BIOLOGIA MOLECULAR

 

ARTIGO CIENTÍFICO – Revista do BIOMÉDICO – JUL/AGO/2001

 

MOSAICISMO CROMOSSÔMICO CONFINADO À PLACENTA

 

Síntia Ioli Nogueira - biomédica e fitogeneticista da APAE.

 

1. Introdução

 

O rnosaicismo é a existência de duas linhagens celulares diferentes geneticamente, presentes em um único tecido ou um único indivíduo, enquanto dever-se-ia esperar o mesmo conteúdo genético, já que ambos foram originados de um único zigoto.

 

O mosaicismo confinado à placenta (MCP), como o próprio nome faz menção. urna anormalidade genética em mosaico presente apenas no tecido placentário, enquanto o feto é genericamente normal.

 

Kalousek e Dill (1983) foram os primeiros a descrever este fenômeno. Estes autores estudaram placentas de gestações que chegaram a termo, de crianças com retardo de crescimento intra-uterino inexplicável.

 

De acordo com a localização da linhagem anormal na placenta, o MCP é classificado em três tipos (Kalousek etal. 990):

 

Tipo I - a linhagem anormal está presente apenas no citotrofoblasto das vilosidades coriônicas;

Tipo II - a linhagem alterada está confinada ao estroma das vilosidades;

Tipo III - linhagem anormal está confinada a ambos.

 

A freqüência do MCP é do 2,2 % das gestações viáveis estudadas por amostras de vilosidades crônicas (Kalousek, 1996), destes 2.2 %, 0.8% é referente ao MCP Tipo I; 0,9% tipo II; 0,2% tipo III e 0,2% de mosaicismo generalizado (mosaisismo presente no feto o na placenta).

 

Figura 1 - Tipos de mosaicismo confinado à placenta - O feto apresenta constituição cromossômica  normal (46 cromossomos); tipo I – linhagem anormal (47 cromossomos) confinada ao citotrofoblasto das vilosidades coriônicas; tipo II – linhagem a anormal (47 cromossomos) confinada ao estroma das vilosidades; tipo III – linhagem anormal (47 cromossomos) confinada a ambos.

 

 

Anteriormente, acreditava-se que o MCP era originado apenas por um erro mitótico do zigoto.

 

Hoje, já se sabe que um erro meiótico seguido de um erro mitótico é o mecanismo mais provável para explicar a sua origem (Wostenholme, 1996).

 

A não-disjunção de cromossomos homólogos ou cromátides irmãs durante a meiose feminina ou masculina, leva ao aparecimento de um gameta trissômico.

 

Se este gameta com um cromossomo a mais for fecundado, durante as primeiras divisões mitóticas do zigoto, poderá ocorrer a expulsão de um cromossomo extra em urna das células deste embrião, na tentativa de voltar a ser normal (dissômico).

 

Desta maneira, algumas células serão trissômicas para um determinado par cromossômico e outras células (descendentes da célula que expulsou um cromossomo) serão dissômicas, Este mecanismo é chamado de resgate trissômico.

 

As conseqüências do MCP dependem do momento da embriogênese (quanto mais precoce, maior a gravidade) em que ocorreu o erro mitótico e qual o cromossomo envolvido.

 

Os cromossomos mais freqüentemente envolvidos são os cromossomos 16, 2, 7, 9, 15 e 22, na ordem decrescente de freqüência.

 

Os efeitos do MCP são bastante variáveis e incluem desde uma gestação normal até um retardo de crescimento (efeito mais freqüete) intra-uterino, podendo chegar a um abortamento espontâneo ou óbito fetal tardio.

 

Das gestações com mosaicismo confinado à placenta, de 16 a 21% apresentam complicações pré e perinatal (Johnson et al., 1990; Breed et al., 1991).

 

Sánchez et al. (1997) relataram um caso (o segundo descrito na literatura) de um feto com mosaicismo confinado à placenta, no qual a linhagem trissômica (trissomia do cromossomo 16) estava presente apenas no citotrofoblasto. Este feto apresentava hidrocefalia, retardo de crescimento, artéria umbilical única, agenesia do corpo caloso e polisplenia.

 

O MCP está bastante associado ao retardo decrescimento intra-uterino (Kalousek et al., 1991; Artan et al., 1995; Wilkins-Hauq, 1995; Leschot et al., 1996; Negueira, 2000).

 

De acordo com Bettaglia e Lubchenco (1967) um individuo com retardo de crescimento intra-uterino É aquele cujo peso se encontra abaixo do 10° percentil para a sua respectiva idade gestacional ou dois desvios-padrão abaixo da média para uma determinada população.

 

O retardo de crescimento intra-uterino é uma importante causa de morbidade e mortalidade perinatais e está presente em 5 -10% das gestações e em 26% ou mais dos natimortos.

 

Com base nestes dados, decidimos realizar este trabalho que possibilitou a constatação da possível relação entre mosaicismo confinado à placenta e retardo de crescimento Intra-uterino.

 

 

2. Objetivo

 

Pesquisar a relação entre mosacismo confinado à placenta e recém-nascidos pequenos para a idade gestacional, além de identificar qual o tipo mais freqüente, bem corno a freqüência dos cromossomos mais envolvidos.

 

 

3. Material e Métodos

 

Foram estudados 3 grupos de recém-nascidos (RN): o grupo 1 foi composto por 10 RN pequenos para a idade gestacional sem causa clinica que justificasse tal fato (principalmente mãe hiper-tensa e/ou tabagista), o grupo, por 11 RN PIG com causa clínica que justificasse esse retardo de crescimento e o grupo 3 de RN adequados para a idade gestacional (controle).

 

Para cada RN foi colhido sangue do cordão umbilical e uma biópsia das vilosidades coriônicas da placenta, no momento do parto.

 

O sangue de cordão foi utilizado para a cultura de linfócitos de 72 horas posterior análise citogenética por banda G.

 

As vilosidades foram separadas em estroma (camada mais interna) e trofoblasto (camada mais externa) das vilosidades coriônicas e submetidas à preparado direta para e realização da técnica do FISH (Hibridação In Situ por Fluorescência).

 

As sondas utilizadas no FISH foram para identificação dos cromossomos 16, 2 e 7 (mais freqüentes no MCP).

 

 

4.Resultados

 

Foram analisadas 100 células metafásicas, em bandamento G, de cada RN, para a identificação de aneuploidias.

 

Esta técnica é fundamental para garantir uma visão geral da constituição cromossôrnica do indivíduo.

 

Todos os RN (3 grupos) apresentaram cariótipo normal e compatível como sexo. Desta maneira, se fossem encontradas aneuploidias, no tecido placentário, isto constataria um MCP (uma vez que estas alterações não estariam presentes no RN).

 

Para a análise da técnica de FISH foram computados 900 núcleos interfásicos para cada RN, sendo que, 450 eram provenientes do estroma (150 para ao cromossomo 2, 150 para o 7 e 150 para o 16) e 450 provenientes do trofoblasto (150 para cada um dos cromossomos).

 

O grupo 1 (RN PIG sem causa) foi o que apresentou o maior número de células aneuploides em comparação com os outros grupos (valores apresentados na TabeIa 1). Esta diferença entre os grupos é estatisticamente significante.

 

 

FIGURA II – Núcleos de células de placenta (com alteração cromossômica numérica) mostrando a presença de 4 sinais equivalentes a 4 cromossomos 16.

 

Tabela 1 – Média do número de células aneuploides por indivíduo.

 

 

As células aneuploides dos indivíduos do grupo 1 estavam em maior número no estroma em relação ao trofoblasto, mostrando que o tipo de mosaicismo mais freqüente é o tipo II (células aneuploides confinadas ao estroma).

 

O cromossomo mais freqüentemente envolvido é o 16 (média de células aneunloides envolvendo o cromossomo 16 por indivíduo foi 13,95), seguido pelo 2 (média = 9,33) e pelo7 (média = 4,55).

 

5.Discussão

 

Muitas patologias ainda permanecem obscuras, algumas sem etiologia conhecida. O retardo de crescimento intra-uterino, assim como o abortamento espontâneo intriga obstetras, neonatologistas, pediatras e geneticistas.

 

A literatura relata uma relação entre MCP e retardo de crescimento intra-uterino, sendo o segundo a conseqüência clínica mais comum do primeiro.

 

Dez por cento de todos os RN têm retardo de crescimento e 40 % destes RN com retardo de crescimento não têm etiologia conhecida. Daí a importância em se conhecer a esta etiologia.

 

Acreditamos que a etiologia do retardo de crescimento seja multifatorial (hábitos e fatores genéticos da mãe e do feto mais a ação ambiental) e estes fatores têm contribuições diferentes no crescimento fetal e baseado em um levantamento de dados da literatura, concluímos que a dotação genética do feto seja o fator mais importante.

 

Os dados discutidos neste trabalho estão de acordo com os relatos da literatura: realmente existe urna relação entre RN pequenos para a idade gestacional e mosaicismo confinado à placenta. Tal mecanismo genético pode elucidar a etiologia do retardo de crescimento de RN que até o momento permaneciam sem explicação.

 

Além disto, estamos compatíveis com trabalhos anteriormente publicados, que constatam que o tipo lI é o mais freqüente dos tipos de MCP e de acordo com Kalousek et al (1991) é o típo que está mais associado ao retardo de crescimento intra-uterino (o tipo l não tem grande influência no desenvolvimento fetal e o tipo lI é bastante raro e muito associado a complicações graves).

 

Os efeitos do mosaicismo, como já dito anteriormente, dependem do momento da embriogênese em que ocorreu o erro e qual o cromossomo envolvido (cada cromossomo possui um conteúdo gênico diferente). Em nossa amostra, o cromossomo mais envolvido foi o cromossomo 16 seguido pelo 2 e pelo 7.

 

O número de crianças com mosaicismo confinado à placenta deve ser bem maior do que o encontrado, uma vez que outras alterações não foram investigadas: alterações numéricas envolvendo outros cromossomos além do 16, 2 e 7; alterações cromossômicas estruturais, dissomia uniparental (cromossomos homólogos provenientes de um único genitor), alterações moleculares (imprinting) entre outras.

 

Mais estudos sobre este assunto ainda são necessários para um melhor entendimento sobre os mecanismos que levam ao mosaicismo confinado à placenta e sua relação como retardo de crescimento intra-uterino e até mesmo com o abortamento espontâneo.

 

Consideramos que as informações deste trabalho sejam úteis para fornecer um esclarecimento possibilitando um melhor atendimento às gestantes e seus filhos.

 

 

6.Conclusões

 

O mosaicismo confinado à placenta está associado ao retardo decrescimento intra-uterino.

 

O tipo de mosaícismo mais freqüente. em nossa amostra é o tipo que tem grande. influência no desenvolvimento fetal.

 

O cromossomo mais freqüentemente envolvido como mosaicismo confinado à placenta é o 16. seguido pelos cromossomos 2 e 7.

 

7.Refereências Blibiográficas

 

ARTAN S. et a!. Confined placental cism in term placentae analvsrs of 125 cases. Prenat. Diaqn 15:1135-1142, 1995.

 

BATTAGLIA,F.C.& LUBCHENCO L.O. A pratical classification of newborn infants by weight and gestacional age. J. Pediatric., 71:159-163, 1967.

 

BREED, A.S.P.M. et al. Folloow up and pregnancy outcome after a diagnosis of mosaicism ín CVS. Prenat Diagn 11:577-580, 1991.

 

JOHNSON, A. et al. Mosaicism in chorionic villus sampling: an assoocition with poor perinatal outcorne. Obsret. Gynecol. 75:573-577, 1990.

 

KALOUSEK D.K. Confined placental mosaicism. Pediatr. Pathol, 10:69-77, 1990

 

KALOIJSEK, D.K. & VEKEMANS, M. Confined placental mosaiosm. J. Med. Genet: 33:529-533, 1996.

 

KALOUSEK. D.K.; DILL, F.J. Chromosome mosaícism confíned to the placenta in human conceptions. Science. 221:665-667, 1983.

 

KALOIJSEK, D.K. et al. Confirmatíon of CVS mosaicism in term placentae and high. frequency of intrauteríne growth retardation assocíation with confined placental mosaicism. Prenat. Diaqn., 11:743-750,1991.

 

LESCHOT. N.J. et al. The outcome of pregnancies wíth corfined placental chromossome rnosaicism in cytotrophoblast Prenat Diaqn., 16:705-712, 1996.

 

NOGUEIRA S.I. Associação entre mosaicismo confinado à placenta e recém-nascidos pequenos para a idade gestacional. São Paulo, 2000 [Tese de Mestrado - Escola Paulista de Medicina].

 

SANCk4EZ, J.M. et al. Severe fetal maltormation associated wíth trissomy 16 confined to the placenta. Prenat Diaqn.  17:777-779, 1997.

 

WILKINS-HAUG, L.; ROBERTS, D.J; MORTON C.C. Confined placental mosaclsm and intrauterine growth retardation: a case-control analysis of placentas at delivery. Am.J. Obstet. Gynecol., 172:44-50, 1995.

 

WOLSTENHOLME J. Confined placental mosaicism for trissomies 2, 3, 7, 8, 9,16 and 22: their incídence, likely origins, and mechanIsms for ceIl Iineage compartimentalization. Prenat Diagn., 16:511-524, 1996.

 

Atualizada em 08/04/2002

 

 

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