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Surdez e Comunicação – O Ambiente Familiar

Ana Paula S. Zorzi

Vygotski considera, a partir da teoria Sócio – interacionista, que o desenvolvimento humano depende das relações estabelecidas com o meio social no qual o indivíduo está inserido. Portanto, conhecer o contexto familiar da pessoa surda é necessário para que possamos compreender as influências que interações comunicativas entre pais ouvintes e filhos surdos poderão ocasionar no desenvolvimento deste.

No ambiente familiar, a pessoa surda convive geralmente com uma experiência lingüística diferente da sua, visto que seus familiares possuem a modalidade oral – auditiva na comunicação. Esta realidade caracteriza a grande maioria na comunidade de surdos em relação aos filhos surdos de pais surdos.

Crianças surdas, filhos de pais surdos, têm a possibilidade de se desenvolverem num ambiente adequado, no qual o uso de uma língua de sinais supostamente seja efetivo. Este fato demarca a diferença entre as duas realidades, sendo que, filhos surdos de pais ouvintes podem entrar em contato tardiamente com uma linguagem apropriada para seu desenvolvimento.

O comportamento humano é compreendido através do funcionamento de mecanismos que se caracterizam por estabelecer relação entre pessoa e meio ambiente. Sendo assim, encontramos em nossos sentidos aptidões para colher informações e interpretá-las conforme nossos objetivos ou necessidades.

Entretanto, para a pessoa que possui perda auditiva, captar ou interpretar informações em seu meio, que sejam significativas para sua aprendizagem, requer a utilização de uma experiência sensorial fundamentalmente visual.

Uma relação importante em nosso comportamento é estabelecida pela comunicação, através da qual podemos realizar a troca de informações e produzir conhecimento, além de dar continuidade a nossa cultura.

Sendo a aprendizagem estabelecida pela comunicação, a pessoa surda necessita do canal visual para receber informações e, deste modo, produzir seu conhecimento, expressando-se através de uma forma viso-gestual.

Nas teorias abordadas, antigamente ou atualmente, tanto o ambiente quanto fatores biológicos prevalecem enquanto determinantes do desenvolvimento da linguagem. Observando a visão lingüística, considera-se que os seres humanos nascem pré-dispostos biologicamente à aquisição de uma língua.

Para Chomsky a mente explica esta capacidade inata, denominada de estado inicial.

A aquisição de língua se parece muito com o crescimento dos órgãos em geral; é algo que acontece com a criança e não algo que a criança faz. E, embora o meio ambiente importe claramente, o curso geral do desenvolvimento e os traços básicos do que emerge são pré-determinados pelo estado inicial. (Chomsky, 1998: 23).

Ao estudar Vygotski, encontramos em suas teorias a mesma tendência de enfatizar a pré-disposição natural na aquisição da linguagem, porém, realçada por estímulos ambientais e pela interação social que fundamentam o desenvolvimento da linguagem da criança surda.

Baseado em Quadros (1997), a aquisição de uma língua ocorre de forma natural, espontânea e refere-se ao conhecimento inconsciente, enquanto a aprendizagem é um processo formal, sistematizado, é o conhecimento incorporado de forma consciente.

As etapas de desenvolvimento lingüístico de crianças surdas, filhos de pais surdos, ocorrem naturalmente, assim como para as crianças ouvintes quando adequadamente estimuladas. A língua de sinais (L1) deve ser adquirida pela criança surda de forma espontânea, a partir de um ambiente propício; ou seja, através da convivência com pessoas que usam a língua de sinais.

Em contrapartida, o aprendizado de uma segunda língua (L2), ocorre de forma sistematizada e não dependerá do tempo hábil ao desenvolvimento, mas sim da estrutura previamente adquirida de uma primeira língua.

Conforme Scliar-Cabral (apud Quadros, 1997: 85),

..."a não exposição a uma língua, no caso a língua nativa, no período natural de aquisição da linguagem, causa danos irreparáveis e irreversíveis à organização psicossocial de um indivíduo".

Neste aspecto encontramos tanto nas colocações de Scliar-Cabral, quanto nas teorias de Vygotski (1997), a necessidade da aquisição da L1 e aprendizado da L2 em tempo adequado.

Para Vygotski, a educação pré – escolar será a base de toda educação posterior e neste período deve-se aproveitar os "dotes naturales: el balbuceo infantil, la mímica y los gestos naturales..."(Vygotski 1997: 118). Pois estes formarão a base de hábitos lingüísticos da criança. Podemos então, considerar adequado o método de aquisição da linguagem na idade pré – escolar.

Portanto, a criança surda deve ser exposta ao modelo de uma primeira língua logo que estiver apta a receber as primeiras estimulações ainda quando bebê, para não ter maiores perdas durante a fase escolar, quando ocorre, geralmente, o aprendizado sistemático e formal da língua.

Experiências que previam somente o uso da língua portuguesa na educação, baseadas numa abordagem oralista, expunham os surdos à prática desta língua de uma forma mecânica, ao mesmo tempo em que o uso da língua de sinais era proibido e técnicas para treinar a "audição" dos surdos eram utilizadas, desconsiderando, desta forma, a espontaneidade na construção do conhecimento e nas relações sociais entre os próprios surdos.

Assim, os surdos não poderiam identificar-se com as práticas orais, visto que não possuem condições para tanto, nem com a prática de sinais, por serem proibidos de usá-los, ou por terem aprendido a rejeitá-los.

Em BRITTO (1993, p. 57), encontra – se a seguinte colocação:

Os fracassos na comunicação do dia-a-dia da criança surda foram, inúmeras vezes, causas de inseguranças que perduraram por toda sua vida, levando – a rejeitar sua condição de surda, na busca constante de um modelo ouvinte, um meio que provavelmente não atingiria. Essa rejeição é evidente nas atitudes das pessoas surdas que preferem se fazer passar por ouvintes e, cuja manifestação mais saliente encontra-se na rejeição da língua de sinais, identidade surda por excelência.

Portanto, uma forma apropriada de dinamizar a comunicação entre pais e filhos, inicialmente, será a aceitação da língua (a qual atende as necessidades da pessoa surda) pela família e sua utilização. Sendo esta uma maneira de comprometimento que os pais podem ter com a educação de seus filhos.

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A Profª Ana Paula Zorzi é especialista em Educação Especial, trabalhando com sujeitos surdos desde 1997.

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Referencial Bibliográfico

BRAGHIROLLI, E. M. BISI, G. P. RIZZON, L. NICOLETTO, U. Psicologia Geral. 13ª ed. Petrópolis: Vozes. 1995.

BRITO, L.F. Integração Social e Educação de Surdos. Rio de Janeiro: Babel Editora. 1993.

CHOMSKY, N. Linguagem e Mente. Pensamentos Atuais Sobre Antigos Problemas. Brasília: UNB. 1998.

KOSLOWSKI, L. O Modelo Bilíngüe/ Bicultural na Educação do Surdo. Palestra Proferida no Seminário Desafios para o Próximo Milênio. INES (org). Rio de Janeiro. 2000.

QUADROS, R. M. Educação de surdos. A aquisição da linguagem. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.

VYGOTSKI, L. S. Obras Escogidas V. Fundamentos de Defectologia. Madrid: Visor. 1997.

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