Roteiro de aula
teórica da Profª Lúcia Previato em
13/05/2002
Universidade Federal do Rio de Janeiro
Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho
Alguns fungos não são patogênicos em pessoas humanas saudáveis, mas podem ser virulentos para indivíduos que sofrem de alguma doença como por exemplo: linfomas malignos, diabetes severa, AIDS ou para indivíduos que vêm sendo tratados com drogas antibacterianas ou com imunossupressores .
As espécies mais comuns de fungos oportunistas, pertencem aos gêneros: Candida, Aspergillus, Rhizopus, e Mucor.
Em alguns experimentos, podemos observar claramente a baixa de resistência de camundongos. Por exemplo: camundongos tratados com cortisona, são usualmente susceptíveis à infecção letal com Candida albicans.
Além desses, entre os fungos
patogênicos que serão discutidos posteriormente, como: Cryptococcus neoformans, Histoplasma capsulatum,
Blastomyces dermatitidis, e possivelmente, mesmo Coccidioides immitis, também podem ser considerados oportunistas,
causando infecções progressivas mais frequentemente
sob condições debilitantes do indivíduo.
C. albicans é dimórfico. Na superfície de um meio rico em agar, ela cresce como células de levedura com brotamento, porém, mais profundamente, no meio, são encontradas as hifas. Ambos formas são observadas no tecido infectado e em muitas culturas. Algumas hifas, são chamadas pseudohifas.
C. albicans cresce facilmente em meio convencional à temperatura ambiente ou a 37 oC.
Em meio de cultura com agar, as culturas novas são lisas, cremosas como as colônias de bactérias, mas, as mais velhas apresentam o formato rugoso.
O cultivo em meio contendo agar-milho (cornmeal) estimula a formação de clamidosporos, contendo uma espessa parede o que distingue a C. albicans de outras candidas.
Baseando-se na morfologia da colônia, utilização de açúcares e reações sorológicas, várias espécies de Candida têm sido isoladas de lesões, incluindo C. krusei, C. parakrusei e C. parapsilosis.
Patogênesis. Espécies de Candida estão frequentemente presentes nas membranas de mucosas normais da boca, vagina e trato intestinal. Quando elas tornam-se invasivas (nas condições especiais mencionadas acima) elas estabelecem uma variedade de lesões agudas ou crônicas, localizadas ou amplamente disseminadas.
Exemplos de infecções causadas por Candida:
Elas ocorrem, particularmente, durante os primeiros dias de vida (resultante da infecção obtida durante o nascimento), ou em pessoas no estado terminal de certas doenças como câncer ou AIDS.
Endocardite causada por Candida é ocasionalmente vista em usuários de drogas e em pacientes com tubos intravasculares ou próteses cardíacas. Os organismos mais comuns são C. albicans e C. parapsilosis.
Alguns indivíduos com candidíase desenvolvem lesões vesiculares estéreis ou lesões papulares na pele, chamadas monilidas (devido ao fato do gênero Candida ter sido inicialmente chamado de Monilia e a candidíase chamada de monilíase). Essas lesões, provavelmente alérgicas, assemelham-se a dermatófitos observados nas infecções dermatófitas.
O soro de 15 a 30 % de humanos normais aglutina especificamente células de espécies de Candida, mostrando que esses organismos são comumente encontrados nas membranas das mucosas normais. Embora os títulos de aglutinação tendem a aumentar nas candidíases comuns, testes sorológicos são de pouco valor diagnóstico.
Similarmente, testes cutâneos com extratos aquosos de C. albicans (oidiomicina) são positivos na maioria das pessoas normais.
Um diagnóstico usado para uma provável candidíase é usualmente por demonstração microscópica de hifas abundantes e células de levedura, em um pedaço da lesão, sendo o diagnóstico confirmado pelo isolamento do organismo em culturas. Entretanto, Candida é tão comum, que freqüentemente é difícil decidir se ela é o agente causador.
A resposta à terapia, ajuda na decisão.
Antibióticos polienos são efetivos: nistatina é geralmente aplicado topicamente na lesão e, anfotericina B é administrada no tratamento de infecções vicerais severas
(antibióticos polienos são fungicidas em altas concentrações em culturas de fungos. Eles são efetivos em alta concentração em muitas micoses sistêmicas, mas não em micoses superficiais e cutâneas. O mais usado é a anfotericina B, que deve ser administrado por semanas e freqüentemente tem efeito tóxico).
Bactérias não são susceptíveis a polienos, por que não apresentam esteróis na membrana celular. Membrana das hemácias contem esteróis e os polienos causam hemólise in vitro e ocasionalmente anemia hemolítica).
Cetoconazol é também usado efetivamente, em candidíases mucocutaneas crônicas (uma doença associada com um defeito na célula T), a lesão retorna quando a terapia e suspensa.
(Cetoconazol. Derivados imidazois são quimioterápicos ativos contra dermatófitos, fungos dimórficos, leveduras, parasitas. Eles inibem a síntese de ergosterol em fungos interferindo no citocromo P450 dependente do sistema lanosterol demetilase. Em altas concentrações essas drogas também inibem a síntese de ácido graxo. Miconazol e clotrimazol são usados como agentes tópicos no tratamento de infecções por dermatófitos. Cetoconazol, itraconazol e fluconazol são também efetivos oralmente contra paracoccidioidemicose e histoplasmose. Esses derivados apresentam o anel imidazolsubstituído por um anel análogo –1,2,4-triazol, e apresenta similar mecanismos de ação.
Cryptococcus neoformans
Fungos do gênero Cryptococcus se apresentam como células esféricas, parecendo verdadeiras leveduras. Porém, quando 2 isolados compatíveis se cruzam em um meio apropriado para esporulação, as células se conjugam e desenvolvem estruturas que podem ser identificadas como basidiomicetos. Sendo colocado no gênero Filobasidiella.
Em cultura, as células de levedura formam brotamentos que se separam da célula de origem de maneira precoce, assim, uma suspensão de Cryptococcus freqüentemente exibe variações no tamanho celular indo de 4 a 20 milimicra (um).
Todas as amostras produzem cápsula, mais espessas do que a própria célula. Mais ou menos 12 espécies têm sido caracterizadas basendo-se nas características antigênicas e morfológicas.
C. neoformans é facilmente separada de amostras não patogênicas por sua virulência em camundongos.
A cápsula de C. neoformans é facilmente observada resuspendendo as células em tinta nanquim (coloração negativa).
A cápsula é formada por um polissacarídeo contendo xilose, manose, ácido glucurônico. Embora, C. neoformans produza uma fraca resposta imune em hospedeiros infectados, coelhos superimunizados produzem antisoro cápsula-específico, diferenciados em 4 amostras A, B, C e D.
Patogênese. A doença causada por C. neoformans é chamada criptococose. A infecção provavelmente se inicia pela inalação de células de levedura, iniciando uma infecção pulmonar, com subseqüente disseminação para outras vísceras e para o sistema nervoso central, especialmente em indivíduos imunossuprimidos. Parece que infecções silenciosas do pulmão são comuns e que uma pequena proporção torna-se disseminada.
Na forma da doença crônica e disseminada, o cérebro, pulmões, outras vísceras, pele e ossos podem estar envolvidos.
As lesões podem levar a meningite, abcessos no cérebro, ou tumor no cérebro. Lesões pulmonares são usualmente inaparentes clinicamente, mas são quase sempre encontradas na autópsia.
O microrganismo aparece nos tecidos como massas de células de levedura encapsuladas. As células de levedura podem ser observadas dentro dos macrófagos.
Diagnóstico. O diagnóstico é usualmente feito, ou observando o C. neoformans no liquor (fluido espinhal) (a técnica da coloração negativa é particularmente útil); ou pela cultura do liquor, pus ou outros exudados
O antígeno capsular pode ser identificado no líquor, soro, ou urina, por reação de precipitação com soro hiperimune de coelho. Controles negativos devem ser utilizados.
Terapia. Criptococcose, envolvendo o sistema nervoso central, com ou sem lesões vicerais disseminadas, são, a princípio, invariavelmente fatais, mas anfotericina B (sozinha ou em combinação com 5-fluorcitosina (flucytosina),
(O composto sintético flucitosina é efetivo, tomado oralmente, no tratamento de candidíase, criptococose, e cromomicose. Fungos sensíveis a esse composto (mas não o homem) desamina a flucitosina, produzindo fluoruracil, que é incorporado no RNA.
Os fungos desenvolvem rapidamente resistência à flucitosina, mas a combinação desse quimioterápico com anfotericina B parece ser melhor do que a administração apenas da anfotericina).
tem curado a infecção, mesmo quando o início do tratamento foi em pessoas extremamente doentes.
Epidemiologia. Criptococose ocorre esporadicamente no mundo inteiro. O microrganismo tem sido isolado do solo, particularmente de solo contendo excrementos de pombo.
Pequenos surtos de infecções pulmonares têm ocorrido entre pessoas trabalhando na demolição de casas antigas.
Pelo fato dos fungos permanecerem viáveis em ambiente seco, por muitos meses, materiais contaminados são potentes fontes de infecção por via pulmonar (vias aéreas). Excrementos de pombo apresentam freqüentemente um alto grau de contaminação: 5 X 107 organismos viáveis por grama. Os criptococos encontrados nesses ambientes, não são derivados de infecções intestinais do pombo, mas correspondem à contaminação do meio ambiente, e encontram um meio particularmente fértil nos excretas de pombo.
Assim, C. neoformans é incapaz de crescer na temperatura normal do corpo de aves (40 – 42 oC), e aves, são altamente resistentes à infecção por criptococos.