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Aspectos SOBRE A Aquisição da Linguagem – Uma Básica Introdução

Danielson Warpechowski[1]

O presente texto não tem a pretensão de discorrer profundamente sobre a complexidade dos processos de aquisição da linguagem. Tal tarefa dependeria de um estudo muito mais longo e criterioso. Sendo assim, este texto apresenta, tão somente, alguns conceitos elementares sobre o assunto, a partir de breve revisão bibliográfica, confrontados com a experiência profissional deste autor no tratamento psicoterápico de crianças, bem como também do contato com sujeitos surdos e de recentes trabalhos comparativos realizados sobre aquisição de uma segunda língua na infância.

Outra influência para tal texto são perguntas e comentário de pessoas que assistiram algumas palestras ou programas de rádio[2] em que participei nos últimos dois anos, e outras pessoas que me enviaram dúvidas e comentários por e-mail sobre os textos que escrevi sobre a surdez[3]. Amplio, assim, tais conceitos a aquisição de todo tipo de língua: seja a materna, a primeira língua, ou as línguas estrangeiras.

1ª Parte: Aspectos Neuropsicológicos

A importância de se tratar da aquisição lingüística encontra-se, entre muitos aspectos, do fato que é a capacidade comunicativa uma função básica para o convívio social, e um dos fatores de diferenciação entre o Ser Humano e outros animais. Embora exista comunicação entre os animais, apenas o Homem é capaz de constituir a linguagem de forma organizada e universalizada em forma de Língua, utilizando-a assim como instrumento para o exercício da inteligência.

Está claro que o pensamento e a linguagem possui origens biológicas separadas; que examinamos, mapeamos o mundo e reagimos a ele antes de aprender uma língua; e que existe uma enorme esfera de pensamento – nos animais ou nos bebês – muito antes da emergência da língua (...) Um ser humano não é desprovido de mente ou mentalmente deficiente sem uma língua, porém está gravemente restrito no alcance de seus pensamentos, confinado, de fato, a um mundo imediato, pequeno. SACKS (1998, p52)

Machado(1988) e Sacks(1998) concordam que, do ponto de vista neurológica, a aquisição da linguagem é muito mais complexa do que a formação de metacircuitos específicos no hemisfério cortical esquerdo, mais especificamente nas áreas associativas de Brocca e Wernik. Tais autores afirmam, embasados por pesquisas de suas épocas em corroboração das pesquisas atuais, que ambos os hemisférios atuam para a aquisição da linguagem, cada qual de forma específica. Atribui-se ao hemisfério direito a tarefa de lidar com o conhecimento novo e de articula-lo, repassando assim para o hemisfério esquerdo, que tratará de efetiva-lo permanentemente.

Entendo tal proposição, e costumo explica-la, da seguinte forma:

 

No entanto, existe uma espécie de prazo biológico para que determinadas tarefas sejam executadas com eficiência. Chamados de “janelas”, esse prazo tem a ver com o desenvolvimento maturacional do sistema nervoso. Antes acreditava-se que, fechado determinada janela, o sujeito já não mais poderia desenvolver determinada habilidade. Hoje se sabe que o cérebro é bem mais plástico do que se acreditava outrora e que, embora a janela tenha se fechado, é possível desenvolver novas habilidades. O que ocorre é que, após o período maturacional ter se fechado, tal aprendizado se dá forma menos eficaz: mais difícil, menos consistente e cheio de lacunas. Assim se dá com a aquisição da linguagem.

Isso vem de conformidade com o estudo de afasias. Lesionado o cérebro, a recuperação da função perdida é muito mais demorada e deficitária em adultos do que em crianças. Creio que à medida que o sistema nervoso  envelhece, vá perdendo um pouco de sua plasticidade. Mas não completamente, caso contrário seria impossível a recuperação de pessoas com acidente vascular cerebral, conhecido como “derrames”, e outros traumatismos no cérebro. Lembremos, por exemplo, no avanço na recuperação do comentarista esportivo Osmar Santos, e do ator Flávio Silvino, ambos com danos cerebrais mas que, gradativamente, vêm recuperando parte das funções perdidas.

Aqui cabe uma observação: os neurônios, células do sistema nervoso, não se reproduzem nem se regeneram. Ou seja, nascemos com a cota máxima de neurônios, que vamos perdendo a medida que envelhecemos. O que se chama de “plasticidade” é a capacidade de partes dos neurônios ainda vivos lançarem novas conexões e reconstruírem parte da estrutura perdida, ainda que não tão eficientemente quanto à original.

Newport e Supalla, citados por Sacks(1998), observa que a aquisição de uma língua após os cinco anos de idade não é tão eficaz quanto ao aprendizado precoce. Não que a aquisição da linguagem não seja possível e operacionalizável, mas perde alguns aspectos sutis que não serão assimilados jamais.

Tenho observado tal conceito em diversos momentos. Em relação à LIBRAS[4], por exemplo, é bastante notável que crianças filhas de surdos (sejam elas surdas ou não) compreendem sinais muito bem, às vezes melhores que os próprios pais. Hoje, entendo que tal fato decorra da precocidade com que esses sujeitos são expostos à essa língua.

Também em relação a idiomas falados, conheci uma menina de nove anos que, embora não falasse espanhol, apenas português, cantava excepcionalmente bem em espanhol, não apenas com precisão de pronúncia, mas com sotaque e trejeitos vocais explicitamente hispano-americanos. Tal menina, explica-se, passara os primeiros anos de sua vida no Uruguai e, mesmo no desuso do espanhol do dia-a-dia, havia fixado em seus metacircuitos o mais difícil de se aprender: a linguagem afetiva do espanhol uruguaio, e – como minha professora de língua estrangeira do Ensino Fundamental dizia na década de 80 – a pensar e a sentir em língua estrangeira.

 “Biologicamente, o sotaque é a parte mais primitiva da linguagem humana, pois constitui resquícios dos traços identificatórios de grupo para efeitos de liderança e acasalamento, que podemos encontrar nos animais inferiores. Na espécie humana, o indivíduo que ingressa na puberdade prepara-se biologicamente para a fase de comando social e reprodução. Portanto, o organismo, adaptando-se a essa fase, perde um pouco da plasticidade do aparelho fonador característica da infância. Os órgãos fonadores da criança até os cinco anos permitem-lhe adquirir com perfeição todos os fonemas de qualquer língua.” RICHTER (2000, p100)

Posso supor que quando as crianças acima descritas, já adultas, forem estudar formalmente sua segunda língua (LIBRAS ou Espanhol), com certeza terão muito mais facilidade de aprendizado que seus pais, ou outro adulto que não tenha se exposto precocemente à língua estrangeira. Tanto a Neuropsicologia quanto a Psicanálise têm explicações para corroborar com minha suposição.

Da Neuropsicologia trazemos o conceito de metacircuito, o qual explica que a estimulação constante de dadas regiões cerebrais constrói vias neuronais dentro do cérebro. Qual um córrego constantemente irrigado até tornar-se um rio, tais vias se fortalecem e se fixam, facilitando a recepção de novos estímulos, retroalimentando o processo.

Quando tal estimulação se dá dentro do prazo de uma janela neurológica, e se for em intensidade e persistência suficiente, tal metacircuito manter-se-á potencialmente aberto para sempre, mesmo na ausência de estímulos. É como um rio que, mesmo já quase seco devido à estiagem, mantêm o sulco de seu leito na paisagem, apenas esperando por uma chuva que o preencha. Do contrário, se a estimulação não for suficiente, ou for muito tardia, o “sulco”, ou melhor, o metacircuito necessitará constantemente de estímulo para se manter ou, simplesmente, desaparecerá.

Me parece – apenas uma suposição minha - que o lado direito do cérebro se especializou em criar metacircuitos temporários, enquanto o esquerdo em fixar metacircuitos mais permanentes. No entanto – e isso não apenas suposição minha – essa especialização se dá ao longo do processo maturacional, não sendo desde início tão rígido. Isso explicaria porque é mais difícil a um adulto aprender algo novo do que uma criança: o cérebro hemisfericamente mais especializado exige uma espécie de protocolo de aprendizagem mais rígido do que o não tão especializado.

Apesar disso, seja em que idade for, o aprendizado de coisas novas é de suma importância. Isso porque o desenvolvimento de novos metacircuitos (primários) também proporciona o desenvolvimento de conexões paralelas para o desenvolvimento de outras novas funções, ou no aprimoramento de funções antigas. Vejamos a analogia:

Deseja-se construir uma estrada que ligue os municípios de Cruz Alta e Santa Rosa. No entanto, ao fazer-se isso, facilita-se o acesso a todos os municípios do caminho e de outros da proximidade, nem previstos no projeto. Da estrada principal (metacircuito primário) surgem diversas outras ramificações para outras localidades (metacircuitos secundários).

Pensei nesta analogia - além de lembrar das brilhantes aulas dde Neuropsicologia do Dr. Djalma[5] - quando observei em um estudo[6] recente que fiz que crianças expostas precocemente ao ensino de Inglês tiveram melhor desempenho no teste de Fluência Verbal, que é em Português, do que crianças da mesma idade sem acesso a língua estrangeira.

Observei tal influência também com o convívio com sujeitos surdos: os limitados à gestualidade apresentam muito mais dificuldades cognitivas e sócio-afetivas dos surdos fluentes em LIBRAS; e estes, adotando com segurança a LIBRAS por primeira língua, melhoram ainda mais sua performance depois de aprenderem o Português escrito, ainda que este último jamais seja tão eficiente quanto o aprendido precocemente pelo ouvinte. Tal conceito também está em conformidade com os autores visitados.

A compreensão dos aspectos neuropsicológicos da aquisição da linguagem auxiliam na compreensão do próprio sujeito, seja na clínica, na escola ou no lar, ou ainda nos cursos de língua estrangeira. É importante realçar que, ainda que haja no Sistema Nervoso Central uma plasticidade não sonhada há poucas décadas atrás, ainda assim existe momentos no desenvolvimento neurológico mais e menos propícios para a aquisição de uma língua. É necessário que clínicos, educadores, pais e outras pessoas compreendam os limites para, a partir dessa compreensão, saber como proceder e expandir as capacidades dentro de tais limitações.

 

EM BREVE:

Parte II – Aspectos Psico-sócio-afetivos

Ver Referências Bibliográficas

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[1] Psicólogo (CRP 07/10.409), Cruz Alta – RS.

[2] Programa Saúde Mental no Ar, transmitido pela emissora Aliança Comunitária, de Guarani das Missões (RS), entre março e maio de 2003.

[3] Publicados pelos jornais santo-angelenses (RS): A Tribuna Regional, O Mensageiro e Jornal das Missões, entre 1994 e 2002,  à disposição na internet através do endereço http://www.clinus.cjb.net

[4] Língua Brasileira de Sinais. Idioma oficial dos surdos e mudos brasileiros, articulada por sinais e gestos sintáxica e gramaticalmente padronizados.

[5] Curso de Psicologia da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI, Campus de Santo Ângelo (RS), entre 1995 e 1996.

[6] Ainda não publicado.

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