|
Quisera eu ser ventania, Alçar vôo nas alturas, Atingir com alegria Brancas nuvens, sem agruras, E vencer a imensidão.
Quisera eu ser um bólido, Fulgurante e ruidoso, Rasante, fugaz e sólido, Cortando os céus, majestoso, Vindo a cravar-me pelo chão.
Quisera eu ser um relâmpago, Um raio, um lampejo de luz, Me desprender desde o âmago, Tamanha é a força que se produz, Chego a soar como um trovão.
Quisera eu ser um rio, Curvilíneo, amplo, caudaloso, Caminhando, vencendo o desafio, Chegando ao oceano, vitorioso, E ser agora mar, não mais ribeirão.
Quisera eu ser a chuva, Que cai no seio da terra, temporã, Vivificando o arroz, o trigo, a uva, Molhando a relva, confirmando o amanhã, Chuva suave, que é divina benção.
Mas não sou.
Sou apenas um rochedo, Desgastado pela ventania, Sinto o bólido como um torpedo, Me pondo aos pedaços de agonia, Eu, que sou uma pedra no chão.
Sou apenas um pedregulho, O estrondo do trovão me atinge, Cedo ante tremendo barulho, Tamanho desconcerto me aflige, Me vejo em pedaços, já de antemão.
Sou sólido, sou rocha bruta, Mas vou cedendo ao desafio, Pois a cada nova fissura, Vai vencendo a persistência do rio, Que me mata lentamente pela erosão.
Sou rochedo... Desgastado pelo vento Sou pedra... Britada pelo bólido Sou areia... Espalhada pelo trovão Sou pó... Levado pela chuva ao rio sou... sou... sou... ... .. .
José Carlos Justino dos Santos (31/07/2002)
|