|
Educar no
meio ambiente age sobre o cérebro das crianças.
Em sua primeira conferência após a chegada a Porto
Alegre, dia 22, o físico austríaco e professor da
Universidade de Berkley, Califórnia, Fritjof Capra, falou sobre os trabalhos
do Centro de Eco Alfabetização (Center for Eco
Literacy), dirigido por ele, naquela universidade. O
sistema de alfabetização ecológica, desenvolvido por
ele, já está sendo adotado por diversas escolas da
Califórnia.
A idéia é a de uma educação voltada para a natureza,
colocando as crianças em ambientes abertos, para que
compreendam como se organizam as redes vivas que dão
suporte à vida em todo o planeta. Para explicar a sua
alfabetização ecológica, Capra exemplificou com um
dos projetos adotados, baseado na jardinagem e culinária
com os alimentos cultivados. "A jardinagem integra
e dá vida a todas as atividades da escola. Uma das
características básicas da vida é que a energia flui
através dos seres e dos ciclos ecológicos. Onde se vê
vida, se vê redes. Onde se vê redes vivas, se vê
ciclos", explicou.
A prática da jardinagem e da culinária pelas crianças,
de acordo com ele, as torna conscientes de o quanto estão
integradas nessa rede, ao vivenciarem o processo de
plantio, colheita, processamento dos alimentos,
compostagem das sobras e novamente o plantio, em um
processo que não deixa restos. "Para as crianças,
estar no jardim é algo mágico. Você pode ensinar
qualquer coisa, mas estar ali plantando, colhendo e
cozinhando fica em seus corações para toda a
vida", diz Capra. "No jardim pode-se
acompanhar o processo de nascimento, amadurecimento,
declínio e morte, seguidos de um novo nascimento e
outro ciclo".
Mas além disso, de acordo com o físico, avanços
recentes das pesquisas científicas demonstram que o
aprendizado no jardim tem conseqüências duradouras no
cérebro dos indivíduos. "O cérebro é um sistema
sensível, auto-adaptável e complexo, onde o corpo e a
mente interagem continuamente", explica. "O
crescimento do cérebro é o crescimento de um sistema
complexo de redes neurais e o crescimento da criança
possibilita infinitas conexões nessa rede. Quais conexões
se formarão e os caminhos e funções desenvolvidos
dependerão muito do ambiente da criança. A rede neural
modifica suas conexões conforme o ambiente,
especialmente na tenra idade.
Para Capra, a exposição precoce a um ambiente rico em
experiências sensoriais, com cores, sons, odores e
texturas diversos, terá efeitos benéficos duradouros,
enquanto a repressão disso significará um prejuízo ao
desenvolvimento. Além das experiências, ele apontou
também a importância das emoções, no processo.
"As emoções sempre foram consideradas como
separadas do pensamento. Mas recentemente os cientistas
descobriram que a emoção e a conexão das redes
neurais interagem constantemente", disse. De acordo
com ele, o que aprendemos é, inclusive, organizado
pelas emoções. Durante o desenvolvimento as células
do cérebro se agrupam para adquirir sincronia, em um
processo onde as emoções são essenciais. "Por
isso, é crucial uma aprendizagem socialmente segura,
pois toda aprendizagem é fundamentalmente social, como
já dizia Paulo Freire", afirmou, sendo bastante
aplaudido pela platéia de cerca de 500 pessoas, em um
anfiteatro lotado.
Por fim, Capra apresentou um terceiro elemento que
considera essencial para a aprendizagem, além do
ambiente sensorial rico e da segurança emocional:
comunidades saudáveis. "Isso sugere o
desenvolvimento de um currículo integrado, no qual as
diversas disciplinas estão a serviço de um foco
central", explicou, ressaltando a importância da
comunicação e da interação entre os diversos
professores, pais e alunos, formando uma rede que
coopera na aprendizagem.
A sugestão do físico, para se atingir esse tipo de
ensino é a aprendizagem baseada em projetos. "Essa
aprendizagem baseia-se no envolvimento dos alunos com o
mundo real, então em nossas escolas nós aplicamos essa
aprendizagem baseada em projetos", disse. Para
Capra, a adoção desse novo tipo de ensino, integrando
os indivíduos com o meio ambiente, pode levar ao
desenvolvimento de uma nova geração que, consciente do
seu papel e de sua integração na teia da vida, busque
alternativas para reverter o processo de degradação
que vivenciamos atualmente. "Um novo mundo é possível",
concluiu.
André
Muggiati, REBEA (Rede Brasileira de Educação
Ambiental),
[email protected]
|