O presente texto não
tem a pretensão de discorrer profundamente sobre a complexidade dos processos
de aquisição da linguagem. Tal tarefa dependeria de um estudo muito mais longo
e criterioso. Sendo assim, este texto apresenta, tão somente, alguns conceitos
elementares sobre o assunto, a partir de breve revisão bibliográfica,
confrontados com a experiência profissional deste autor no tratamento
psicoterápico de crianças, bem como também do contato com sujeitos surdos e de
recentes trabalhos comparativos realizados sobre aquisição de uma segunda
língua na infância.
Outra influência para
tal texto são perguntas e comentário de pessoas que assistiram algumas
palestras ou programas de rádio[2]
em que participei nos últimos dois anos, e outras pessoas que me enviaram
dúvidas e comentários por e-mail sobre os textos que escrevi sobre a surdez[3].
Amplio, assim, tais conceitos a aquisição de todo tipo de língua: seja a
materna, a primeira língua, ou as línguas estrangeiras.
A importância de se
tratar da aquisição lingüística encontra-se, entre muitos aspectos, do fato que
é a capacidade comunicativa uma função básica para o convívio social, e um dos fatores
de diferenciação entre o Ser Humano e outros animais. Embora exista comunicação
entre os animais, apenas o Homem é capaz de constituir a linguagem de forma
organizada e universalizada em forma de Língua, utilizando-a assim como
instrumento para o exercício da inteligência.
Está claro que o pensamento e a linguagem possui origens biológicas separadas; que examinamos, mapeamos o mundo e reagimos a ele antes de aprender uma língua; e que existe uma enorme esfera de pensamento – nos animais ou nos bebês – muito antes da emergência da língua (...) Um ser humano não é desprovido de mente ou mentalmente deficiente sem uma língua, porém está gravemente restrito no alcance de seus pensamentos, confinado, de fato, a um mundo imediato, pequeno. SACKS (1998, p52)
Machado(1988) e
Sacks(1998) concordam que, do ponto de vista neurológica, a aquisição da
linguagem é muito mais complexa do que a formação de metacircuitos específicos
no hemisfério cortical esquerdo, mais especificamente nas áreas associativas de
Brocca e Wernik. Tais autores afirmam, embasados por pesquisas de suas épocas
em corroboração das pesquisas atuais, que ambos os hemisférios atuam para a
aquisição da linguagem, cada qual de forma específica. Atribui-se ao hemisfério
direito a tarefa de lidar com o conhecimento novo e de articula-lo, repassando
assim para o hemisfério esquerdo, que tratará de efetiva-lo permanentemente.
Entendo tal
proposição, e costumo explica-la, da seguinte forma:

No entanto, existe uma
espécie de prazo biológico para que determinadas tarefas sejam executadas com eficiência.
Chamados de “janelas”, esse prazo tem a ver com o desenvolvimento maturacional
do sistema nervoso. Antes acreditava-se que, fechado determinada janela, o
sujeito já não mais poderia desenvolver determinada habilidade. Hoje se sabe
que o cérebro é bem mais plástico do que se acreditava outrora e que, embora a
janela tenha se fechado, é possível desenvolver novas habilidades. O que ocorre
é que, após o período maturacional ter se fechado, tal aprendizado se dá forma
menos eficaz: mais difícil, menos consistente e cheio de lacunas. Assim se dá
com a aquisição da linguagem.
Isso vem de
conformidade com o estudo de afasias. Lesionado o cérebro, a recuperação da
função perdida é muito mais demorada e deficitária em adultos do que em
crianças. Creio que à medida que o sistema nervoso envelhece, vá perdendo um pouco de sua plasticidade. Mas não
completamente, caso contrário seria impossível a recuperação de pessoas com
acidente vascular cerebral, conhecido como “derrames”, e outros traumatismos no
cérebro. Lembremos, por exemplo, no avanço na recuperação do comentarista
esportivo Osmar Santos, e do ator Flávio Silvino, ambos com danos cerebrais mas
que, gradativamente, vêm recuperando parte das funções perdidas.
Aqui cabe uma
observação: os neurônios, células do sistema nervoso, não se reproduzem nem se
regeneram. Ou seja, nascemos com a cota máxima de neurônios, que vamos perdendo
a medida que envelhecemos. O que se chama de “plasticidade” é a capacidade de
partes dos neurônios ainda vivos lançarem novas conexões e reconstruírem parte
da estrutura perdida, ainda que não tão eficientemente quanto à original.
Newport e Supalla,
citados por Sacks(1998), observa que a aquisição de uma língua após os cinco
anos de idade não é tão eficaz quanto ao aprendizado precoce. Não que a
aquisição da linguagem não seja possível e operacionalizável, mas perde alguns
aspectos sutis que não serão assimilados jamais.
Tenho observado tal
conceito em diversos momentos. Em relação à LIBRAS[4],
por exemplo, é bastante notável que crianças filhas de surdos (sejam elas
surdas ou não) compreendem sinais muito bem, às vezes melhores que os próprios
pais. Hoje, entendo que tal fato decorra da precocidade com que esses sujeitos
são expostos à essa língua.
Também em relação a
idiomas falados, conheci uma menina de nove anos que, embora não falasse
espanhol, apenas português, cantava excepcionalmente bem em espanhol, não
apenas com precisão de pronúncia, mas com sotaque e trejeitos vocais
explicitamente hispano-americanos. Tal menina, explica-se, passara os primeiros
anos de sua vida no Uruguai e, mesmo no desuso do espanhol do dia-a-dia, havia
fixado em seus metacircuitos o mais difícil de se aprender: a linguagem afetiva
do espanhol uruguaio, e – como minha professora de língua estrangeira do Ensino
Fundamental dizia na década de 80 – a pensar e a sentir em língua estrangeira.
“Biologicamente, o sotaque é a parte mais primitiva da linguagem humana, pois constitui resquícios dos traços identificatórios de grupo para efeitos de liderança e acasalamento, que podemos encontrar nos animais inferiores. Na espécie humana, o indivíduo que ingressa na puberdade prepara-se biologicamente para a fase de comando social e reprodução. Portanto, o organismo, adaptando-se a essa fase, perde um pouco da plasticidade do aparelho fonador característica da infância. Os órgãos fonadores da criança até os cinco anos permitem-lhe adquirir com perfeição todos os fonemas de qualquer língua.” RICHTER (2000, p100)
Posso supor que quando
as crianças acima descritas, já adultas, forem estudar formalmente sua segunda
língua (LIBRAS ou Espanhol), com certeza terão muito mais facilidade de
aprendizado que seus pais, ou outro adulto que não tenha se exposto
precocemente à língua estrangeira. Tanto a Neuropsicologia quanto a Psicanálise
têm explicações para corroborar com minha suposição.
Da Neuropsicologia
trazemos o conceito de metacircuito, o qual explica que a estimulação constante
de dadas regiões cerebrais constrói vias neuronais dentro do cérebro. Qual um
córrego constantemente irrigado até tornar-se um rio, tais vias se fortalecem e
se fixam, facilitando a recepção de novos estímulos, retroalimentando o
processo.
Quando tal estimulação
se dá dentro do prazo de uma janela neurológica, e se for em intensidade e
persistência suficiente, tal metacircuito manter-se-á potencialmente aberto
para sempre, mesmo na ausência de estímulos. É como um rio que, mesmo já quase
seco devido à estiagem, mantêm o sulco de seu leito na paisagem, apenas
esperando por uma chuva que o preencha. Do contrário, se a estimulação não for
suficiente, ou for muito tardia, o “sulco”, ou melhor, o metacircuito
necessitará constantemente de estímulo para se manter ou, simplesmente,
desaparecerá.
Me parece – apenas uma
suposição minha - que o lado direito do cérebro se especializou em criar
metacircuitos temporários, enquanto o esquerdo em fixar metacircuitos mais
permanentes. No entanto – e isso não apenas suposição minha – essa
especialização se dá ao longo do processo maturacional, não sendo desde início
tão rígido. Isso explicaria porque é mais difícil a um adulto aprender algo
novo do que uma criança: o cérebro hemisfericamente mais especializado exige
uma espécie de protocolo de aprendizagem mais rígido do que o não tão
especializado.
Apesar disso, seja em
que idade for, o aprendizado de coisas novas é de suma importância. Isso porque
o desenvolvimento de novos metacircuitos (primários) também proporciona o
desenvolvimento de conexões paralelas para o desenvolvimento de outras novas
funções, ou no aprimoramento de funções antigas. Vejamos a analogia:
Deseja-se construir
uma estrada que ligue os municípios de Cruz Alta e Santa Rosa. No entanto, ao
fazer-se isso, facilita-se o acesso a todos os municípios do caminho e de
outros da proximidade, nem previstos no projeto. Da estrada principal
(metacircuito primário) surgem diversas outras ramificações para outras
localidades (metacircuitos secundários).
Pensei nesta analogia
- além de lembrar das brilhantes aulas dde Neuropsicologia do Dr. Djalma[5]
- quando observei em um estudo[6]
recente que fiz que crianças expostas precocemente ao ensino de Inglês tiveram
melhor desempenho no teste de Fluência Verbal, que é em Português, do que
crianças da mesma idade sem acesso a língua estrangeira.
Observei tal
influência também com o convívio com sujeitos surdos: os limitados à
gestualidade apresentam muito mais dificuldades cognitivas e sócio-afetivas dos
surdos fluentes em LIBRAS; e estes, adotando com segurança a LIBRAS por
primeira língua, melhoram ainda mais sua performance depois de aprenderem o
Português escrito, ainda que este último jamais seja tão eficiente quanto o
aprendido precocemente pelo ouvinte. Tal conceito também está em conformidade
com os autores visitados.
A compreensão dos
aspectos neuropsicológicos da aquisição da linguagem auxiliam na compreensão do
próprio sujeito, seja na clínica, na escola ou no lar, ou ainda nos cursos de
língua estrangeira. É importante realçar que, ainda que haja no Sistema Nervoso
Central uma plasticidade não sonhada há poucas décadas atrás, ainda assim
existe momentos no desenvolvimento neurológico mais e menos propícios para a
aquisição de uma língua. É necessário que clínicos, educadores, pais e outras
pessoas compreendam os limites para, a partir dessa compreensão, saber como
proceder e expandir as capacidades dentro de tais limitações.
EM BREVE:
Parte II – Aspectos
Psico-sócio-afetivos
[1] Psicólogo (CRP 07/10.409), Cruz Alta – RS.
[2] Programa Saúde Mental no Ar, transmitido pela
emissora Aliança Comunitária, de Guarani das Missões (RS), entre março e maio
de 2003.
[3] Publicados pelos jornais santo-angelenses
(RS): A Tribuna Regional, O Mensageiro e Jornal das Missões, entre 1994 e
2002, à disposição na internet através
do endereço http://www.clinus.cjb.net
[4] Língua Brasileira de Sinais. Idioma oficial
dos surdos e mudos brasileiros, articulada por sinais e gestos sintáxica e
gramaticalmente padronizados.
[5] Curso de Psicologia da Universidade Regional
Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI, Campus de Santo Ângelo (RS),
entre 1995 e 1996.
[6] Ainda não publicado.