amalá,
josh sámo achilá mi tsáhra,
me ichardé chemáne,
me teharináke bahvaljá.
Bistardém kaná trézno semá
mo razúm e mol lijá.
Kaná meráva, mató ka aváv.
Pála nikaté ináj shukár,
mánge hi shukár i gadijá.

In vino veritas

No vinho está a verdade
e todas as minhas manhãs
toda a minha tristeza e a minha sorte
as minhas lágrimas, a minha riqueza,
os meus amores, a minha saúde.
Não tenho mais ninguém no mundo,
não tenho amigos,
me restou só a tenda,
os meus violinos quebrados,
os meus ventos matutinos.
Esqueci o tempo
em que estava sóbrio
a minha razão a levou o vinho.
Quando morrer
também estarei embriagado.
Para os outros não fica bem,
mas para mim está bem assim.


  • Liberdade

    Nós Ciganos só temos uma religião: a liberdade.
    Em troca dela renunciamos à riqueza, ao poder, à ciência e à sua glória.
    Vivemos cada dia como se fosse o último.
    Quando se morre, se deixa tudo: um miserável carroção ou um grande império.
    E nós cremos que naquele momento é muito melhor termos sido Ciganos do que reis.
    Não pensamos na morte. Não a tememos, eis tudo.
    O nosso segrêdo está em gozar a cada dia as pequenas coisas
    que a vida nos oferece e que os outros homens não sabem apreciar:
    uma manhã de sol, um banho na nascente,
    o olhar de alguém que nos ama.
    É difícil entender estas coisas, eu sei. Ciganos se nasce.
    Gostamos de caminhar sob as estrelas.
    Contam-se coisas estranhas sobre os Ciganos.
    Dizem que leem o futuro nas estrelas
    e que possuem o filtro do amor.
    As pessoas não creem nas coisas que não sabem explicar.
    Nós, ao contrário, não procuramos explicar as coisas nas quais cremos.
    A nossa é uma vida simples, primitiva.
    Basta-nos ter o céu por telhado,
    um fogo para nos aquecer
    e as nossas canções, quando estamos tristes.

  • Hom jek Sínto

    Hom jek Sínto
    giváva stíldo
    dre i láida
    mánge kók'ro.
    Pijáva i líxta
    fon u kam.

    An u súni
    kedáva u róze
    an sáki gárta.
    K'ráva túke króna
    mit u céle stérni
    fon u bolabén,
    mit u céle stérni
    fon u hímlo.

    Dúnkel gibén
    kána kók'ro hal
    mit i túga
    dren i tséla.
    Rovéla mur gi
    u frái gibén,
    rovéna mar jáka.

    Mit u tréni
    dióm pre p'u flígi
    fon jek schválba:
    Den man mur frái gibén.
    Mekén te meráp
    tel jek tíkni tána,
    har jek Sínto.

    Sou um Sinto

    Sou um Sinto
    vivo na prisão

    na minha dor.
    Bebo a luz
    do sol.

    Nos meus sonhos
    colho as flores
    de todos os jardins.
    Trançarei para você uma coroa
    com todas as estrelas
    do céu,
    com todas as estrelas
    do universo.

    Vida obscura
    quando você está sózinho
    com a tristeza
    na miséria.
    Chora o meu coração
    a vida livre,
    choram os meus olhos.

    Com as lágrimas
    escreví nas asas
    de uma andorinha:
    entregue-me a minha vida livre.
    Que eu possa morrer
    sob um pequeno pinheiro,
    como um Sinto.

    U star nágli

    Penéla u parmísso:
    Star nágli hísle peráit
    Fir ti kerén ti merél i Retáres.

    Jek vintákri ciáj dikjás,
    Forpái ap i hígla,
    Har giálesli ap u drom fon u vélto.

    Jek kórkoro ciordásli,
    U kurmáskro na haiciardáspes.

    Unt Jov viás kiáke nágaldo.
    Mit trin nágli ap u kráizo.

    U stárto náglo ciás i sinténgro gi
    mit i láida fon u Retári.

    Penéla u parmísso.

    Os quatro pregos

    Diz a lenda:
    Quatro pregos eram forjados
    para fazer morrer o Redentor.

    Viu-os uma filha do vento
    que atravessava a colina
    no seu caminhar pelas estradas do mundo.

    Um apenas subtraiu,
    que o soldado não percebeu.

    E Ele assim foi crucificado,
    com tres pregos somente.

    O quarto prego comungou a dor
    dos Sintos ao Redentor.

    Diz a lenda.


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