Sangue Gélido - Yu Yu Hakusho

Você, quem esconde um falso amor no coração,
Irei enterrar-te esta noite
Uma memória distante
Adorna minha ira

Os olhos cinzas se voltam para a escuridão da noite pela janela do dormitório masculino da Sonserina. Draco passa a mão pelos os fios platinados, afastando-os da testa, ainda observando a noite. Era muito difícil dormir naquele estado, então ficava na janela, contemplando a lua. Era uma noite de lua nova, não viera fazer companhia a ele. Que pena. Os pensamentos voavam, embalados pelo vento gélido do inverno. Sempre os mesmos. Como gostaria que o sentimento que Potter guardava em seu coração agora não fosse tudo uma belíssima ilusão. Tinha raiva. Raiva por que não podia se comparar a ele. Não podia ao menos ser melhor em algo. Além da raiva, acima de tudo, um amor, obsessivo talvez, ainda assim amor. Mas isso somente fazia crescer a ira e o ressentimento.

Eu não acredito em nada
Esta é minha bíblia

"Por mais que ele fale "eu te amo" você não acredita, e sabe o porque. Isto te corrói cada vez mais. Acabando com suas veias, um veneno indo direto ao coração e o desmanchando. Ele não te ama. Ele não te deseja. Sentimentos de cristal."

Sangue é tão belo quando triste, gelado
Devia faze-lo transbordar e mandar para você
Em torrentes cruéis

"E você pensa em vingança? Ha! Como se conseguisse. Devia, mas não consegue. É demasiado fraco. Seu pai já lhe frisou isto muitas vezes, como qualquer defeito que você tem. Malditos sentimentos! Será que eles sempre lhe atrapalharão? É bom amar alguém, mas quando sofre por isso, o amor passa de prazer a culpa em um estalar de dedos. Você está nas nuvens, respirando ar puro, com a certeza de que será sempre feliz, querendo que os momentos se eternizem. Mas de repente tudo caí a um inferno, um pandemônio, a desgraça de saber que não pode ter o que lhe fez tão bem. Isto, meu querido, se chama vida."

Você, quem fala apaixonadamente de sonhos,
Sua vida eu devia tirar
Pela escuridão dos tempos
Em que o mundo estava estilhaçado

O olhar se volta para a mochila, onde repousa um livro, presente de seu pai. Sobre trevas, ganhara para ler e aprender talvez algo, já que não era bom em qualquer matéria. Não tão bom o suficiente. A menção da escuridão lhe fez lembrar. Potter. Riddle. Malfoy. Três nomes que não se devem misturar. Se seu pai ousasse desconfiar, estaria perdido. Sabia que ele não vacilaria em matá-lo. Deveria odiar em vez de ficar sonhando com o dia que os famosos olhos verdes se voltariam para si em um sorriso verdadeiro. Mas nem isso conseguia.

Eu não perdôo ninguém
Esta é minha resposta!

"Te amo e te odeio. Quero-te no céu e no inferno. Ao meu lado e distante. Ao mesmo tempo, tudo se torna uma poesia barroca, mas não falo sobre divindades e demônios. Falo sobre você, seu idiota, quatro-olhos desgraçados, que soube muito bem roubar meu coração. Malditos olhos verdes que conseguiram ultrapassar minha máscara. Não te perdoarei por isso. Não mesmo!"

Solidão, que nem esta, faz tremer o sangue abandonado
Eu não devia dizer a razão de gostar disso,
É meu coração

"Mas você sabe muito bem, ah sabe, Potter. Porque me afasto, por que uso isso. Você viu através de minha máscara de frieza e desdém. E fez pior, cortou-a, estilhaçou-a na sua frente, e me viu, desprotegido, como eu sou. Você não podia fazer isso! Não tem o direito de me deixar assim. Foi sem querer, mas você conseguiu, Potter. Parabéns, você tem os pedaços da minha barreira."

Eu não acredito em amor
É o meu destino

"Você não acredita nele. Você não confia, não quer acreditar em amor. Nunca sentiu isso, não é agora que vai ser ao contrário. Está escrito e nada pode ser mudado. Nascendo Malfoy, você tem duas opções: honrar a família e ter sentimentos. Infelizmente, escolheu a segunda."

Lágrimas quentes, se misturam e congelam com o sangue
Eu deveria te mostrar...
Este é o último momento

Os dedos pálidos deslizam facilmente pela face, ela está molhada. Eram lágrimas? Logo secam com o vento frio que sopra da janela e Draco volta seu rosto novamente para o céu lá fora. Fazia tempo que não chorava de verdade. Desde que aprendeu que não podia ter qualquer tipo de aquecimento em seu coração. Sentimentos eram para os fracos, assim dizia seu pai. E acreditava nisso até perceber que havia algo pesando no peito. Nada igual ao que já havia passado, nada igual ao que já havia experimentado. Mas notou tarde demais o que estava acontecendo. Tarde demais para impedir que isto se entranhasse até suas veias e ali ficasse. Draco se levantou e fechou a janela, deitando-se na cama e tendo os costumeiros pesadelos que o assolavam. Era assim a sua vida, não tinha como escapar.

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