PERSPECTIVAS
DE TRABALHO PARA O SERVIÇO SOCIAL NO ÂMBITO ESCOLAR
O objetivo do presente artigo é fazer reflexões a partir da história da Educação no Brasil de forma a articularmos a história com as práticas do Serviço Social na escola decorrente a partir do estágio curricular que originou o trabalho de Conclusão de Curso do Serviço Social, advindos de certas problemáticas apresentadas pelos alunos da Classe Especial, destacando assim a importância das práticas interdiciplinares, e a participação da família no ambiente escolar. Assim, este estudo ressalta o trabalho integrado, auxiliando no tratamento e superação de tais dificuldades primando por uma prática interdisciplinar. A partir das demandas atendidas pela psicopedagogia do CMI- Centro Materno Infantil, vindas da Escola Belarmino Côrtes, percebeu-se a necessidade de se desenvolver um trabalho com os alunos da Classe Especial, estabelecendo uma aproximação a fim de construir um espaço de trabalho que ampliasse as possibilidades de conhecimento dos alunos e seus grupos de convivência familiar, observando na escola a compreensão da diversidade individual dos mesmos junto aos alunos das classes regulares, bem como possibilitar o acesso de informações aos grupos de convivência, chamando-os a discutir e participarem das atividades na escola. Para obtenção dos resultados deste trabalho, foi necessário realizá-lo de forma articulada conjunta com os professores e cuidadores, levando em consideração a importância de nos apropriarmos de dados através de atividades ludo-pedagógicas e planejamento de atividades de acordo com o interesse dos mesmos. Nos grupos de convivência familiar, damos continuidade aos trabalhos através de visitas domiciliares com os cuidadores, resgatando temáticas pertinentes a compreensão do alunos da classe Especial.
Palavras-chave: diagnóstico, escola, professor, aprendizagem
Para que seja possível discorrer sobre o trabalho do Serviço Social no âmbito escolar é fundamental, antes de mais nada, delimitar e contextualizar esta temática.Com tal objetivo, o presente capítulo faz uma retomada histórica comentada da Educação, primando pela educação pública brasileira.
Durante os primeiros séculos da colonização portuguesa no Brasil o ensino havia ficado a cargo dos padres da Companhia de Jesus em quase a sua totalidade. A Companhia de Jesus, quando da época do envio de seus primeiros missionários ao Brasil havia sido recém fundada pôr santo Inácio de Loyola, sem que tivesse tido, entretanto, objetivos educacionais em sua origem. A intenção de Santo Inácio foi inicialmente trabalhar na conversão dos muçulmanos; não podendo, por circunstâncias alheias à sua vontade, dar prosseguimento a este objetivo, juntamente com os seus primeiros companheiros renunciou a este ideal como fim específico da Companhia de Jesus e ofereceu-se então à Santa Sé para que dispusesse de sua organização conforme ela melhor entendesse que fossem as necessidades prioritárias da Igreja.
A importância destas observações reside no fato de que, ao ser colhida nas contingências da época pelo trabalho pedagógico, a Companhia de Jesus não contava para tanto com uma filosofia da educação especialmente elaborada para o desempenho desta missão. A Companhia vinha ao mundo com diversas idéias novas, especialmente no campo da ascese cristã e na sua própria organização como sociedade de clérigos, mas não tinha nada a dizer de especial quanto à filosofia da educação, no sentido em que entendemos hoje este termo, excluída a educação especial daqueles que deveriam ser sacerdotes. Por causa disso ela limitou-se na prática, em termos da educação mais geral, a codificar através da experiência de seus docentes uma filosofia de educação em que, de certo modo, cristianizava-se o modelo educacional renascentista, baseado, no equivalente ao ensino secundário, no estudo dos clássicos e no cultivo da língua latina. De tal modo este ensino se expandiu que com o tempo este modelo pedagógico começou a ser visto como se esta fosse a própria filosofia cristã da educação, a assim chamada educação humanista, quando na verdade, se nos ativermos ao legado dos grandes pensadores cristãos desde a antigüidade até antes da Renascença, bem outro é o modo neles encontrado de serem abordados os problemas pedagógicos.
O predomínio da educação jesuíta no Brasil foi quase absoluto até o ano de 1759, quando o Marquês de Pombal expulsou todos os padres da Companhia de Jesus de Portugal e de suas colônias.
A criança com dificuldade de aprendizagem, durante muito tempo, foi encaminhada ao médico, cujo diagnóstico isolado, ansiosamente aguardado pela família e pela escola, iria confirmar ou negar a sua normalidade.
Num passado ainda próximo, nos casos detectados, geralmente a criança era encaminhada para classes ou escolas especiais que ofereciam um ensino diferenciado.
Com isso, acabava por tornar-se estigmatizada e fazer parte de um segmento social marginalizado, onde as oportunidades de ampliação de suas potencialidades eram reduzidíssimas. Apenas com a chancela do médico, na maioria das vezes, a criança com dificuldade de aprendizagem passava a ser considerada, por muitas pessoas, como um ser incapaz de criar e produzir conhecimento.
Mesmo hoje, não podemos ignorar que, diante de qualquer desvio do padrão de comportamento, principalmente na escola, a primeira hipótese de explicação ainda faz referência a um possível problema mental.
Como sujeito dotado tão somente de cabeça, desprovido de corpo, emoção e sentimento, a criança distante dos padrões de competência foi, até há bem pouco tempo, vítima de um julgamento equivocado e parcial.
Esse procedimento se modificou somente há poucas décadas, em decorrência, principalmente, dos avanços nas pesquisas neurológicas comprovando a plasticidade do cérebro que, mesmo lesado, tem condições de reconstituir-se e garantir seu funcionamento, bem como da Psicologia, em especial a Psicanálise, cuja contribuição está sendo significativa no sentido de colaborar para que a criança seja também considerada como dotada de sentimentos, que desde a vida intra-uterina influenciam o seu comportamento. A Pedagogia, igualmente, acabou por repensar a sua prática, investigando mais profundamente a relação ensino-aprendizagem. E todos esses profissionais, atuando integradamente, deram um impulso à questão.
Há que se destacar que, com o surgimento e contribuições da Psicopedagogia, todos os conceitos envolvidos no aprender estão sendo reconsiderados. Por aprendizagem, por exemplo, estendeu-se o conceito para além do conhecimento formal, acadêmico. Qualquer sujeito, independente do seu comprometimento corporal, orgânico, cultural ou psicológico se relaciona e elabora aprendizagem, pois é um ser social, que estabelece relações vinculares durante toda a sua existência.
A prática do Serviço Social que apresentamos aqui nos tem mostrado que, mesmo na “ignorância”, a criança assim persiste certamente por elaborar mecanismos inteligentes de defesa ou de manutenção de uma dinâmica grupal na qual se encontra inserida.
Nos dias de hoje, fica cada vez mais evidente que se faz necessário considerar o aspecto orgânico como importante na avaliação do problema de aprendizagem, no entanto é, também, indispensável que os aspectos cognitivos e afetivos sejam ponderados na elaboração do diagnóstico, como também no tratamento indicado.
Além desses fatores, não se pode deixar de levar em conta os níveis econômicos e culturais em que o grupo familiar da criança se encontra, bem como o tipo de escola que freqüenta, uma vez que, se forem bem entendidas e encaminhadas as dificuldades de aprendizagem, as crianças/alunos podem ter assegurada uma relação mais harmônica, coerente e saudável com o conhecimento.
Finalmente, é indispensável registrar que equipes multidisciplinares, compostas por médicos, pedagogos, psicopedagogos, psicólogos, professores, assistentes sociais e demais profissionais envolvidos, cada vez mais, se colocam a serviço dos casos de problemas de aprendizagem, colaborando para que as crianças encaminhadas possam desfrutar plenamente sua cidadania, visando assim uma prática interdisciplinar, ou seja trabalho articulado entre os profissionais envolvidos.
Como se observa, a utilização de técnicas no processo de avaliação ajuda os outros profissionais, portanto se houvesse esse prática não fragmentada, os resultados poderiam ser outros, pois esses profissionais, juntamente com o educador, estariam se preocupando com as variáveis que estão interferindo no processo de aprendizagem do aluno com dificuldades. Através dessa identificação, propostas de intervenção são apresentadas, analisadas e discutidas, estendendo-se aos familiares.
Deve-se, por exemplo, observar o aluno que não consegue ler, ou compreender problemas matemáticos, pois talvez ele seja mais ansioso quanto ao fracasso, por causa de sua fragilidade e de sua baixa auto-estima. Ou não consegue ler porque necessita de mais tempo, num programa mais longo. É provável que o educador e familiares precisem esquecer as habilidades de leitura para concentrar mais naquilo que ele é capaz de fazer e esperar que sua confiança se fortaleça. Quando estiver mais forte, com certeza terá condições de aprender.
Há muitos alunos com outras variedades de dificuldades de aprendizagem que não se mostram intelectual ou fisicamente incapacitadas, como a relação professor/aluno. Deve-se reconhecer que esses alunos são emocionalmente frágeis. Independentemente da razão, são ansiosos a tal ponto que não conseguem reter informação e construir com base em conhecimentos anteriores.
Os pais e educadores poderiam estar atentos, observando os comportamentos e as reações do aluno frente ao “fracasso”, pois pode ocorrer um aumento no nível de distúrbio de comportamento, como por exemplo, a hiperatividade. A hiperatividade é difícil de medir e definir e muitas vezes estes são estigmatizados por essa rotulação mal=definida e compreendida. Os alunos definidos como hiperativos sofrem de inquietação, excesso de atividade, excitabilidade e desorganização. Podem ser impulsivos e agressivos. Os pais de alunos hiperativos geralmente supõem que seus filhos sejam altamente inteligentes e precisem expandir suas mentes.
Quando se detecta que inúmeros comportamentos do aluno são decorrentes de sua dificuldade na escola, é possível elaborar um programa eficaz para o seu bom desenvolvimento, antes de encaminhá-lo para educação especial, mais especificamente para a classe especial.
Segundo Machado (1994, p. 53):
"para a maioria dos professores, é bom existir a classe especial a fim de que se possa atender às crianças que não conseguem acompanhar o que eles ensinam. As classes de educação especial funcionam algumas vezes como uma 'válvula de escape' inadequação e fracasso do ensino público. Alguns professores acreditam que uma atenção especial, para algumas dificuldades da criança, pode acontecer na classe especial, já que lá o número de criança é menor que na classe comum"
Mas, como vamos percebendo, essa não é uma questão apenas quantitativa .Tem-se que olhar as subjetividades que estão sendo produzidas nesse tipo de prática.
Os educadores devem estar atentos e, se possível, participar de cursos de treinamento com técnicas preventivas, ou seja, adaptarem os seus recursos e currículo, de forma a atender às necessidades do aluno com dificuldades, e não excluí-los.
"Há o perigo de a Escola, diante de qualquer comportamento divergente de seus alunos, encaminhar essas crianças para as classes especiais, sem antes realizar uma reflexão profunda sobre as mesmas. Qualquer rotulação é uma tendência reducionista, pois muitas vezes rotula-se a criança sem que sejam pesquisadas as condições em que o problema ocorreu [...] não se pode, portanto, colocar crianças em classes especiais, sem a indicação da equipe multiprofissional, cuja orientação é imprescindível" (Boletim de Educação, 1998, p. 12).
O diagnóstico é um processo contínuo (identificação, atendimento, acompanhamento e encaminhamento, se necessário) e deverá ser norteado por um referencial teórico, agindo através da interdisciplinaridade, isto é, todas as categorias profissionais envolvidas devem embasar seus trabalhos numa concepção teórica, havendo uma unidade de pensamento, uma vez que o sujeito é único. É necessário ter como objetivo principal, o desenvolvimento global e harmonioso do aluno, devendo buscar as suas potencialidades e possibilidades nesse processo.
Amaral, (1997, p. 33-34) quando escreve sobre Histórias da exclusão – e de inclusão? – na Escola Pública relata uma história bastante rica para reflexão: "Uma joaninha diferente". "Era uma vez uma joaninha que nasceu sem bolinhas...
Por isso, ela era
diferente. As outras joaninhas não davam 'bola' pra ela. Cada qual com suas
bolinhas, viviam dizendo que ela não era uma joaninha.
A joaninha ficava triste, pensando nas bolinhas e no que poderia fazer...
Comprar uma capa de bolinhas? Ou, quem sabe, ir embora para longe, muito longe
dali?
Ela pensava e pensava... Sabia que não seriam as bolinhas que iriam dizer se
ela era uma joaninha verdadeira ou não. Mas as outras joaninhas não pensavam
assim...
Então ela resolveu não dar mais importância ao que as outras joaninhas pensavam e continuou sua vida de joaninha sem bolinhas... Até que um dia, as joaninhas reunidas resolveram expulsar do jardim aquela que para elas não era uma joaninha!
Sabendo que era uma autêntica joaninha, mesmo sem bolinhas, teve uma idéia... Contou tudo para o besouro preto, que é parente distante das joaninhas.
Decidiram ir à casa do
pássaro pintor e contaram a ele o que estava acontecendo.
O pássaro pintor, então,
teve uma idéia. Pintou com capricho o besouro, que ficou parecendo uma joaninha
de verdade...
E lá se foram os dois para o
jardim: a joaninha sem bolinhas e o besouro disfarçado.
No jardim ninguém percebeu
a diferença. E com festa receberam a nova joaninha.
A joaninha sem bolinhas,
que a tudo assistia de cima de uma folha, pediu um minuto de atenção e,
limpando a pintura que disfarçava o besouro preto, perguntou:
— Quem é a verdadeira joaninha?"
Analisando a referida história da joaninha, Amaral propõe que, "tal como o besouro e o pássaro pintor, nós (sejamos profissionais) façamos uma aliança (quase cumplicidade) com a criança/joaninha-sem-bolinhas, para que ela tenha espaço para ser e espaço para provar que sendo uma "verdadeira" criança/joaninha (com ou sem bolinhas) é sempre capaz de aprender [...] e de ensinar".
Oferecer um ambiente seguro e carinhoso ao aluno com dificuldade é fundamental. A rotina e procedimentos regulares podem estimular não só um sentimento de segurança, mas também um sentimento de realização, principalmente se forem coerentemente empregados numa comunidade afetiva.
Para revertermos o quadro dessa dificuldade, devemos desenvolver as capacidades cognitivas dos alunos, tornando-os capazes de " pensar, refletir e construir o conhecimento de forma significativa. Dois aspectos bastante relevantes devem ser satisfeitos:
1. "A presença de um mediador (pais, professores, companheiros), ou seja, pessoas que se interpõem entre o estímulo e o organismo, criando, de forma sistemática ou assistemática, situações que levem o indivíduo a se desenvolver; e
2. Os recursos, instrumentos pedagógicos que devem ser adequados a essas crianças, possibilitando a construção do conhecimento de forma pensante".
Feuerstein apud Rubinstein (1996, p. 132), faz também uma importante observação a respeito da dificuldade de aprendizagem. Segundo ele, ela está relacionada com carência de "Experiência de Aprendizagem Mediada", a qual acarreta fundamentalmente a performance cognitiva deficitária, além de baixa modificabilidade cognitiva. E prossegue, enfatizando que a aprendizagem, fundamentalmente, é constituída na relação com um mediador humano, embora também se possa aprender diretamente da interação com o estímulo [...] responsabiliza a qualidade da relação do mediador (pais e demais adultos) com o aprendiz, como a responsável direta da capacidade de aprendizagem e de flexibilidade a mudança" (p. 131).
Em muitas situações em que o aluno apresenta dificuldade de aprendizagem, é mister uma avaliação multidisciplinar, com objetivo de observar os múltiplos fatores envolvidos e, se necessário, executar um diagnóstico diferencial. Segundo Rubinstein (1996, p. 139):
"nem sempre num primeiro momento, encontram-se no diagnóstico todas as respostas. Muitas vezes é durante o tratamento que surgirão outras informações, as quais permitirão construir idéias mais precisas a respeito do quadro. O profissional deve estar atento ao caráter contínuo do diagnóstico durante a intervenção".
Os profissionais devem sempre trabalhar em conjunto com outro(s) profissional(is) envolvido(s) no atendimento do aluno e sempre trocando idéias, executando Estudo de Caso, fornecendo orientações aos Mediadores e Familiares e, principalmente, ao Educador , pois o "grande problema que os professores enfrentam hoje é com quanto aqueles alunos que aparentemente nada trazem de diferentes, mas têm um desempenho muito aquém do grupo onde estão inseridos. Conseqüentemente, buscam uma saída para eles – a Educação Especial – quando na verdade, a maioria desses alunos necessita que seus professores revejam sua prática docente, e também a equipe como um todo, de modo a criar um clima em sala de aula e na sociedade um ambiente que lhes favoreça a pessoa que são, porque na verdade o problema não está no aluno, o problema está em sua interação com o meio.
O fracasso escolar aparece hoje entre os problemas de nosso sistema educacional mais estudados e discutidos. Porém, o que ocorre muitas vezes é a busca pelos culpados de tal fracasso e, a partir daí, percebe-se um jogo onde ora se culpa a criança, ora a família, ora uma determinada classe social, ora todo um sistema econômico, político e social. Mas será que existe mesmo um culpado para a não- aprendizagem? Se a aprendizagem acontece em um vínculo, se ela é um processo que ocorre entre subjetividades, nunca uma única pessoa pode ser culpada.
Não pretendo aqui, portanto, expurgar a responsabilidade de um fracasso escolar. O propósito é discuti-lo como um elemento resultante da integração de várias “forças” que englobam o espaço institucional (a escola), o espaço das relações (vínculos do ensinante e aprendente), a família e a sociedade em geral.
Quando se fala em fracasso, supõe-se algo que deveria ser atingido. Ele é definido por um mau êxito, uma ruína. Porém mau êxito em quê? De acordo com que parâmetro? O que a nossa sociedade atual define como sucesso? Daí a necessidade de analisar o fracasso escolar de forma mais ampla, considerando-o como peça resultante de muitas variáveis.
A sociedade busca cada vez mais o êxito profissional, a competência a qualquer custo e a escola também segue esta concepção. Aqueles que não conseguem responder às exigências da instituição podem sofrer com um problema de aprendizagem. A busca incansável e imediata pela perfeição leva à rotulação daqueles que não se encaixam nos parâmetros impostos.
É preciso distinguir aquilo que é próprio da criança, em termos de dificuldades, daquilo que ela reflete em termos do sistema em que se insere.
Também contribuem para o fracasso escolar a própria instituição educativa que muitas vezes não leva em consideração a visão de mundo do aprendente. As discrepâncias entre o desempenho fora e dentro da escola são significativas. Ou seja, muitas vezes os profissionais da educação não conseguem transpor o conhecimento ensinando para a realidade do aprendente. Isso pode ser exemplificado no livro: “Na vida dez, na escola zero” que trata do ensino da matemática. Na escola os alunos vão mal, porém em situações naturais, cotidianas, e que necessitam de um raciocínio matemático eles vão muito bem.
Outra questão referente à escola é que esta, ao valorizar a inteligência, se esquece da interferência afetiva na não aprendizagem. O sujeito pode estar em dificuldades de aprendizagem por ter ligado este fato a uma situação de desprazer. Esta situação pode estar ligada a algum acontecimento escolar. Claparéde diz que a escola pode provocar na criança conflitos que influenciarão seu gosto pelo aprender.
Este trabalho não objetivou mostrar que não existe um único “culpado” pelo fracasso escolar. Muitas vezes a escola situa o problema do fracasso no indivíduo, considerando-o como portador de algum tipo de “desvio” ou “anormalidade” ou ainda empurrando a culpa para a família.
Assim, o “insucesso” é atribuído à debilidade das capacidades intelectuais, à cultura desviante e a outras categorias como: as dislexias (para as dificuldades de leitura), as disortografias (dificuldades em ortografia) e as discalculia (dificuldade em cálculos) que servem como rótulos. Estes levam aqueles que fracassam a tratamentos diversos em instituições especializadas e a classes especiais.
Em face da criança que fracassa, muitas vezes a escola e os profissionais da educação não levantam problemas como a estrutura da escola, a estrutura social e a inadequação dessa estrutura à situação real de vida da criança.
Daí podem surgir os motivos do fracasso escolar: uma não-aproximação e conhecimento do aluno e de suas necessidades. Principalmente se estes alunos apresentarem uma realidade diferente da realidade do ensinante.
Portanto, buscar soluções para o fracasso escolar não consiste em patologizar o aprendente mas em ampliar este foco, abrindo espaço para outras variáveis que também influenciam no processo da aprendizagem como a instituição, o método de ensino, as relações ensinante- aprendente, os aspectos sócio-culturais, a história de vida do sujeito, entre outras.
Este artigo sendo resultado do trabalho de conclusão do curso de Serviço Social da universidade de Cruz Alta- UNICRUZ, é fundamentado a partir da prática de estágio iniciada em março de 2003, trouxe como proposta refletir a respeito da trajetória do Serviço Social em vista da construção de uma prática profissional no estabelecimentos de ensino a partir das observações feitas na Classe Especial da Escola Major Belarmino Côrtes para alunos com dificuldades de aprendizagem e uma reflexão a partir dos conceitos históricos da Educação Brasileira.
Realizar o processo de articulação entre o referencial teórico estudado e o conhecimento empírico - obtido através das expressões, das observações, dos contatos informais próprios da prática de estágio - demonstrou que realmente a escola pública vem passando por inúmeras mudanças, que atingem especificamente o processo educativo e as relações internas e externas à escola. Constatou-se ainda, que neste processo há muitas barreiras que limitam e condicionam as possíveis práticas do Assistente Social, principalmente pela falta de clareza a respeito da profissão .
Acredita-se ser válida a contribuição que o Assistente Social pode dar à escola junto à equipe formada por profissionais de outras áreas. Não se trata tão somente de mais um espaço de trabalho para este profissional, mas de mais uma possibilidade do mesmo se inteirar a essa realidade e auxiliar num momento onde mudanças na sociedade não param de se concretizar, exigindo a presença de uma prática profissional que exercite efetivamente a sua função social.
Percebe-se que, para a concretização dessa proposta de trabalho interdisciplinar no estabelecimento escolar, se faz necessário considerar os avanços que advêm da intervenção a nível interdisciplinar. É preciso fomentar o diálogo, as trocas de saberes a fim de situar-se e desenvolver um trabalho que atinja resultados satisfatórios para todos, principalmente para os usuários.
Essa proposta Interdisciplinar apresentada neste estudo surgiu como resultado de observações advindas da prática de estágio realizada em uma escola da rede pública Estadual de ensino que, pode se constituir em estratégias que possam, propor um bom relacionamento grupal, aliada as ações profissionais propriamente ditas. Esta percepção, fez-se refletir a respeito de novos espaços e práticas de atuação do Serviço Social na comunidade escolar, com vistas a um trabalho unificado.
Não foi objetivo deste estudo esgotar as possibilidades do Serviço Social no âmbito da Educação. Ao contrário, ao apontar para práticas já formalizadas e sugerir novas intervenções, demonstra-se que o campo de atuação do Assistente Social na Educação é vasto, e muito ainda tem a ser explorado. O resultado concreto deste trabalho não é conclusivo, mas com certeza se encaminha muito mais pela identificação de uma questão
Nessas linhas conclusivas o que se propõe, portanto, não é o encerramento de uma questão, mas justamente o seu oposto: que tais proposições se desdobrem e outras, e outras tantas quanto forem necessárias para permitir que o trabalho do Assistente Social se torne cada vez mais amplo.
No processo de construção deste estudo analisou-se e refletiu-se sobre os possíveis aprimoramentos do posicionamento dos profissionais do Serviço Social em relação à concepção institucional, à prática assumida na comunidade escolar e também a respeito da possibilidade de construção de um trabalho a partir da Interdiciplinaridade.
Por ser um campo novo de atuação o Serviço Social na escola, encontramos algumas dificuldades em concluir este trabalho, principalmente pela falta de referenciais teóricos que pudessem sustentar as idéias aqui apresentadas, nesse sentido percebemos que a escola é um espaço inegavelmente fértil para a atuação do Serviço Social no seu cotidiano e que pode ser muito explorado para futuras ações interventivas do Serviço Social.
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