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O mundo de todo mundo
Não é o meu: Sou livre.
Há um, na essência de mim
Nele crio, crio e recrio.
Monto e desmonto
Só cores - me iludo e sonho colorido
arranjo e desarranjo
e tudo se encaixa no mundo criado -
as minhas flores
os meus amores
as minhas dores
Infinito - todo paraíso
inteirinho inferno
Luz e sombra
Chuva e arco - íris
Passarinhos.
Vilania e caridade
Liberdade com grades
Saudade. Presença. Esperança.
Este mundo engendrado chama-se Saro
(é o meu par contrário)
é um monte onde tenho tudo
castelos
poesias
passado
futuro
presente
Aqui sou etérea, esvoaçante
cavaleira, dançarina
aeromoça, astronauta
pipoqueira, prostituta
freira e flor
neve e som - suicida assassina
transparente, translúcida
Vadia. Vazia. Mística. Superior.
E com Saro converso.
Saro anagrama
Parece do sexo masculino
Mas não há sexo - é só meio de comparação
sexo é neutro - não há homem, não há mulher
meras coincidências, presas de corações reais
consciências gêmeas - gente nada mais.
Saro é o mundo adotado
É o bem supremo: é meu pai
minha mãe
meus filhos
meus vizinhos
estranhos, reis, rainhas,
chanceleres, balconistas,
esmoleiros, padres, gurus,
camelôs e gigolôs
liberdade libertada
liberada...
Numa conversa solene, telepática
Onde todo argumento tem frente
fundo
altura
espessura
Saro, a eternidade.
Tudo e nada.
Difícil. Simplicidade suprema.
Som de luzes. Espaço no espaço.
Busca. Encontro.
Qualquer coisa - estertor fôlego
ponto de partida
reta de chegada
meio, causa, conseqüência, fim
Saro sou eu. Só Saro? ou só eu?
Eu sou rosa, Saro ao contrário
Porque sou e não sou.
Rosa é piada séria.
Saro é enviesado, projeção teatral,
Científico, aparado, torneado
E somos o que somos porque somos livres
E nos amamos - amor cósmico
Safado em espelho liso
Em espelho frio que transmuta Rosa em Saro
No encanto que extrapola
E supera o que é mais terno
O que ninguém jamais sonhou.
E juntos velejamos borboletas
Levitamos sorrindo cavalgando estrelas.
Flutuando nos rios
Cantando santas cirandas
Canções - preces que se compõem
Na linha da rosa
Prece, olhar, melodia
Música que leva às vinhas da ira
Às estações da agonia
Aos campos do medo
Ao frio que paralisa
À insônia que me abraça
Na busca do sono.
Sinto violinos noturnos. Sinto.
Escorrem suaves notas na canção mais ternurosa
Que me lembra que sou Rosa
Que posso rir e chorar
Que sou forte
Que sou rica
Que sou muito poderosa
Muito mais até que morte
Que sou vida, que há violinos na noite.
Que Lebel ouve comigo ajoelhado aos meus pés
Porque quero, porque preciso ser cara
Aqui basta querer o que quero.
Lebel chega bem leve trazendo um lindo manto de seda
Todo bordado de ouro.
Os violinos se calam.
Desligo a lua.
Dispenso estrelas.
Apago rastros e estradas
Eu, Lebel e o nada
O cosmo apaga as marcas do tempo
Tudo inerte e tudo meu
Saro sou eu
Eu sou Rosa
Lebel é cenário. Imaginário
Sou sozinha como nasci: livre.
Vim do espaço, meu berço é a Via - Láctea
Dança e canto e rio enquanto dura a travessia
Todos os Lebéis vão cantar comigo
Qualquer canção que eu cante
Sob a lua de meus lábios
Sob os mares de meus olhos
Sem barreiras, sem fronteiras, sem limites
Em orgia de risos, de prazeres solenes
No mundo que é só meu
Todo enfeitado de nada
Tão repleto de ninguém.
Tudo. Nada. Nada. Tudo.
Rosa. Saro. Rosa. Saro.
Sarosa... Libérrima...
Alba
Rosalina

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