Gravidez na Adolescência: Um Sintoma Social?
Por: MARLISE MORIZZO
Segundo ESPIG (1998, p170), "adolescência", em sua origem latina, significa crescer, vir a tornar-se adulto, sendo que as características dessa fase quando manifestação fenomênica ou duração depende muito das especificidades sócio-culturais. E, ao dito desse autor, se acrescentaria: também das condições familiares e da constituição subjetiva singular de cada sujeito isolado!
As contribuições técnico-teóricas dos psicanalistas à partir de Jacques Lacan demonstraram que a constituição subjetiva se dá à partir do Outro. Transpondo esse conceito, pode-se pensar que há mais questões implicadas no engravidar dos adolescentes do que tão somente a implicação destes por si só. A gravidez na adolescência não pode ser compreendida fora de um contexto familiar/social do qual os adolescentes fazem parte.
"O sintoma é, pois, uma formação substitutiva que tenta dar conta da incompletude, do buraco ao redor do qual estamos constituídos simbolicamente. Mas, para que o sintoma seja social, há necessidade de um laço de identificação entre os sujeitos." BELLINE (1998, p249)
A adolescência é uma fase que, de certa forma, mexe com o subjetivo de todos com os quais os adolescentes convivem, cada um remetidos a suas questões. Quanto aos pais, por exemplo, muitos adolescem e adoecem junto com os filhos adolescentes. Revivem, nos filhos, seus conflitos não elaborados na sua adolescência.
O adolescente está inserido num meio social/familiar o qual é constituinte. E isso não pode ser mudado. Mesmo antes de nascer ele já faz parte da vida subjetiva dos pais, está inscrito no desejo inconsciente destes e de familiares. O "adolescer" é um espaço transicional entre uma vida infantil dependente e uma vida adulta independente; como todo processo de transição, traz conflitos. Só que alguns resultados desse conflitos são mais aceitáveis socialmente do que outros.
OUTEIRAL (1997), ao falar da adolescência e suas patologias transicionais, diz que ao mesmo tempo em que os adolescentes são produto do social, são também criadores deste social, modificando sempre de modo circular esta relação. A gravidez na adolescência é considerada também uma psicopatologia transicional que mantém essa mesma dinâmica no social.
É necessário frisar que os traços psicológicos individuais dos seres humanos são fruto das vivências. Os sintomas surgidos na adolescência não fogem desta regra. Fatores e parâmetros passados, inconscientemente, através da linguagem e do discurso familiar colaboram para criar, exacerbar, minimizar ou reprimir determinados sintomas eclodentes na adolescência. O bebê é marcado por uma pré-história do desejo familiar e pelas contingências históricas de sua cultura, cresce dentro de parâmetros e códigos simbólicos reproduzidos inconscientemente e, frente as alterações biopsíquicas do período da puberdade, responde a isso tudo de forma peculiar, mas não excluído de um contexto sócio-familiar. A gravidez na adolescência, conscientemente não planejada, pode ser uma das respostas do inconsciente para com esse contexto.
Em FLEIG (1993), caracteriza-se o sintoma social como sendo aquele que vem em sustento do discurso social dominante, contribuindo para a manutenção da estrutura civilizatória instituída, sendo que sua oposição pode fazer surgir uma nova organização sintomática. Portanto, todo sintoma é social, no sentido que manifesta-se à partir das contingências ou contra-contingências apresentadas pelo Social em dado momento histórico-cultural.
Por outro lado, como diversos psicanalistas e psicólogas observaram, as fases de desenvolvimento dos filhos remete os pais às suas próprias, reavivando conflitos. A adolescência da filha pode desencadear nos pais movimentos identificatórios tanto projetivos quanto introjetivos. Introjetivos porque pode gerar uma certa confusão de identidade de maneira que um dos pais, ou ambos, possam vir a assumir atitudes semelhantes a dos filhos como que se retornassem à sua adolescência. Projetivos porque, inconscientemente, pode haver uma certa manipulação das situações em que o filho vive e sobre suas possibilidades de conduta para que este reedite e elabore, no lugar dos pais, os conflitos destes quando da sua idade evidentemente, isso só é possível à nível da fantasia dos pais. Tanto uma forma quanto outra podem conduzir o adolescente para situações indesejadas, quer por falta de referencial adulto no caso da regressão dos pais, quer pela reedição de conflitos da adolescência dos pais através da projeção.
O adolescente, segundo ALBERTI(1996), é o sintoma do sintoma das figuras parentais, e estes só podem ser compreendidos a partir do contexto do qual fazem parte.
Muito comum haver reincidências de casos na mesma família. Por exemplo, adolescente grávida, filha de mãe que engravidou na adolescência, ou de forma não planejada. Esse fator de reincidência está, inclusive, inscrito na própria cultura, folcloricamente representado em ditos populares do tipo "filho de peixe, peixinho é" ou "a fruta não cai longe do pé", etc. O que acontece que, muitas vezes, a insuportabilidade da lembrança da situação traumática (por exemplo, a gravidez não planejada da mãe na adolescência) cria uma força imensa de repressão; essa força, entretanto, não é suficiente para extinguir a lembrança que, inconscientemente, é passada através da identificação projetiva para com os filhos, aumentando em muito o risco destes sofrerem trauma semelhante. Nesse exemplo, os sintomas podem ser desde a gravidez como é o caso dessa pesquisa até a prostituição ou, inversamente, a frigidez. A insuportabilidade da dúvida dos pais sobre a possibilidade de reincidência do trauma pode ser tal que estes preferem, inconscientemente, a certeza de que esta vai ocorrer no lugar da angústia da dúvida.
Quando se fala de gravidez na adolescência não se pode deixar de contextualizar a época e a cultura em que se vive. A gravidez não planejada ocorre, historicamente, em todos os lugares e épocas; contudo, atualmente, em alguns lugares, ganhou status epidêmico. Mas o que não pode ser deixado de lado é que o desenvolvimento biopsíquico tem se acelerado, causando uma precocidade da vida sexual em comparação com outras épocas. As telecomunicações, a informática, etc, vem viabilizando acesso a conteúdos que outrora não se tinha. Assim, a criança que tem sua sexualidade, porém ainda não aflorada é exposta a fatores que contribuem para um desbloqueamento psíquico do erotismo.
ABERASTURY (1989) salienta a importância da participação da sociedade no processo da adolescência:
ABERSASTURY (1989, p227) acredita que as características da crise adolescente estão relacionadas com a maneira pela qual o adolescente enfrenta a angústia das mudanças corporais e se refugia em seu mundo interno, e como o mundo exterior permite ou rechaça o desenvolvimento da expressão desse enfrentamento.
No que tange ao Brasil, essa eclosão de certos sintomas também podem estar relacionados com o momento histórico-político. Há poucos anos caiu o regime de repressão política, dando abertura para a liberdade de expressão e toda a gama de características do néo-liberalismo. Passado um breve período de uma espécie de "pasmo social" - no qual, apesar da liberdade, a auto-repressão continuou - temos, no final dos anos 80 e, mais diretamente, nos anos 90 uma explosão de expressividade. Essa é, justamente, a época em que os adolescentes de hoje nasceram e cresceram.. Mundialmente leva-se em conta a liberação sexual dos anos 60 que, através da globalização da cultura, alcançou todo o globo nas últimas três décadas.
A desrepressão sexual não extinguiu, entretanto, as repressões e tabus anteriores. Muitas vezes o ato de engravidar se constitui como um ato falho: "esquecer" da prevenção como uma forma inconsciente de denunciar seu estágio de maturação biopsíquica como também encontramos em CATHEL - e/ou seu sentimento de culpa por ter transgredido a barreira da castidade.
CATHEL (1995, p125-126) observou em gestantes que a gestação seria resultado de um "agenciamento significante que parecia regrar seus destinos", que a maternidade e paternidade concede um lugar em uma cadeia genealógica, inscrevendo-se, através de seu filho, nessa cadeia como maneira de reafirmar sua identidade ameaçada.
As contingências sócio-econômicas também contribuem, direta ou indiretamente. Em todas as classes e níveis sociais se observa um distanciamento entre os membros da família, em parte devido as exigências de tempo para trabalho e outras atividades. A gravidez na adolescência poderia ser, em alguns casos, tanto uma forma inconsciente de reaproximação da família em torno da "adolescente-problema", quanto o fruto da falta de referência da adolescente diante de sua família, ou ainda quando a gravidez está a serviço de algum desejo inconsciente da família, representando a realização de alguma fantasia.
DANIZIATO (1997) alerta que as falhas instituídas e generalizadas da autoridade paterna e da maternagem substituídas por atividades de profissionais comprometem a ancoragem em modelos identificatórios, dificultando a constituição da imagem de adulto que o adolescente precisa para se constituir como tal.
Até o momento falamos da gravidez na adolescência em seus aspectos inconvenientes. O que é sempre bom salientar, no entanto, que a denominação de "problema" para gravidez em idade precoce é, também, nada mais do que fruto de nossa cultura. Em outros povos é comum o casamento entre crianças, ou a maternidade aos 12, 13 anos, e o Social dá conta disso sem sentir problema nisso. Contudo, na nossa cultura desenvolveu-se o conceito de faixa etária para tudo: para ser cuidado (0-17 anos), para produzir (18-50), para cuidar (30-...) e até para ser abandonado, como é o caso dos idosos. Transgredir essas faixas etárias é transgredir a própria ordem social, gerando conflitos tanto internos quanto externos, pois somos sujeitos constituídos a partir do social.
Concordando com as observações de DANZIATO (1997), as adolescentes grávidas, embora angustiadas com a situação, demonstram-se felizes com a mesma; portanto, a "gravidez não-planejada" não é uma gravidez "não-desejada": existe um desejo inconsciente, sob motivos diversos. Ademais, riscos orgânicos só existem com meninas muito novas, sendo que com adolescentes acima dos 15 anos aliás, a maioria dos casos - os riscos são muito mais psicológicos e sociais.
Um antigo, mas nem por isso inválido, conceito aplicado às psicopatologias é o conceito de indivíduo depositário. O depositário é aquele que é alvo das projeções dos demais elementos do seu grupo, servindo como elemento de identificação quer para expiação de culpas, quer para a elaboração de outros conflitos. Os adolescentes exercem, em nossa cultura e até certo ponto, um dos papéis de depositário da nossa sociedade, ao lado dos velhos, dos loucos, etc... Outra expressão popular que denuncia esse papel é o termo "aborrecente", sugerindo que os adolescentes são causa de constante aborrecimento. Ao entrar nessa fase, o sujeito, inconscientemente sabendo do lugar que a adolescência ocupa em nossa sociedade, pode assumir diversas posições. Entre elas está a encarnação caricaturada, estereotipada, do papel oferecido, quer como demanda de reconhecimento da fase em que se encontra, quer como formação reativa contra a frustração frente ao papel oferecido. A encarnação do papel de depositário leva a condutas socialmente indesejáveis mas que, a nível de fantasia inconsciente, servem como reparação ou canal de elaboração de conflitos da coletividade.
Winnicott, citado por Mannoni (1996) , se interrogava sobre a agitação estudantil e insistia na necessidade de manter o confronto entre as gerações. Ele achava que os adultos tinham o que aprender com os jovens, mas que esses últimos precisavam de adultos responsáveis que não abdicassem dos compromissos. O confronto, segundo ele, tem sua própria forma e deve ser mantido para que a liberdade de idéias permaneça. Para o autor, a sociedade precisa desses estados de adolescência, da mesma maneira que da sabedoria dos velhos.
"(...) Que o sintoma fale, que ele produza algo, produza uma palavra e que possa dizer algo que esteja em jogo nesse momento. Então, a tarefa seria fazer com que haja um trabalho em relação a esse sintoma e não uma relação de extirpação ou outra coisa desse tipo. É uma coisa muito diferente do modo de abordar que se trata no sintoma médico, na acepção médica. Quando se fala de sintoma social, tem-se a introdução de uma diferença entre o que podemos chamar de sintoma singular, onde cada qual está estruturado e constituído como sendo a produção mais preciosa de cada um de nós. O nosso sintoma de cada dia é importante, quer dizer, não o joguemos fora, porque senão, vamos juntos com ele." FLEIG (1993, p3)
Frisamos aqui a importância dos fatores de ordem inconsciente no surgimento de sintomas, entre eles a gravidez não planejada. Apesar das campanhas educativas e de esclarecimento, a orientação sexual, o fácil acesso a técnicas contraceptivas, etc, ainda existem incidências crescentes desse fenômeno. E toda vez que novas estatísticas surgem, maior é o espanto, fazendo crescer as campanhas para, no levantamento estatístico seguinte, o sintoma se confirmar mais uma vez. Claro que todas essas providências são úteis e necessárias, mas seria ingenuidade acreditar que, por si só, dariam conta. Se assim fosse, isso jamais aconteceria com adolescentes esclarecidas e com bons recursos sócio-econômicos. Se acontece é porque, além dos fatores cognitivos e educacionais, os fatores psíquicos inconscientes têm uma grande influência. Talvez uma influência maior do que, até então, os promotores de medidas preventivas têm considerado.
" O sintoma Social dominante em uma dada cultura será, pois, a formação substitutiva predominante articulada dos elementos constitutivos e significantes que, após o recalque, não têm mais acesso à consciência só o fazendo por meio de representantes" BELLINE (1998, p248)
Agora, no que se refere à sociedade local. A pesquisa demonstra que, apesar da preocupação das instituições para com o problema da gravidez na adolescência, existe uma certa estabilidade nos índices de incidência nos últimos anos inferior às médias nacionais. Apesar disso, existe todo um movimento de repressão que, corroborando com as observações de DANZIATO (1997), em outras comunidades de nosso País, um pretexto para controlar a conduta sexual dos filhos, renegando seu crescimento.
A negação desse fato por parte das instituições também se constitui enquanto um ato falho. Ignorar a diminuição do problema ou exagerá-lo é, talvez, algo da mesma forma com que os pais superprotetores não aceitam que seus filhos crescem e continuam a mimá-los maturidade à fora. Talvez assumir que o problema de gravidez na adolescência não é tão sério seja frustrante demais, já que representa que essas "crianças" não precisam mais de tanta tutela já estão conseguindo, em parte, se cuidarem sozinhas.
Talvez a balbúrdia sobre a gravidez precoce esteja apenas denunciando a não-aceitação do desenvolvimento sexual das crianças por parte dos pais e da comunidade em que se inscrevem, como uma forma de barrar o crescimento. Por outro lado, mesmo quanto aos índices nacionais - (cerca de 25%) - são de se esperar, considerando o fato de que a população brasileira é jovem e está começando a exercer plenamente sua sexualidade cada vez mais cedo esse último ponto seguindo a tendência mundial.
Por outro lado, outro fator influente é o contraste provocado pela quebra do padrão social que a gravidez socialmente convencionada como precoce representa na comunidade. Uma adolescente grávida chama muito mais atenção do que uma adulta, e isso acaba supervalorizando a apresentação do fenômeno ao ponto de que sua incidência pareça maior. Esse pode ser um dos parâmetros desencadeantes da supervalorização das taxas de gravidez na adolescência na comunidade santoangelense, apesar de sua baixa incidência em relação à média Nacional e Mundial, e relativa posição estacionária na última década. A insuportabilidade social da quebra do padrão acaba sintomatizado socialmente como uma espécie de delírio paranóide sócio-grupal que leva a interpretar erroneamente as taxas estatísticas.
TAKIUT (1988) faz um alerta para que a sociedade assuma sua parte dizendo:
"A gravidez na adolescência é um desafio social e não um problema exclusivo da adolescente que, assustado, muitas vezes se afasta. Os pais, defensores da moral vigente, esbravejam, agridem e levam a jovem à depressão" (P.173).
A autora acima citada ressalta, ainda, que é preciso entender que a adolescente não pode assumir o risco social de uma gravidez não planejada, pois esta é uma problemática que não diz respeito apenas à adolescente, mas é resultado dum contexto maior onde toda sociedade está implicada. Os meios de comunicação, por exemplo, conhecedores das características específicas da adolescência, exploram, de todas as formas, o erotismo, o culto ao corpo e o sexo em geral, pois vêem tudo isso como artigo de estímulo ao consumo. Se a sociedade por um lado explora a sexualidade para fins comerciais, por outro lado também deveria comprometer-se em oferecer garantias físicas, psicológicas e sociais para que as adolescente possam usufruir com mais tranqüilidade sua sexualidade.
Como o mundo dos adultos aceita e lida com os adolescentes determinará em parte o espaço social que eles ocupam e influenciará na superação da crise ou não. A distância entre o mundo interno e a realidade exterior é um conflito que precisa ser solucionado. É, somente, com o apoio e limites definidos que o adolescente construirá o seu futuro, mesmo contestando a autoridade dos adultos, atividade necessária, segundo WINNICOTT (1975), para a dinâmica social, o adolescente necessita desta autoridade, sob pena de sentir-se abandonado.
Com isso não está-se defendendo a liberação indiscriminada e desatendida da maternidade na adolescência (sendo "produção independente" ou não), mas sim pontuamos que existe, realmente, uma catexia sobre esse sintoma social que o aumenta não só imaginariamente, mas também no real. As medidas preventivas, portanto, necessitam levar em conta, além do problema (manifesto) em si: o que está desencadeando este sintoma, qual o lugar de depositário que a adolescente grávida desempenha no social, e o que fazer para elaborar esse sintoma.