Psic. Danielson B. Warpechowski
O sentimento de solidão se tornou epidêmico a partir do século XX, devido às mudanças sociais e culturais trazidas pela revolução industrial e pela globalização. Os antigos esteios emocionais, como a família e a igreja, foram se desintegrando e se tornando cada vez mais frios e fragmentados, gerando um sentimento crescente de desamparo em muitas pessoas. A partir disso, doenças como depressão, fobias e diversos tipos de neuroses e psicoses foram se manifestando de maneira cada vez mais intensa e abundante em grande parte da população mundial, indiferente de idade ou classe social.
É sabido que todos s seres humanos precisam ter relacionamentos afetivos equilibrados para poderem se desenvolver saudavelmente. No entanto, a superficialidade, a efemeridade, o distanciamento, a falta de compromisso, a frieza afetiva e a desconfiança são características comuns a grande parte dos relacionamentos contemporâneos... Relacionamentos assim não contribuem em nada para o desenvolvimento psico-sócio-afetivo das pessoas e, ao contrário, torna-as mais vazias e insatisfeitas.
Para não se cair no vazio relacional, cada pessoa precisa reavaliar sua forma de se relacionar com os demais, sem se conformar com o padrão de superficialidade que parece imperar à sua volta. Um relacionamento superficial pode até se tornar profundo, mas requer tempo e esforço das pessoas envolvidas para que tal mudança ocorra. Infelizmente, não há como aumentar a intensidade da intimidade entre duas pessoas de maneira rápida, mágica ou forçada. Requer tempo, tolerância e convivência sincera, preço que algumas pessoas não estão dispostas a pagar. Mas é uma questão de escolha: os se paga pela paciência ou se paga pelo vazio existencial. Não há outra alternativa!
Alguns
leitores podem já ter tido contato, em alguma palestra, com este modelo: a
“Pirâmide de Intimidade nos Relacionamentos”:
Explicando: a maior parte dos contatos que temos é de “conhecidos”, ou seja, pessoas que temos algum grau de conhecimento, mas nenhum grau de intimidade. Já os “colegas” são pessoas que se aproximam de nós por fazerem parte de um mesmo grupo, estando ligados não exatamente a nós, mas ao grupo ao qual fazemos parte (empresa, escola, igreja, partido, etc...). Os “parceiros” são pessoas que nos acompanham em atividades além das atividades de “colegas”. Até este ponto, o nível de intimidade é baixo.
Os “amigos” são pessoas com quem temos alto nível de intimidade, com quem podemos confiar, contar em momentos difíceis, abrir o coração. A “família” é a parte que, além de ter todas as características de “amigo”, ainda compartilham projetos de vida e tem uma convivência mais intensa.
Um dos grandes erros das pessoas, nos relacionamentos, é criar expectativas e cobranças que não condizem com a função da pessoa em nossa vida. Exemplificando: esperar que conhecidos, colegas ou parceiros tenham atitudes de “amigo” ou de “família”. É preciso discernir que um “colega” não está ligado, propriamente, à minha pessoa, mas sim ao ambiente que compartilhamos, assim como um “parceiro” não está ligado exatamente a mim, mas sim a atividades que fazemos juntos.
Não posso cobrar dos colegas, portanto, lealdade, confiança, fidelidade, compreensão, apoio irrestrito, pois tudo isso está acima do que eles, no momento, podem me oferecer. Se eu me abrir demais e criar expectativas demais em relação aos meus colegas e parceiros corro o risco de me frustrar e me magoar... Ou de ser inconveniente e desagradável com quem não nos deve intimidade.
Algumas pessoas podem chegar à conclusão, até aqui, que “não têm amigos”. Outras podem até dizer “meus familiares, na verdade, não é minha família: são só colegas”, e muitas vezes é verdade, mesmo. Mas nada impede que atuais colegas e parceiros venham a se tornar amigos, ou até família... Desde que, claro, se pague o preço do tempo de convivência sincera, da tolerância e da compreensão mútua.
É possível acontecer uma “paixão à primeira vista”, mas um relacionamento amoroso só se sustenta quando amadurece num amor responsável, verdadeiro e comprometido com o crescimento. Da mesma forma, pode ocorrer uma “simpatia à primeira vista”, mas uma amizade só acontece quando ambos estão dispostos a investir nesta amizade de maneira consistente, e pagar o preço do tempo de convivência.
À nossa volta temos muitos conhecidos, muitos colegas, alguns parceiros, poucos amigos e raras pessoas íntimas suficiente para que possamos chamar de “família”. Seja como for, importa que saibamos tratar cada pessoa de acordo com a função que exerce em nossa vida, mas sempre com consideração e decência. Alguns de nossos conhecidos, colegas ou parceiros poderão vir a ser, ou não, nossos amigos, mas sempre serão merecedores de nosso respeito.
Quanto aos amigos e à família, além do respeito, importante saber demonstrar nossos afetos, sermos sinceros, intensos, profundos, leais e compreensivos. E, mais que isso tudo, não fechar-nos em nós mesmos, mas aprender a ouvir, a colocar-se no lugar do outro, a aceitar e mudar.
O século XX legou ao século XXI o esvaziamento das relações e o conseqüente decréscimo na qualidade de vida emocional das pessoas... O que será que nós, do século XXI, deixaremos para nossos filhos e netos? E para nós mesmos?
Há possibilidade de preencher o vazio relacional com mais profundidade, intimidade, verdade, respeito e sentimento verdadeiro... Mas terá alguém coragem de pagar o preço? Ou, talvez, ser feliz não valha tanto a pena...
(Para mim, vale!!!)