Tecnologia
Fim da Fumaça
    A virada do milênio é uma época propícia para previsões. Uma delas tem ganho cada vez mais adeptos: a de que, finalmente, o petróleo vai acabar. Vai mesmo? Matematicamente, é inevitável, uma vez que a demanda é ilimitada, enquanto as reservas são finitas. Os fatos, por enquanto, apontam na direção contrária. Na segunda-feira passada, a Organizaçao dos Países Exportadores de Petróleo, Opep, decidiu mais uma vez reduzir a produção mundial para forçar a alta do barril, cujo preço chegara a valores pré-crise do petróleo no começo dos anos 70. Ou seja, o mercado está sinalizando que o petróleo é abundante. Numa outra frente, a alemã Daimler Chrysler, em parceria com a empresa canadense Ballard, anunciou no dia 17 o lançamento do Necar 4, um carro totalmente movido a hidrogênio líquido que libera como resíduo água, pura água. Para provar, os promotores do carro a beberam Esses eventos mostram que, pelo menos teoricamente, a era do petróleo pode acabar antes que as reservas do combustível fóssil se esgotem.

    Desde o primeiro poço de petróleo, no século passado, os geólogos prevêem o fim dos recursos disponíveis. Acompanhe a evolução das expectativas pessimistas e a corrida para desenvolver carros que consomem cada vez menos:
        -> Anos 20: Início da popularização do automóvel. Geólogos americanos estimam que a disponibilidade de petróleo acabará em breve. As refinarias operam com menos de 50% da capacidade por falta de óleo bruto.

        -> Anos 40: Surge a perspectiva de abundância de petróleo com as primeiras avaliações do potencial das reservas no Oriente Médio.

        -> Anos 50: Consumo dos carros:
 
    O beberrão Cadillac faz 4 quilômetros por litro.

        -> Anos 60: Consumo dos carros:
 
    O Simca Chambord faz 6 quilômetros por litro.

        -> Anos 70: Com a grande crise do petróleo, os preços explodem e vem o pânico da falta do combustível. As montadoras começam a se preocupar com o desenvolvimento de carros mais econômicos.
        Consumo dos carros:
 
    O Fiat 147 faz 13 quilômetros por litro.

        -> Anos 90: Quase metade das reservas mundiais de petróleo já foi gasta. Estima-se que a produção vá cair a partir de 2010 e pode acabar daqui a oitenta ou 100 anos.
        Consumo dos carros:
 
    O Honda Life faz 25 quilômetros por litro.

    Pela primeira vez, os técnicos garantem que resolveram todas as questões de engenharia envolvidas num carro elétrico. "O desafio agora é reduzir o preço", afirma o diretor de desenvolvimento da Daimler Chrysler, Ferdinand Panik. No mercado hoje, o Necar 4 custaria 30.000 dólares. Uma pilha colocada sob os bancos recebe hidrogênio líquido de um lado e ar do outro. A célula energética faz com que o oxigênio do ar interaja com os átomos de hidrogênio gerando uma corrente elétrica para o funcionamento do motor. O carro é totalmente silencioso, não tem as trepidações comuns à aceleração e é classificado como zero de poluição. Outra novidade em releção a suas três versões anteriores é a autonomia de 450 quilômetros.

    O novo carro não poluente, movido a hidrogênio líquido: falta o preço...

 
    Metade já foi - "O Necar 4 é um marco da revolução que vem por aí, diz Panik. Todas as grandes montadoras do mundo estão desenvolvendo carros com formas alternativas de combustível ao petróleo, para ser lançados nos próximos cinco anos. A GM já vende seu EV-l, um automóvel totalmente elétrico, na Califórnia e no Arizona.
    No fim do ano passado a Toyota lançou o Prius, um carro híbrido que alterna o uso de dois motores, um movido a gasolina e outro a eletricidade.

    Carros híbridos (usam eletricidade e gasolina): O Prius faz 30 quilômetros por litro...

 
    Essa corrida por combustíveis não poluentes e de fontes renováveis preocupa a indústria energética. Mike Bowlin, presidente da companhia americana de petróleo Arco, afirmou recentemente que o mundo está entrando "nos últimos dias da era do petróleo. A demanda global por energia limpa vai crescer mais rápido do que todas as outras demandas por energia, incluindo petróleo e carvão".
    O petróleo responde hoje por 40% da demanda mundial de energia, bem à frente do segundo colocado, o gás natural, com 23%. Apesar dos usos variados, foi por meio do automóvel que o petróleo ajudou a moldar o perfil da economia mundial neste Século. Apenas nesta década, apesar de todos os esforços em contrário, o consumo de petróleo, em todo o mundo, cresceu 14%. A demanda aumentou mais nos países em crescimento. No Brasil, por exemplo, a elevação foi de 25%; na china, 60%. Essas explosões fazem tremer os que temem pelo término das reservas. Estima-se que já tenham sido extraídos 800 bilhões de barris e que ainda reste pouco mais de 1 trilhão de barris a ser explorados, ou seja, quase metade da disponibilidade já foi usada. Mantendo-se os níveis atuais de consumo, os geólogos calculam que os estoques terminem em oitenta anos. Por essa razão é que a corrida por energia limpa está se acelerando.

    Foguetes - De todas as possibilidades já imaginadas e testadas, a fonte alternativa de energia com mais chances de substituir a gasolina é o hidrogênio. A fonte é inesgotável: ele é o elemento químico mais simples e mais abundante na natureza. Também produz muita energia, quase três vezes mais do que a gasolina ou o gás natural. Tanta energia, no entanto, foi um dos desafios que a tecnologia precisou vencer para conseguir armazená-lo com segurança. A solução de torná-lo líquido trouxe outra dificuldade, só vencida com muita pesquisa (o hidrogênio se liquefaz a 253 graus Celsius negativos). Atualmente, o hidrogênio já é usado para movimentar foguetes e onibus espaciais. "Estamos vivendo uma época de transição energética, e o hidrogênio terá um papel dominante no próximo século", diz o americano Seth Dunn, do Instituto Worldwatch, especialista no estudo de sistemas de energia.

    Revista Veja ano 32, nº13.

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