Reformador, dezembro 1956, pp. 267-8.
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Culto da Assistência
Emmanuel
1.
Jesus e a assistência Por
que teria Jesus multiplicado os pães para a multidão que lhe ouvia a palavra? Decerto
que se o maná da revelação pudesse atender, de maneira total, às necessidades
da alma no plano físico, não se preocuparia o Senhor em movimentar as
migalhas do mundo para satisfazer a turba faminta. É
que o estômago vazio e o corpo doente alucinam os olhos e perturbam os
ouvidos, impedindo a função do entendimento. O
viajante perdido no deserto, atormentado de secura, não compreenderá, de
pronto, qualquer referência à Justiça Divina e à imortalidade da alma, de vez
que retém a visão encadeada à sede que lhe segrega o espírito em miragens
asfixiantes. Ao portador da verdade compete o dever de mitigar-lhe a aflição
com a gota d’água capaz de libertá-lo, a fim de que se lhe reajustem a
tranqüilidade e o equilíbrio. A
obra espírita-cristã não se resume, pois, à predicação pura e simples. Jesus
descerrou sublimados horizontes ao êxtase da Humanidade, mas curou o cego de
Jericó, refazendo-lhe as pupilas. Entendeu-se com os orientadores de Israel,
comentando a excelsitude das Leis Divinas; entretanto, consagrou-se à
recuperação dos alienados mentais que jaziam perdidos nas trevas. Indicava a
conquista do Céu por meta divina ao vôo das esperanças humanas; contudo,
devolveu a saúde aos paralíticos. Referiu-se à pureza dos lírios do campo;
todavia, não olvidou o socorro aos leprosos, em sânie e chagas.
Transfigurou-se em nume celeste no Tabor, mas não desprezou a experiência
vulgar da praça pública. É
que o Evangelho define a restauração do homem total. A
alma humana é a crisálida do anjo, como a Terra é material para a edificação
do Reino de Deus. Desprezar
a fraternidade uns para com os outros, mantendo a flama do conhecimento
superior, será o mesmo que encarcerar a lâmpada acesa numa torre admirável,
relegando à sombra os que padecem, desesperados, ou que se imobilizam,
inermes, em derredor. 2 – Assistência como dever É
indispensável o culto da solidariedade como simples dever. Todos
possuímos algo para dar: O
níquel da assistência consoladora... A
roupa esquecida ou imprestável... O
pão que sobra à mesa... A
frase reconfortante... O
livro renovador... A
bênção de uma prece... Não nos reportamos, porém, à esmola suplicada. Dizemos da ação espontânea e constante do amor fraterno que procura os companheiros menos felizes para socorrê-los nas provas difíceis e deprimentes, copiando a Infinita Bondade Celestial que não nos aguarda atitudes mendigantes para doar-nos a luz do sol. Se
recolhemos a bênção do Senhor, em cada instante da estrada, é justo saibamos
estendê-la aos que nos cercam, em nome do Cristo Vivo que não nos desampara. Precisamos
da lídima caridade uns para com os outros, como necessitamos do ar que nos
sustenta. Caridade
sem tributos de gratidão. Caridade sem ostentação de virtude. Caridade como
saúde da alma. Caridade como hábito justo. Caridade como inadiável obrigação. 3 – Espiritismo e assistência O
Espiritismo cria em nossa existência novos costumes e novos modos de ser. É
a renovação da mente em Cristo, integrando-nos na verdade que nos fará livres
através da preciosa escravidão aos nossos deveres. E
estabelecemos novo plano de relações, em nosso campo doméstico e social: A
compreensão pacifica-nos o espírito. A oração
converte-se em alimento de cada dia. E
a caridade aparece aos nossos olhos, em sua função de tutora da paz,
impelindo-nos ao Sumo Bem. Mas
porque admitir que somente poderemos exercê-la, monumentalizando institutos
de salvação? Porque
delegar ao amanhã o serviço de hoje? A enfermidade observa-nos a saúde. A
carência do vizinho repara-nos a abundância. A dor, em lágrimas, ouve-nos o
cântico de alegria. Dispomos de estudos freqüentes, de reuniões sistemáticas, de preces diárias... Por que não instituir em nossas tarefas doutrinárias o culto semanal da assistência fraterna? Conhecemos
os espinheiros e os pântanos do caminho... E sabendo que todos somos irmãos,
como avançar para a glória da frente, escutando os gritos de revolta e os
soluços de sofrimento de quantos ainda se enleiam à miséria da retaguarda? Jesus
passou entre os homens, ensinando e servindo, trazendo o Céu à Terra ou
elevando a Terra para o Céu. Por agora, não podemos dizer ao paralítico
“levanta-te e anda”, mas não devemos esquecer que a migalha de pão, a gota de
leite, a peça agasalhante, o frasco de remédio, a página luminosa, a flor da
amizade, a frase edificante, a visita espontânea e a prece amiga podem
realizar milagres de amor, levantando os companheiros que sofrem para que
empreendam em si mesmos a viagem de retorno das trevas para a luz. 4- Apelo fraternal Quanto
possas, assim, ainda que seja por algumas horas de um dia em cada sete, na
equipe dos irmãos de ideal ou simplesmente sozinho, atende ao culto semanal
da caridade como dever. Faze-o,
porém, com amor e humildade, porque somente através da humildade e do amor, o
teu gesto de fraternidade e carinho não se transformará em fel da vaidade
constrangedora. É imprescindível sejamos entendidos no ato de auxiliar, para que não tenhamos em troca a desconfiança e a amargura daqueles que nos esperam ternura e cooperação. Há
companheiros em lutas expiatórias tão extensas e tão complexas que não
dispensam o apoio incessante, enquanto atravessam as faixas da vida física. Lembra-te,
no entanto, do pão e da luz, com que Deus te socorre, todos os dias, e ajuda
sempre. O
olvido temporário na carne, enquanto é hoje, não te deixa perceber a medida
dos próprios débitos. Se
agora é o teu momento de dar, amanhã pode surgir a tua hora de receber. Não
te faças representar por outrem, ao lado de quem padece. Dinheiro
e autoridade convencional, respeitáveis embora, não compram na vida os
talentos do coração. Doarás
alimento e remédio, reconforto e carinho aos que jazem nas algemas da
angústia, mas, em troca, todos eles dar-te-ão coragem, e esperança, fortaleza
e consolo, valorizando-te, no corpo terrestre, a responsabilidade de agir e
viver. Deixarás
a tenda dos tristes, diminuindo a própria tristeza, deixarás os cegos,
louvando os próprios olhos, contemplarás o paralítico, sentindo a graça do
movimento, e despedir-te-ás dos enfermos e dos loucos, dos fracos e
infelizes, agradecendo ao Senhor a ventura de poder ajudar. Não
esperes, desse modo, pelo concurso dos outros para sustentar a fonte do bem. Concedeu-te
Jesus no Espiritismo que te abençoa a porta de trabalho e esperança para o
acesso à Vida Maior. Ora
e estuda, aprende e ensina a verdade, mas não olvides a leitura do amor no
livro das almas. Observa
as Leis da Vida, entendendo e ajudando os corações que te cercam, para que te
não emaranhes na sombra, ante o esplendor do Grande Caminho... E,
confiando-te à solidariedade como simples dever, perceberás, junto de cada
aflição, a presença do Cristo, o Divino Benfeitor, que resumiu o seu
Evangelho de Luz, no mandamento inesquecível: – “Amai-vos uns aos outros como
eu vos amei”. * * * (Mensagem recebida pelo médium Francisco Cândido Xavier, em sessão pública da noite de 23 de julho de 1956, no Centro Espírita “Humildade, Amor e Luz”, da cidade de Monte Carmelo, Minas Gerais.) |
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