Introdução (01-04)
A Psique (05-08)
Xena No Divã (09)
Características e Atributos (10-12)
Família e Traição (13-21)
Água, César, Crucificação e Bórias (22-26)
Gabrielle No Divã (27-28)
Características e Atributos (29-34)
A Auto-Realização de Gabrielle (35-38)
O Papel de Callisto (39-40)
Trevas: Vampiros e Lobos (41-43)
Esperança e a Mãe Sombria (44-47)
Abraçando as Trevas (48-50)
Para Onde Vamos a Partir Daqui? (51-54)
Por Que a Série é Tão Popular? (55-60)
Bibliografia
Biografia
Callisto como conselheira em THE BITTER SUITE.
Xena, seja cautelosa,
Xena, tome cuidado.
Ao fechar seus olhos,
Você pode ver o que não está lá.Xena, fique calma.
Abra seus olhos.
Mentiras podem ser verdade,
E a verdade pode ser mentiras.
--O Louco (do tarô), em THE BITTER SUITE (58/312)
Introdução
[1] A terceira temporada de Xena: Warrior Princess (XWP) fez todo mundo falar sobre o simbolismo e não apenas do subtexto em si. O Tarô e "Sobre que raios era aquela coisa do BITTER SUITE (58/312)"? se tornou um dos tópicos mais debatidos. O estudo moderno dos símbolos é parte da psicologia. A própria palavra "psicologia" é proveniente de um mito grego sobre uma princesa chamada Psique pela qual Eros (o Cupido) se apaixonou. Muitos dos termos usados em psicologia têm origem grega e, pensando bem, nós nem mesmo teríamos a série XWP se não fossem pelos antigos gregos. Não apenas porque ela é sobre uma pequena macedônica e sua amiga grega, mas porque nós não teríamos o teatro (e seu antecedente moderno, a televisão) se os gregos não tivessem inventado isso também.[2] O teatro evoluiu de algumas cerimônias religiosas gregas onde, segundo se acredita, o sacerdote ou a sacerdotisa relatariam ao povo reunido a história de alguma pessoa, como Édipo ou Pandora, na esperança de que - ao ouvir como essas pessoas tinham tão miseravelmente falhado na vida ou sido objeto de diversão dos deuses - os ouvintes não repetissem esses mesmos erros. Os Deuses eram a personificação de todas as sombras do comportamento humano, e eles representavam as várias partes de nossas personalidades. Esse tipo de teatro foi a primeira sessão de terapia em grupo.
[3] Como um amadurecimento disso, contar histórias, em todas as suas formas, é simbolicamente útil para nós porque não discerne entre o mundo "real" exterior e o mundo interior da psique. Eis aonde finalmente essa perambulação toda está nos levando: a uma desconstrução psicológica e simbólica de Xena: Princesa Guerreira. Isso soa como uma baita de uma bagunça Freudiana divertida? Te iludiram ("Ha Ha!" eu digo cordialmente, com os punhos na cintura), porque esta será uma bagunça Junguiana divertida. Sério.
[4] Eu gostaria de dizer primeiramente que eu não tenho nenhum tipo de graduação em psicologia ou campos correlatos, e a única razão que me tentou a fazer isto (além de ser "Gabiliciosamente" obcecada com a série) é que isto é ficção, e é para este tipo de análise que a ficção serve. Na vida real, a condição humana é muito mais complexa.
A Psique
[5] Segue-se uma rápida cartilha. De acordo com os discípulos de Freud e Jung, a psique é dividida em partes. Essas partes são, toscamente: Consciência (acima), Inconsciente (abaixo), Masculino (esquerda) e Feminino (direita). Essa divisão se justapõe a cada uma das outras criadas, as quais são mostradas nos diagramas abaixo.
[6] Nós passamos a maioria do nosso tempo no Ego, ou seja, no nosso estado consciente e em contato com o mundo físico. O objetivo da vida deveria ser alcançar o Self, o todo unificado com uma compreensão de todos os aspectos da nossa natureza.
Psique feminina
Psique masculina [7] O clássico mito do Herói Solar sobre Osiris, Gilgamesh, e Hércules, são simbolismos de como a "jornada da vida" se dirige a essa unidade. Primeiro, esses heróis conquistam o mundo físico consciente, e então cada um deles desce ao submundo da morte e conquistam seu inconsciente. Com o comando sobre os dois lados de si mesmos, eles atingem a unidade.
[8] A "Anima" é a personificação das qualidades femininas em um homem, e o "Animus" é a personificação das qualidades masculinas em uma mulher. Essas são forças muito poderosas porque a cultura geralmente nos ensina a ignorá-las ou mesmo reprimi-las em nós mesmos, mas, como qualquer um que já teve sonhos ruins pode atestar, o inconsciente não pode ser ignorado por muito tempo.
Xena No Divã
[9] "E untão, nós deverremos cometçar, hum? Agh! Xe-naa em su difã primerro, vozê dix. É clarro".
Características e Atributos
[10] Vamos começar com os atributos físicos de Xena. Ela é alta, muito segura de suas extraordinárias habilidades físicas, e coberta de couros e aço duro para impedir o mundo exterior de conseguir o que está ali dentro. Como uma heroína ela tem armas. A espada é uma arma tradicional de heróis "solares" masculinos (ou seja, Hércules/Héracles), e todos conhecem seu simbolismo fálico. Ou não? No tarô e sistemas símbolos semelhantes, a espada representa a funções do pensamento e da intuição, as quais discrimina e divide as coisas. Mas esses são traços considerados masculinos e, conseqüentemente, a espada é ainda fálica, mesmo em termos politicamente corretos. (E você que estava pensando que era por causa de seu formato!).[11] É importante entender que o simbólico "masculino" e "feminino" são usados de uma maneira similar pelos físicos, descrevendo partículas sub-atômicas como tendo cores e sabores. Elas são apenas palavras usadas como um instrumento para que possamos discutir sem qualificar tudo. O simbolismos não é uma ciência curta e grossa, e por isso nós temos limites obscuros e vagos das coisas, como pensamento x intuição. Dependendo do contexto, a intuição pode ser masculina ou feminina. Ambas são funções mentais superiores que às vezes complementam uma a outra e, outras vezes, se opõem.
Xena, no corpo de Autolycus, guia o chakram.
[12] Em oposição à espada de Xena está o seu Chakram, um símbolo yonical (o oposto do fálico) carregado pelo deus hindu Vishnu em seu aspecto como a deusa Kali. Em sua imagem nós vemos Kali com suas quatro mãos. A primeira segura uma concha (sankha), a segunda o chakra, a terceira um botão de lótus, e a quarta uma clava. Como um círculo de fogo, o chakram tanto distribui a morte como representa o ciclo do renascimento e renovação. Estes são os temas principais de Xena e as forças dirigentes por trás das ações de Xena como evidenciado pelas letras traduzidas de "The Gauntlet" da trilha sonora de XWP: "Pode a fé nascer das cinzas / E crescer para enfrentar um novo dia?"
Kali
Família e Traição
[13] "Untão, Xe-naa, konte-me o que vozê se lembrra zobrre o zeu pai".[14] "Bem, tem uma coisa. Quando eu era jovem, eu fica parada nos campos e observava meu pai cavalgar em seu cavalo. Ele vinha bem perto, e eu levantava rápido, sem mover um músculo, e ele me pegava nos braços e nós íamos embora. Eu achava que ele era o maior homem do mundo" [TIES THAT BIND (20/120)].
Nós somos levados a acreditar que Atrus é o pai de Xena em TIES THAT BIND.
[15] Ela realmente achava isso? Apenas alguns minutos antes disso ela disse "Eu não sei quem é você, mas meu pai não resgataria meninas escravas. Ele só se importava consigo mesmo".[16] Tem que haver uma explicação para essa mudança de atitude, e acho que 'resgatar meninas escravas' é um bom lugar para começar. Nos primeiros dez minutos de SINS OF THE PAST (01/101), depois de uma tentativa de literalmente enterrar seu passado guerreiro, resgatar pretensas meninas escravas é exatamente o que Xena faz às mulheres de Potedia. Ela escolhe usar as habilidades que ela adquiriu durante a vida que levou como guerreira, normalmente um ofício masculino, para ajudar os outros. Então como ela veio para essa vida masculina? Foi simplesmente para compensar o fato de ter crescido sem um pai?
[17] Vamos refletir sobre o que conhecemos: a questão do abandono. Xena obviamente amava seu pai, e ele partiu sem deixar rastros, o que deve ter deixado uma marca indelével nela. Talvez seja pro seu próprio bem que ela não tenha aprendido a verdadeira natureza desse desaparecimento até que ela estava bem mais velha.
[18] Xena cresceu sem um pai, mas ela teve dois irmãos mais velhos. Essa proximidade na idade de seus modelos de papel masculino a levou a um tipo diferente de relacionamento com seu Animus. A parte masculina de sua psique, assim como seus papéis modelos, era jovem e desimpedida, e os aspectos femininos de sua psique foram deixados atrofiados. Ela era uma menina levada e traquinas, dessas que se interessam por atividades masculinas.
[19] Lyceus, seu irmão favorito, morreu em um momento fundamental da vida dela, e houve uma grande quantidade de culpa associada a isso. Ela sentiu que a morte dele foi culpa sua, e a mãe dela também achava isso. Sem nunca dar muita atenção a suas emoções, ela estava mal equipada para lidar com uma crise tão poderosa. É muito mais fácil deslocar (projetar) a causa de sua aflição psicológica em outra pessoa do que em si mesma, então sua mãe se tornou o problema e Xena simplesmente foi embora.
[20] A psique de Xena procura se equilibrar depois disso, recriando o passado do modo como ela o conhece. Ela deixa a sua mãe, assim como o seu pai fez, e assume o papel de protetora do seu lar. Depois de destruir tudo que ela percebia como uma ameaça ao lar, ela continua em seu caminho de violência porque ela não confrontou o verdadeiro problema: seus sentimentos de traição - traição pelo seu pai que a deixou, pela sua mãe que se recusou a confortá-la quando ela mais precisava, e traição por si mesma.
[21] Com isso eu quero dizer que, a defesa de Amphipolis deve ter sido o primeiro encontro verdadeiro de Xena com suas emoções mais obscuras, as quais seriam representadas pela "sombra" no diagrama acima da psique. Na defesa de sua própria casa e família, quem não é capaz de se tornar um animal? Xena está familiarizada com seu Animus, o qual lhe dá a lógica de "Faça sangrar o nariz do brigão e ele não voltará mais". Mas quando essa "lógica" é dirigida às suas desajeitadas emoções, isso se torna algo bastante diferente. Xena pode ter ficado horrorizada com sua própria habilidade e crueldade quando a batalha acabou, porque ela não sabia o quanto ela era capaz de fazer tais coisas.
Água, César, Crucificação e Bórias
Caesar tem todos os movimentos certos em DESTINY.
[22] Sua vida como uma pirata lhe deu tempo para refletir sobre essas coisas. Se os escritores fizeram isso conscientemente ou não, a escolhe deles do ambiente é perfeito. O mar, a água em geral, representa o inconsciente. Xena está deslizando pela superfície de seu inconsciente. Ele a leva a lugares enquanto tenta dizer a ela o que está errado, e ela começa a ouvi-lo quando nós vemos a frase: "Esta vida que estou levando está começando a me entediar" [DESTINY (36/212)].[23] Infelizmente ela confia isso à pior pessoa possível: César. Apenas pense nesta frase favorita dele: "Divida a sensibilidade da mulher de suas emoções, e você a terá". Não pode haver erro nesse simbolismo. Ele é a força que irá separar a esquerda e a direita de Xena, o acima e o abaixo, o consciente do inconsciente, e é uma cruel ironia que César faça isso através da crucificação. A cruz é a representação mais simples da perfeita forma humana: pernas juntas, braços estendidos, cabeça para cima. A crucificação é, portanto, um ato simbólico que faz o desviante criminoso corresponder à nossa condição ideal.
[24] Então eis ela aqui novamente, traída por uma poderosa figura em quem ela confiou. Eu acho que a maioria de nós concordaria que é a revolta com esse evento que cria Xena, a Conquistadora. A crucificação é a morte do Ego dela, e ela está agora dirigida inteiramente por sua Sombra, uma criatura de instinto carnal que se delicia em fazer o mundo pagar por sua dor.
[25] Por um tempo, Bórias desempenha o papel do consciente morto dela. Ele é o foco que falta a ela, a moderação que ela vê como fraca, e, o que é mais importante, o fazedor de pactos. Ele irá procurar tratados de compromisso e conversação quando a única solução que ela vê é "Matem todos eles!", a qual é sua projeção de sua própria necessidade interior de morte. Nós também vemos esse desejo de morte no comportamento de Callisto.
[26] Então esta é a minha opinião de quem Xena era. Para descobrir quem ela é nós devemos estudar Gabrielle, porque Gabrielle é tudo que Xena não era. Elas representam as funções inferiores uma da outra. Como Bórias, Gabrielle provém o equilíbrio, só que desta vez Xena não luta contra isso.
Gabrielle No Divã
"A única razão de eu fazer qualquer bem afinal neste mundo é porque eu faço isso com você."[27] "Untão, Gahbri-el-le, porr que vozê ishtá viajôndo com a Xe-naa?"
-Xena, FINS, FEMMES AND GEMS (64/318)[28] "Perambular" seria uma descrição mais acurada do que elas fazem do quer "viajar". Perambular é um aspecto da "Jornada da Vida" que é tão freqüentemente usada em histórias. Em histórias mais clássicas a Jornada começa com um destino em mente, o herói tem um objetivo a alcançar. Em tempos modernos, porém, é crescentemente mais comum encontrar personagens que perambulam à procura do que eles não conhecem. Olhem para o clichê do sujeito que sai pedindo carona, no final dos anos 60 e começo dos anos 70, como o produto de uma geração "perdida".
Características e Atributos
[29] Há, claro, mais razões específicas para Gabrielle estar com Xena:
"Vê aquele cara com o qual eles querem me casar? ... Não é na parte gentil que eu tenho problemas com ele. É na parte lerda e imbecil."[30] Então Gabrielle tem medo do casamento ou do que ele representa: maturidade e responsabilidade. Ela cresceu em uma família de três mulheres, em uma idílica comunidade fazendeira (fazenda e agricultura são freqüentemente representadas pela divindade feminina, como Deméter, pelas razões óbvias da fecundidade e nutrição femininas), e agora a família de Gabrielle espera que ela se case e seja um membro responsável da sociedade ao ter bebês.
-Gabrielle, SINS OF THE PAST (01/101)[32] Gabrielle tem uma superabundância de experiência com suas funções (femininas) intuitiva e sentimental, mas suas funções (masculinas) de pensamento e sensação estão berrando por atenção. A vida com Xena (soa como se fosse algo que Gabrielle irá escrever quando tiver sessenta anos) pareceria ser a rota perfeita de escape. Gabrielle quer experimentar em primeira mão a realidade desses mitos sobre os quais eu estava falando mais cedo, porque ela sabe que ela tem muito a crescer antes de ser a pessoa que ela quer ser. Cuidado com o que você deseja, garotinha.
[33] Um dos primeiros encontros que Gabrielle tem em sua nova vida é com um Ciclope. Olhos são o símbolo do Ego consciente, e então uma criatura de um só olho representa os pensamentos limitados, de via única, das antigas vidas de nossas heroínas. Xena, com suas funções primárias de sensação e intelecto, derrota sua cabeça adversária fazendo batalhas com ela. As funções primárias de Gabrielle são intuição e sentimento. Ela intuitivamente sente o que o Ciclope quer e o derrota dizendo a ele o que ele quer ouvir. Isso é algo que ela também faz bastante consigo mesma, mas eu chegarei lá mais tarde.
[34] Xena sabe que Gabrielle pode ajudar sua mudança porque Gabrielle continuamente altera o padrão normal de comportamento de Xena.
"Há apenas um caminho para terminar este ciclo de ódio, e é através do amor e do perdão."
-Gabrielle, CALLISTO (22/122)
A Auto-Realização de Gabrielle
[35] Mas o que Xena está fazendo para a necessidade de Gabrielle de realizar seu self completo? Quantas vezes nós ouvimos Xena dizer "Nunca mude comigo" para Gabrielle? Gabrielle obedientemente desempenha a sua parte agindo como uma criança. No começo, ela era sempre capturada ou ameaçada e o resultado era que Xena tinha que dar atenção a ela.
Gabrielle descobre mais sobre si mesma em DREAMWORKER.
[36] Também como uma criança Gabrielle demonstra promessa e potencial, e ela tem grandes possibilidades trancadas nela. Os sacerdotes em DREAMWORKER (03/103) tentam tomar isso dela para seus próprios propósitos, mas Xena os detém. Neste caso, foi uma coisa boa porque de outra forma Gabrielle estaria morta. Quando Gabrielle ganha o Direito à Casta Amazona e se torna uma princessa, porém, ela nunca segue com isso. Mesmo quando ela se torna a Rainha da tribo de Ephiny, Gabrielle escolhe ficar com Xena para desempenhar sua parte como a função inferior de Xena.[37] Em THE PRODIGAL (18/118) quando Gabrielle defende Potedia, ela é poupada do inconveniente da matança por Meleager. Ela não teve a chance que Xena teve de se atracar/engalfinhar com esse lado de si mesma.
[38] Quando o mundo dela se torna crescentemente violento, ela começa a pensar que sua antiga vida possa não ter sido tão ruim. Talvez se casar e ter filhos seja uma boa escolha. Uma vez mais ela está tentando evitar ter de crescer, apenas desta vez o crescimento é a descoberta potencial de seu verdadeiro self (a conclusão da busca), a possibilidade de ver além de seu próprio aspecto idealístico. Em vez disso, em RETURN OF CALLISTO (29/205), ela diz "Sim" à proposta de Pérgicas. Na superfície, Xena está feliz por ela, mas sua sombra não quer mudar, porque ela ainda não terminou o que precisa ter com Gabrielle.
O papel de Callisto
[39] Aqui é onde a ficção difere grandemente da realidade porque na realidade o que eu estou para dizer não faria sentido. A função inconsciente da Sombra de Xena age na história através de Callisto. Nós não podemos negar as praticamente idênticas - ainda que opostas - naturezas de Xena e Callisto. Elas estão separadas por um fino véu: a maior idade de Xena, sua sabedoria (presumidamente), e o amor de algumas pessoas. Callisto ataca e mata a chance de Gabrielle ter uma vida longe de Xena, e Xena está ali para recolher os pedaços. O fato de Xena matar Callisto (Não, ela na verdade não a mata, ela apenas... "deixa" ela morrer) representa o empurrão do aspecto mais profundo dela mesma para dentro de seu inconsciente, apenas para vê-lo emergir mais poderosamente que antes em INTIMATE STRANGER (31/207).
"Oh, eu não vou lhe matar agora. Primeiro eu vou matar a sua alma."[40] (Apenas uma nota curiosa aqui. Eu sei que Hudson teve que desempenhar o papel de Xena pelo tempo que fez por causa da lesão que Lucy teve e não por qualquer escolha dos roteiristas, mas isso torna o exemplo muito melhor assim por causa do simbolismo e do inconsciente, coisas que sempre viram para dentro de seus opostos. Também, a verdadeira razão de Gabrielle não deixar Xena é que isso devastaria a produção da série, mas - em ambas instâncias de marketing prático ou de preocupações da produção - realmente isto fez os aspectos míticos/simbólicos da série funcionarem melhor. Marque mais um ponto para a sincronicidade.)
- Callisto, RETURN OF CALLISTO (29/205)
Trevas: Vampiros e Lobos
[41] GIRLS JUST WANNA HAVE FUN (28/204) foi uma exploração dos poderes transformadores do relacionamento de Xena e Gabrielle. O vinho (ou, neste caso, o sangue do deus do vinho Baco/Dionísio) há muito tem sido usado como um caminho para o inconsciente. As lendas das Bacantes e Mênades vêm dos relatos errôneos de cerimônias reais nas quais grupos de mulheres cultuariam o deus do vinho (ou seja, ficavam bêbadas e teriam uma noitada de garotas que durava três dias). Esta era uma experiência que dava muitos poderes para as mulheres envolvidas, assim como parece ter acontecido com Gabrielle. Ela encontra e dança com duas mulheres "estranhas" (está bem, seus adoradores do subtexto, parem de sorrir), e elas lhe dão o dom da auto-descoberta. O sangue do deus do vinho liberta o seu inconsciente, e de repente ela pode voar, ela esta'mais forte, e, claro, há a natureza sexualmente extrovertida da fachada do vampiro.[42] Vampiros há muito têm sido uma representação poderosa do inconsciente. Bram Stoker os utilizou como símbolos da sexualidade na era Vitoriana repressora tanto em Drácula quanto em A Maldição da Serpente. Tanto Stoker quando a equipe de produção de Xena usou o aspecto do lobo das Bacantes. Conscientemente ou não, ambos estão trazendo os mitos das Mênades no qual a "mulher selvagem" é descrita como sendo um bando de lobos (uma frase que Gabrielle traz consigo em A DAY IN THE LIFE [39/215]).
[43] O que faz Gabrielle com esse poder obscuro em si mesma? Ela o dá a Xena para que Xena possa batalhar contra o malvadão e salvar o dia. Gabrielle não o toma para si mesma; ela não o usa. Em vez disso, ela ignora e o nega.
Esperança e a Mãe Sombria
Gabrielle passa por uma situação difícil em THE DELIVERER.
[44] Toda essa repressão deve cobrar seus direitos eventualmente, e em THE DELIVERER (50/304) ela nos é finalmente dada nas mais míticas proporções. Do momento que Gabrielle diz "Isso machuca por dentro, Xena", nós sabemos que algo está diferente dessa vez. Esperança, todas as trevas e medo de Gabrielle, se arranca livre de sua mãe com assustadora velocidade, assim como Atena saltou inteiramente formada da testa de Zeus.[45] Gabrielle a vê como uma parte de si mesma, um bebe a ser cuidado e nutrido, assim como nós todos deveríamos dar atenção aos aspectos recentemente descobertos de nós mesmos. Xena vê Esperança como um mal, e, se as mecânicas da história ilustra esse mal ou não, é Xena quem nega à Esperança uma boa mãe, pois com certeza Gabrielle teria sido a melhor das mães. Assim como Xena escolhe deixar Solan e ao fazê-lo se torna a Mãe Sombria, então agora ela força o mesmo à Gabrielle, novamente negando a ela a chance de crescer.
[46] A figura da Mãe Sombria é um território familiar às pessoas que fizeram a série, porque ela é a força dirigente por trás dos mitos de Hércules. Hera é o arquétipo da "madrasta perversa". Ela nega ao herói a chance de crescer, negando-lhe o conhecimento dela mesma e conseqüentemente o conhecimento das próprias funções inferiores dele. Para entender isso, você tem que aceitar que todos os personagens em um mito são partes da mesma psique, então a madrasta ou o pai malvados são a própria Anima ou Animus do herói. O herói não tem que ser homem para isto funcionar, como os irmãos Grimm nos apresentam em "Cinderela". A Mãe Sombria provém existência física da vida, mas nada mais que isso. A Boa Mãe provém crescimento espiritual também. Obviamente os equivalentes de Xena são Lao Ma e Alti. Eu não vou mais longe nisso porque daria para fazer um ensaio só sobre isso.
[47] Eu gostaria, porém, de tocar na idéia da Eva Sombria. Um claramente e definitivamente malevolente arquétipo feminino está faltando na nossa cultura ocidental moderna, e é esta falta de medo do lado negro feminino que leva a uma falta de respeito para aquilo que é considerado valores femininos. As conseqüências de ignorar tais valores não são vistas como severas, se elas são vistas afinal. No mundo antigo, Hera, Atena e Artemis, todas tinham seus lados furiosos, e Medusa era a personificação pura dessa idéia.
Abraçando as Trevas
[48] Então onde estamos agora? Gabrielle deu tangíveis evidências de seu self obscuro, e Xena vai atrás de Ch'in para matá-lo contra todas as recomendações de Gabrielle. O que nós temos aqui é uma falha de comunicação. As linhas estão para serem desenhadas. As duas metades do todo (Xena e Gabrielle como uma psique) irão batalhar por supremacia em uma luta que, qualquer uma delas realmente vencendo, irá destruir a ambas. Gabrielle trai Xena por rancor e raiva, e então é aterrorizada por suas próprias ações e súplicas de perdão. Xena não a perdoa verdadeiramente, mas no momento em que sua execução se aproxima, ela alcança um lugar de calma que literalmente permite sua liberdade [THE DEBT 52,53/306,307].[49] Essa pequena e difícil trégua é rompida quando Esperança mata Solan, e, em seguida, Gabrielle mata Esperança. Uma vez mais o pior medo de Xena foi tocado por alguém em quem ela confia.
"Eu confiei em você. Eu confiei em você e você mentiu pra mim!"[50] Este é o momento definitivo para a nova Gabrielle. Ela agora entende que suas ações sombrias são às vezes necessárias e, ao final de THE BITTER SUITE (58/312), Xena lhe pede inteiras e plenas desculpas, em não menos que canções, por toda a dor que ela causou. Cada lado abraçou e viu o pior do outro, mas o esforço nunca está completo. A cena final de FORGIVEN (60/314) nos deixa saber, não tão sutilmente, que Xena ainda sente culpa. Gabrielle ainda se debate contra a necessidade de ações obscuras para fins de um bem maior em WHEN IN ROME... (62/316), mas ela está aprendendo. Em FORGET ME NOT (63/317) Gabrielle confronta seu lado sombrio em seu perfeito aspecto de Ares, e por todo o caminho ele se insinua às sugestões dela. Sua sombra está procurando o que ela está procurando: equilíbrio em um mundo virado de cabeça para baixo pelo medo.
-Xena, MATERNAL INSTINCTS (57/311)
Para onde vamos a partir daqui?
[51] Então, nós já temos esse equilíbrio? As duas personagens se misturaram perfeitamente uma na outra? Com a finalidade de manter a história acontecendo, elas não podem, e aí é onde nós temos o maior problema. Para onde vamos agora? Se a história não termina, os roteiristas têm que começar a reciclar idéias, e eles já começaram. Xena tem outro "duplo". Callisto está morta, de novo, presumidamente pela última vez, que possam seus pensamentos se esvaziarem. Gabrielle está morta, de novo, presumidamente não pela última vez. Xena viajou para a terra dos mortos, de novo.
Gabrielle e Najara unidas em CRUSADER.
[52] Então para onde nós vamos a partir daqui? Najara apresenta algumas interessantes possibilidades a la Joana D'Arc. Ela está desejando "ser boazinha" a todo o custo. Gabrielle poderia aprender algo com ela, mas eu suspeito que ela já aprendeu com Ch'in. Xena poderia também aprender algo com Najara, mas eu suspeito que ela não irá.[53] (Nota do Autor: Este é um adendo a este artigo, o qual foi originalmente completado assim que acabou CRUSADER [76/408]. Como você pode ver, eu estava ponderando a unidade da psique como homogênea, a qual funcionaria para personagens muito tediosos. Usando o conceito da dualidade das filosofias orientais, os roteiristas - agradecidamente - encontraram um balanço dinâmico, como o Yin e Yang. Preto e branco não misturam no cinza mas continuam em cooperativa oposição. Um não pode existir sem o outro. Não existe tal coisa como o som de uma só mão batendo palma.)
[54] Certo, você esteve esse tempo todo comigo, e eu gostaria de dizer "Obrigado" por ter chegado até aqui. Eu lhe dou a opção de descer do carro aqui por causa do que vem aí embaixo; você viu? É a fronteira proverbial, e eu estou para mergulhar a cabeça fora dela. Se você ler, vai vir atrás de mim. Eu avisei.
Por Que a Série é Tão Popular?
[55] Pense grande agora, não pequeno. Sim, o roteiro é bom e ocasionalmente espetacular. Sim, os personagens e os atores que os representam estão encaixados. Mas por que personagens como Xena, Sarah Conner, e Buffy a Caça-Vampiros são tão populares agora? Nos anos 50 Sheena: Rainha das Selvas (TV, 1955) tinha sua própria série, mas quase ninguém se lembra dela. Verdadeiramente histórias de sucesso como as lendas hercúleas Romeu E Julieta, Huckleberry Finn, ou Guerra nas Estrelas (George Lucas, 1977) são lembradas e queridas porque elas falam de coisas enterradas no fundo de nós todos - coisas não apenas a nível individual, mas a nível cultural. Nos leva de volta a aquela ausência do arquétipo da mulher sombria na cultura ocidental da qual eu estava falando antes.[56] Heróis Solares têm um tremendo ressurgimento de popularidade na Renascença porque toda a cultura na Europa estava caminhando para onde os homens dessas histórias estavam indo. Pessoas estavam indo de uma visão de mundo de Aristóteles, onde "A vida é um véu de lágrimas" para uma que nós agora chamamos de "senso comum", a idéia revolucionária de que tudo é explicável e conhecível se você simplesmente usar a lógica ao observá-lo. Nós viemos por um longo caminho até então, e muitas pessoas sentem que perdemos algo pelo caminho - bem assim como Xena. A cultura européia tentou conquistar o mundo, e o resultado foi longos e sangrentos conflitos - bem assim como Xena. A cultura ocidental agora se sente envergonhada de seu passado e muito do mundo a vilipendia - bem assim como Xena. Deste modo, Xena é uma alegoria da cultura que a criou para entreter.
[57] Eu acredito que a cultura ocidental está para passar por uma outra grande - ainda que sutil - mudança. Desta vez os resultados não serão aviões, trens e automóveis, mas algo muito mais perto do coração da cultura, algo espiritual, se você quiser. O Herói Solar era o arquétipo da Renascença, mas sua missão está agora metade completa. A um nível cultural nós conquistamos a consciência lógica mundial, e agora devemos encarar o nosso próprio inconsciente.
[58] Xena é uma "Heroína Lunar" (fico imaginando se eu quem inventei essa expressão), o exato oposto de um Herói Solar. Como a cultura ocidental se desloca para o lado intuitivo novamente, longe da lógica, Xena é um novo arquétipo.
[59] Eu diria que este é o fim. Oh, e mais uma frase apenas porque eu gosto dela:
"Com as pernas quebradas e a alma mutilada, eu foi para o leste (oriente)".[60] Cantem um blues.
-Xena, THE DEBT (52/306)
Bibliografia
Dictionary Of Symbols by Tom Chetwynd. Publicado por Aquarian.Four Ages Of Man by Jay Macpherson. Publicado por MacMillan.
Deeds Of Gods And Heroes by David Creighton. Publicado por MacMillan.
Biografia
Ryan Dever
Sou apenas um Xenite como o resto de vocês. Como a maioria de vocês eu tenho uma página e como alguns de vocês eu sou dono de dois gatos: Charles e Biscuit.
Episódio favorito: Aí empata entre CHARIOTS OF WAR (02/102), THE DEBT (52,53/306,307) e THE BITTER SUITE (58/312)
Frase favorita: "A quem eu tenho que esmurrar para conseguir uma bebida por aqui?!" Gabrielle, TEN LITTLE WARLORDS (32/208)
Primeiro episódio visto: SINS OF THE PAST (01/101)
Episódio que menos gosta: A TALE OF TWO MUSES (74/406)