1/4 da água perde-se nos canos
 
  CERCA de uma quarta parte da água canalizada em Portugal perde-se nas condutas, valor que oscila de concelho para concelho, consoante a qualidade das infra-estruturas existentes. Em Lisboa - onde os consumos médios por habitante aumentaram 64% desde 1977 -, os registos da EPAL apontam apenas para uma perda de 17%, «mas isso deve-se ao facto de existir um sistema de telegestão dos volumes dos reservatórios», um equipamento sofisticado que permite um melhor controlo, segundo explicou um porta-voz da EPAL. 

No Porto, no ano passado, a discrepância entre o volume de água distribuída e a facturada foi de 23%. Mas na generalidade dos concelhos as fugas nas condutas ascendem a 40% dos volumes captados. 
 

 
 
 
 
OS SERVIÇOS públicos estão no topo das reclamações dos consumidores portugueses. Esta conclusão retira-se das queixas feitas pelos consumidores à Associação Portuguesa para a Defesa do Consumidor (DECO) e das reclamações dirigidas ao Instituto do Consumidor e aos Centros de Informação Autárquicos ao Consumidor (CIAC), criados através de protocolos entre as câmaras municipais e o Instituto do Consumidor. 

Facturações excessivas, prestações defeituosas e contratos de seguros mal elaborados e não cumpridos figuram entre as principais queixas dirigidas à DECO. Entre os mais reclamados predomina o sector das telecomunicações, arrastando entidades como a Portugal Telecom, a TMN e a Telecel para os primeiros lugares da tabela. 

O papel dos CIAC

Em Palmela, um centro com apenas dois anos, os serviços públicos são os mais reclamados, principalmente os serviços da Câmara, seguidos da habitação com defeito e compra e venda de automóveis. De Janeiro a 27 de Outubro, o gabinete de informação de Palmela recebeu 96 processos, dos quais 64 foram pedidos de informação e apenas 32 eram reclamações. A taxa de execução de casos resolvidos é boa, já que dos 32 casos recebidos, 22 já estão concluídos por mediação. Sara David referiu que em Palmela o número de informações tem superado o das reclamações e a taxa de resolução das queixas é muito positiva. Por exemplo, em 1997 as 49 queixas entradas chegaram todas a bom termo. 
 
 
  Privados garantem serviços públicos
A privatização e concessão de determinados serviços públicos garantidos normalmente pelo Estado ao cidadão tem suscitado o debate a nível europeu. Discutir como deve ser feita a transição para a gestão privada é uma das questões levantadas
 
 
Concessões na água
MAFRA, Ourém, Fafe, o sistema regional do Carvoeiro, Batalha, Trancoso, Associação de Municípios Planalto Beirão e Setúbal são os oito casos de gestão privada das águas municipais. Com concurso público mas ainda à espera de resposta estão neste momento a Figueira da Foz e Santa Maria da Feira, refere Melo Franco, presidente da Associação de Empresas Portuguesas do sector do Ambiente (AEPS). 
Nos restantes municípios a distribuição é assegurada por empresas municipais. Apesar de a primeira concessão datar de 1994, a entidade reguladora criada para acompanhar a actividade dos privados na distribuição do serviço «não funciona», afirma Melo Franco. Segundo o presidente da AEPS, «a existência de uma entidade reguladora só tem vantagens, já que a sua actividade permitiria fazer uma fotografia da situação e analisar a existência de disparidades entre os diversos municípios especialmente no que diz respeito às tarifas praticadas»
Para substituir o Observatório da Água criado pelo Governo de Cavaco Silva, este Governo anunciou a criação de um Instituto Regulador de Águas e Resíduos, com mais capacidade de regulamentação, mas a verdade é que nada foi ainda aprovado. Sob a tutela do poder central está a EPAL, fornecedora de Lisboa e arredores, uma excepção que poderá estar na base de uma «conflitualidade» entre poder central e poder local, já que os preços da água são estabelecidos pelas autarquias. 
Ainda segundo Melo Franco, «as pessoas ainda não se aperceberam de que o preço da água é muito diferente de município para município» e apesar das promessas não há uma entidade que regule esta situação, denuncia. No quadro pode ver-se a participação das empresas privadas na distribuição e facturação desta actividade.
 
  Hábitos de desperdício com raízes
 
 
AS FUGAS por ruptura nas condutas da generalidade dos municípios portugueses podem ascender a mais de 40% dos volumes de água captados, afirma Silva Soares, presidente da Associação Portuguesa dos Distribuidores de Água. Não existem estudos sobre aquele valor à escala nacional, mas essa ordem de grandeza é reconhecida pela generalidade dos especialista na gestão dos recursos hídricos. 

No concelho do Porto, por exemplo, no ano passado, a discrepância entre o volume de água distribuída (32,85 milhões de metros cúbicos) e facturada foi de 23%. Ou seja, 7,6 milhões de metros cúbicos nunca chegaram ao seu destino. 

O estudo da Quercus revelou que para aquela situação muito contribui «um sistema de preços e de organização dos recibos da água completamente irracional», porque a definição dos custos por escalões de metros cúbicos (mil litros) - em vez de ser pelo consumo directo em litros - dificulta às pessoas a percepção dos seus gastos, não as incentivando a poupar. 

A má percepção do fenómeno atinge também as próprias autarquias. No caso de Lisboa, só o município consumiu, no ano passado, nove mil milhões de litros de água, grande parte dos quais na rega de espaços verdes e na lavagem de ruas. Não só esta situação representa um desperdício de água potável para um serviço menos «nobre» - tanto mais que existem já equipamentos de rega e de lavagem menos consumidores do que a mangueira - como tem um custo económico elevado, porque a autarquia paga por cada mil litros de água cerca de 118 escudos (0,59 euros).


 
 
  Ambiente enfrenta 12 queixas
da União Europeia
 
  No caso da directiva da água potável, a UE decidiu avançar com outro processo por Portugal nunca a ter transposto correctamente desde 1986, apesar dos constantes avisos de Bruxelas. A UE não gostou agora de saber que afinal nem todos os requisitos e normas de qualidade de água para consumo humano - que Portugal tinha garantido ter corrigido num diploma do ano passado - estavam de acordo com as exigências comunitárias. 

Fonte do Ministério do Ambiente assegurou ao EXPRESSO que «a questão já está resolvida após a correcção de erros de impressão no diploma legal» mas, se até agora a UE tinha sido paciente - nunca tendo levado as faltas nesta área para além do pré-contencioso -, o envio do processo para o Tribunal de Justiça é um sinal bem claro de que muita coisa terá de mudar num país onde cerca de 230 mil habitantes consomem água imprópria. 

Ainda no sector das águas, Portugal será multado, num valor ainda não determinado, por não ter cumprido duas exigências de 1996 do Tribunal de Justiça referentes às descargas de mercúrio e à qualidade das captações de água para consumo humano. Neste último caso, Lisboa deveria ter aplicado um plano para protecção de rios, águas subterrâneas e albufeiras - onde se capta água para consumo humano -, mas nem sequer o elaborou. 

 
  Pesticidas sem controlo
 
 

Mesmo após lavadas, as alfaces mantêm vestígios de pesticidas

Alfaces com valores 10 vezes acima da lei

Para agravar a situação, acresce que Portugal não tem um programa de monitorização de resíduos na água. No entanto, em análises pontuais à água para consumo humano foram detectados resíduos de paratião, uma substância proibida em Portugal, presente em produtos genericamente conhecidos por «605 forte». 

De um modo geral, não se conhece o destino que os agricultores dão às embalagens vazias ou com restos de pesticidas. 

JOSÉ FROTA
e MARIA LUIZA ROLIM
 
  O Bananismo

A água é um bem essencial e deve, como princípio, ser tendencialmente fornecida a todos os cidadãos ao mesmo preço. 

No imediato, impõe-se impedir por todos os meios a privatização dos serviços municipalizados de distribuição de água nos pressupostos actuais: a distribuição de água só deve passar para a mão dos privados, naturalmente orientados pela lógica do lucro, depois de o Estado investir o dinheiro necessário na rede de distribuição de água, de maneira a assegurar que não falte água a centenas de milhares de pessoas, e depois de o Estado garantir que a água que se bebe em Cascais, em Sintra e em Oeiras custará o mesmo que aquela que serve para regar os jardins em Lisboa. 

Que importa andar a tentar descobrir as «sete diferenças» entre o socialismo democrático e a social-democracia, quando injustiças tão concretas como esta não merecem um segundo no discurso dos políticos? 

Que importa discutir a simpatia dos políticos, antes de discutir a sua competência? 

Este é, obviamente, um problema do Estado e não só das autarquias. Mostrando-se as autarquias impotentes e estando os partidos políticos entretidos com outras coisas, só os cidadãos, intervindo, podem levar o Estado a resolver o problema. 

O bananismo é o maior inimigo do progresso e da justiça social em Portugal. Resignamo-nos com tudo, aceitamos tudo, é o deixa andar. Não pode ser. 

 

 
 

 

  A responsabilidade dos distribuidores de água

COM a publicação, no início dos anos 90, da lei de delimitação dos sectores, e com indicação de que a captação, o tratamento e a distribuição de água apenas se podiam efectuar por concessão ou por gestão directa, começamos a ver a iniciativa privada chegar a este sector da economia. Lentamente, é certo, mas de forma contínua, as empresas privadas começam a ter cada vez mais intervenção e interesse nesta área de negócio. 

Gostaria de abordar a responsabilidade que todas as entidades gestoras, públicas ou privadas, têm de assumir perante as características desta actividade. 

De facto, o objectivo de todas as actividades económicas é o lucro e para isso é necessário vender cada vez mais o bem que se produz. Quanto maior for a venda do produto maiores são os resultados da actividade, não se importando o industrial com a afectação que o público consumidor faz do mesmo. 

Sou da opinião que subjacente à indústria da água deverá estar também ligada uma política de defesa deste recurso, a qual terá forçosamente que passar pelo combate ao desperdício. 

Este comportamento, combate ao desperdício de água nos locais de consumo, deve ser assumido pela empresa responsável pela distribuição de água, de uma forma integrada, quer sensibilizando os consumidores actuais, para o uso adequado deste bem fundamental à vida, quer formando os futuros consumidores através de uma intervenção sistemática nas escolas, envolvendo as camadas jovens no descobrir da excelência deste produto. 

Este combate pelo uso racional da água é difícil e tem seguramente no preço a que este bem é comercializado um dos seus maiores obstáculos. De facto, uma política de preços baixos para a venda deste bem é incompatível com a procura do objectivo enunciado, a defesa do recurso, para já não falar na sua incompatibilidade com as exigências de controlos da sua qualidade e de elevados índices de prestação de serviços a que as entidades distribuidoras passarão, e bem, a estar obrigadas a cumprir. 

O consumidor ao pagar, por exemplo, 83$00 por 1000 litros de água, (preço inferior ao custo de um café), ou 445$00 por 5000 litros, pouco se importará se os mesmos foram derramados no quintal, despejados na sanita ou consumidos noutra qualquer utilização menos adequada. 

A outra vertente do combate ao desperdício, intervenção directa no modo como é consumida a água, deverá ser assumida pelo distribuidor independentemente da vontade do consumidor final. De facto, a entidade gestora da distribuição de água deve vestir a pele de guardião da adequada utilização desta. 

A entidade responsável pela distribuição de água deverá conhecer bem o seu leque de consumidores a fim de lhes proporcionar alternativas de consumo para os objectivos que estes prosseguem. Por exemplo, no combate a incêndios, na lavagem de ruas, na lavagem de contentores do lixo, na rega de jardins, na experimentação de redes de drenagem de águas, poderá utilizar-se água com características diferentes da utilizada para consumo humano. 

Para concluir diria que, no futuro, os distribuidores de água terão por imperativo de função de condicionar os potenciais ganhos que para eles resultariam de consumos indiscriminados de água, não só na defesa da qualidade de vida das populações mas também em prol da defesa do recurso e da manutenção do seu negócio.

 
  Maior consumo e esbanjamento
 
 
Águas revoltas
OS PROBLEMAS de abastecimento de água na Grande Lisboa têm vindo a alimentar uma guerra surda entre a EPAL e os municípios limítrofes de Lisboa. Embora os comunicados de imprensa justificando as carências de água sejam assinados em conjunto por esta empresa e os serviços municipalizados (SMAS) de Cascais, Loures, Oeiras, Amadora e Sintra, os intervenientes não conseguem esconder acusações mútuas neste processo.
Segundo Margarida Ruas dos Santos, relações públicas da EPAL, «apesar das limitações na adução de caudais aos municípios limítrofes - só solucionados em 2001 com a CREL da água -, o principal problema reside na pouca capacidade de armazenamento dos reservatórios a jusante. Têm de ser os municípios a fazer a gestão das flutuações horárias através dos seus reservatórios», salienta aquela responsável. 
Renato Leitão, presidente do SMAS de Sintra, contesta os argumentos da EPAL: «A empresa conhece desde há cinco anos as nossas necessidades até ao ano 2011, e para este ano precisávamos de 150 milhões de litros diários que não estão a ser fornecidos. Os nossos reservatórios são suficientes; o caudal que nos chega da EPAL é que é insuficiente», sintetiza Renato Leitão.
O presidente do SMAS de Sintra admite, todavia, que, mesmo que a «CREL da água» já estivesse em funcionamento, haveria algumas zonas do concelho com problemas de abastecimento, nomeadamente as de Terrugem, Massamá-Norte e Mercês, devido às limitações físicas das condutas dos serviços municipalizados. De qualquer modo, numa coisa estão todos de acordo: pelo menos neste e no próximo verão continuará a faltar água em algumas zonas da Grande Lisboa.
P.A.V.
Impostos e taxas municipais

Autor: Jornal de Notícias 
Data: 28-07-2000

As taxas e os impostos municipais representam uma boa parte das despesas que subtraímos aos nossos rendimentos. "Dinheiro e Direitos", publicação consumerista vocacionada para a protecção dos interesses económicos e jurídicos do consumidor, procedeu a um estudo baseado em elementos fornecidos por um conjunto de municípios para ajudar os consumidores a descodificar os seus recibos. 

Por exemplo, para alguns municípios, a taxa de esgotos é calculada com base no valor patrimonial da habitação e cobrada no final do ano. No entanto, outros municípios há que incluem tudo e mais alguma coisa na factura mensal ou bimensal da água. Pior ainda é o caso da EPAL, em Lisboa, que chega a cobrar uma taxa adicional e uma taxa de fiança que não aparece em mais lado nenhum.

"Dinheiro e Direitos" recomenda algumas medidas para evitar que nos sejam cobradas taxas sobre serviços não usufruídos: verificar se paga taxa de esgotos quando, na realidade, possui uma fossa; ver se é cobrada tarifa de recolha de lixos, pois há casos em que se propõe o pagamento dessa mesma taxa e não existe tal serviço na localidade em causa.


 
 
 
 
 
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