�����E o homem inventou o computador. Os jornais da �poca dedicaram uma edi��o especial � nova inven��o, que iria revolucionar o mundo. O mundo dos cientistas. O primeiro computador n�o foi feito pra voc� jogar, ou para eu digitar este texto, mas apenas para projetos cient�ficos.
�����A imprensa marcou uma entrevista coletiva com a nova m�quina. Deve-se lembrar que isto ocorreu l� na casa dos anos cinq�enta, e o computador ainda n�o falava. Ali�s, o computador n�o fazia nada. N�o sei por que causou tanto alvoro�o, mas j� que o causou, vamos relembrar aquela c�lebre data.
�����Os rep�rteres perguntavam o que a m�quina j� podia fazer. Os cientistas respondiam que ela era uma m�quina inteligente, que podia pensar, assim como o homem. Ao pedirem uma demonstra��o, uma pessoa, contratada especificamente para isso, digitou "2+2" e apertou uma tecla grande, chamada ENTER, mais ou menos do tamanho da palma de sua m�o. Sil�ncio no local... todos aguardavam o que a nova revolu��o mundial iria responder. Um rep�rter ainda cochichou que achava que a m�quina n�o servia pra nada, quando surgiu incrivelmente na tela: "3.999999999". "� uma �tima aproxima��o!", gritou um cientista. E os rep�rteres, que ocupavam a rua ao lado (pois o computador era t�o grande e orgulhoso que requeria um pr�dio s� para ele), apenas sussurraram um longo "Ooooh!". No outro dia, a manchete na primeira p�gina: "O computador substitui o professor de matem�tica: basta pressionar uma tecla".
�����E o homem desenvolveu o computador. Foi um capricho dos cientistas, eles o estavam considerando um pouco lento, s� porque, como ele estava acostumado a calcular "2+2", demorou quase tr�s meses para calcular "2+3". E ainda errou.
�����E o homem diminuiu o tamanho do computador. E, por incr�vel que pare�a, ao inv�s dos cientistas ficarem decepcionados, ficavam cada vez mais felizes ao descobrirem que um computador com a metade do tamanho do anterior, conseguia fazer o dobro das coisas que o outro fazia.
�����E o homem viabilizou o computador. Na d�cada de setenta, o computador tomou o tamanho de apenas uma mesa e sua utiliza��o foi se tornando cada vez mais f�cil: qualquer PhD em programa��o utilizava-o com facilidade. Mas n�o estavam conseguindo vender o produto, at� terem uma id�ia de g�nio: criar os joguinhos para computador. Em pouco tempo, cerca de cinco ou seis resid�ncias, s� nos Estados Unidos, j� possu�am computadores pr�prios: um recorde de vendas nesse ramo. Com o apurado, a ind�stria diminuiu ainda mais o tamanho do computador e resolveu increment�-lo � fam�lia.
�����E o homem domesticou o computador. O pre�o do produto caiu muito na d�cada de oitenta. Casas do mundo inteiro j� possu�am computadores. Alguns j� o chamavam de Rex, outros queriam saber como fazer para adquirir seu pedigree, mas o que interessa � que esse bichinho invadiu as resid�ncias de todo o planeta.
�����E o homem aprendeu a usar o computador. Tudo foi se tornando mais f�cil em sua utiliza��o. Qualquer adulto conseguiria utilizar o computador, desde que tivesse um filho por perto para ensin�-lo. Alguns, ap�s anos de utiliza��o apenas em jogos, um dia descobriam, espantados: "Olha, filho, ele tamb�m escreve! Agora entendi pra que � que serve este teclado".
�����E o homem se apaixonou pelo computador. Jovens e adultos de todo o mundo come�aram a utilizar o computador como uma necessidade, n�o s� pra se divertir, mas tamb�m, �s vezes, para trabalhar. Eles passavam o dia inteiro em frente �quela m�quina, na escola ou na empresa, e quando chegavam em casa, iam direto para o escrit�rio ou para o quarto, onde se encontrava outro computador. E ali ficavam por horas e horas, e acabavam por dormir tarde da noite, se ainda dormissem. Aquela m�quina conseguia fazer tudo o que eles precisavam, lhes dava prazeres, lhes dava recursos para o trabalho, fazia c�lculos, servia como enciclop�dias, dava acesso a outros computadores de todo o mundo... mas faltava alguma coisa naquela m�quina. Alguma coisa, que ningu�m sabia o que, mas que ali n�o estava presente. Os homens come�avam a se perguntar o que estava faltando: seria um programa novo? Uma nova forma de acess�rio? Seria algum tipo novo de prazer?
�����E a mulher desligou o computador.