O Destino dos Solitários

Capítulo 4
O JOGO FURADO

         Em uma fração de tempo ele saiu do banho, e suas roupas estavam dobradas em um canto. Ele as vestiu, e viu que era uma blusa social preta e uma calça social da mesma cor. Achou aquele tipo de vestimenta muito estranha, mas pensou que com sua capa, as coisas ficariam melhores. Saiu do quarto secando os cabelos, e encontrou Katie, aparentemente mais amigável.

         - Estas roupas ficaram bem em você – disse segurando um sorriso. – Mas fica mais elegante usar o colarinho um pouco aberto, a não ser que vá usar gravata – completou, abrindo dois botões da blusa.

         - Não gostei dessas vestes, quero as minhas antigas de volta – disse um pouco emburrado.

         - Estão lavando, eu sinto muito – rebateu com falsa pena. – Mas então, o que vai querer comer?

         - Sinceramente? Estou sem um pingo de fome, quero saber para onde vamos.

         - Seria um passeio amigável, mas como me deixou plantada a tarde inteira, não tenho mais certeza – Katie parecia muito ofendida com a atitude dele.

         - Já disse que não foi culpa minha – repetiu ele, impaciente. – Agora diga, onde vamos?

         - Minha amiga chamou-me para vermos a final do campeonato estadual, e deu entrada para nós dois. Achei que seria muito tarde para voltar sozinha, por isso te convidei – disse fingindo não ter importância.

         - Não garanto que eu vá apreciar o passeio, pois não sou fã dos esportes trouxas, mas posso tentar.

         Essa frase de Snape fez Katie dar um sorriso. Ela pegou seu sobretudo e caminhou até a porta, as chaves seguras na mão esquerda.

         - Pensei em irmos a pé, para apreciarmos o decair da noite – disse, deixando-o passar. – E também, acho que não saberia ir a cavalo.

         - E não é perigoso voltarmos a pé?

         - Não – respondeu displicentemente. – Uma varinha e um bruxo experientes não são sinônimos de problemas – disse confiante. – Ou será que é?

         - Eu não teria tanta certeza de segurança absoluta, senhorita – respondeu um pouco distante.

         - E por que não? – ela quis saber, curiosa e preocupada ao mesmo tempo.

         - Não é nada – ele balançou a cabeça rapidamente, como se afastasse pensamentos indesejáveis.

         - Quando quiser falar sobre isso, estarei pronta para ouvir – finalizou, trancando a porta.

         Os dois começaram a caminhar na direção contrária da Floresta Proibida, Snape apenas seguindo o caminho feito por ela. Ela colocou as mãos no bolso, checando se as entradas ainda estavam ali.

         O tempo esfriava cada vez mais, e o sol começava a se pôr, começando a escurecer a estradinha de terra pela qual passavam.

         - É melhor irmos um pouco mais depressa, ou podemos chegar tarde – avisou, apressando um pouco o passo.

         Snape a seguiu sem dizer uma palavra. Ficara pensando a maior parte do tempo se deveria contar o que acontecera para Katie, e se a resposta fosse positiva, o que exatamente iria contar. Não sabia como ela reagiria se dissesse que Comensais o pegaram e... era melhor nem pensar naquilo.

         Aos poucos foram aproximando-se do povoado, com várias luzes já acesas. A noite os pegara rapidamente, e a temperatura caíra bruscamente. Katie puxou Snape quando viu uma pequena multidão se aproximando de um grande estádio coberto.

         - Por que a pressa? – perguntou Snape, apressando o passo para segui-la.

         - Oras, temos que pegar um bom lugar – disse rapidamente, o puxando mais ainda.

         Tiveram que esperar em uma grande fila. O movimento era lento, e Katie não agüentava em si de tanta ansiedade. Era a primeira vez que via um jogo de tamanha importância, e mal podia esperar.

         - Katie, isso vai demorar muito? Não podemos simplesmente aparatar lá dentro? – perguntou Snape inquieto, colocando as mãos no bolso.

         - Claro que não, bobinho – respondeu divertida. – Temos que mostrar os ingressos para entrar, e respeitar a fila.

         Ele cruzou os braços, em explícita desaprovação.

         A fila começou a andar mais rápido, e logo os dois entraram no estádio. Katie puxou a mão de Snape com força, para localizar um bom lugar para os dois. O campo era grande, e em volta dele havia arquibancadas que iam desde a fila próxima ao campo até a que quase tocava o teto. Ele achou muito estranha a maneira como as pessoas se comportavam, quase acotovelando-se para achar um lugar bom.

         Katie conseguiu um lugar na quinta fila, coisa que achava ótima. Ambos sentaram-se e passaram a olhar o campo distraidamente.

         - A que horas começa esse tal jogo?

         - Acho que lá para as sete horas – respondeu, consultando as entradas. – Mas por que a pressa?

         - Nada, nada... – respondeu vagamente, observando melhor o local.

         Passaram-se alguns minutos de espera, e Katie remexeu-se desconfortavelmente em seu assento. Isso fez com que Snape olhasse para ela, e perguntasse o que estava acontecendo.

         - Estou com fome – resmungou em resposta, procurando alguma lanchonete. – Vou comprar alguma coisa para nós, vai querer?

         Enquanto falava ela já se pusera de pé, e apenas esperava uma resposta para sair correndo.

         - Não espere que vá me deixar aqui sozinho – disse rapidamente, pegando o braço dela e puxando-a de volta.

         - Alguém precisa ficar guardando lugar, e se você quer ir, fico aqui.

         - Não podemos ir juntos?

         - Claro que não – disse veemente. – Se sairmos, vão pegar nossos lugares, com certeza – e fez uma pequena pausa. – Tome, vá comprar para nós.

         Ela colocou um punhado de notas na mão de Snape, que olhou confuso para ela.

         - O que eu compro?

         - Bem, compre dois refrigerantes – disse enquanto fazia as contas. – Pode pegar qualquer um, mas eu quero uma coca, os outros sabores costumam ser ruins. E... – ela parecia um pouco indecisa – também quero um cheeseburguer caprichado, e também uma barra de chocolate.

         - E como espera que eu saiba o que são essas coisas? – perguntou bravo.

         - Não é você quem quer ir comprar? – perguntou astuta – Então, deve saber o que é. E pode pedir qualquer coisa para você, contanto que o dinheiro dê. E não esqueça de conferir o troco – ela dava conselhos para Snape, já sabendo que ele desistiria, por não entender nada do que estava falando.

         - Katie, você sabe muito bem que não conheço o dinheiro dos trouxas – respondeu emburrado, sentando-se ao lado dela. – E é melhor que vá comprar, posso esquecer de alguma coisa – completou, entregando o dinheiro.

         - Eu sabia – disse vitoriosa. – E então, o que vai querer?

         - Qualquer coisa, contando que seja comestível – balbuciou, ainda muito bravo com a situação.

         - Então eu já volto – disse sorridente, antes de sair correndo pelas filas.

         Snape passou a observar o local, ainda com uma expressão mal-humorada. Reparou nas pessoas usando vestimentas estranhas, totalmente coloridas e chamativas. Depois ficou remexendo-se no banco impaciente, esperando Katie aparecer. Ela só apareceu no meio da multidão um tempo depois, tentando impedir que os refrigerantes caíssem no chão. Sentou-se ofegante ao lado de Snape, e ofereceu-lhe um copo.

         - Cadê o seu chisoburguer? – perguntou Snape ironicamente, vendo-a apenas com os copos de refrigerante.

         - Perdi a fome no meio do caminho – disse Katie dando de ombros. – Olha, trouxe para você uma coca-cola e uma barra de chocolate – completou entregando-lhe.

         - E o que seriam essas coisas?

         - Bem, a coca está no copo, e é um refrigerante, uma bebida gasosa. O chocolate é feito a partir do cacau, e é muito doce e gostoso, só que dá muita sede. Aposto que vai gostar – disse com pose de professora.

         - Muito engraçado – retrucou sério, encarando o que tinha nas mãos.

         - Ora Severo, coma logo! – disse impaciente, fitando-o – Se estou te dando, pode ter certeza que é comestível, se não eu não estaria comendo!

         Snape ia retrucar, mas viu-a colocando um grande pedaço do tal chocolate na boca, e depois de mastigar, tomar um longo gole da bebida. Acabou desistindo e contendo-se em experimentar.

         O chocolate até que era bom, mas achou aquela coca-cola muito forte. Fez uma careta quando a bebeu, e Katie começou a rir. Ele ficou bravo com o riso dela, e perguntou, mostrando que desaprovava.

         - O que há de tão engraçado?

         - Bem... você fez uma careta engraçada – disse tentando controlar o riso, mas sem muito sucesso.

         - Muito bem senhorita, está em detenção – Snape disse letalmente, esquecendo-se que não estava em Hogwarts e que Katie não era mais uma grifinória desobediente.

         Katie olhou para ele, agora sem nem sinal de riso. Estava séria, e com uma sobrancelha erguida, o que demonstrava que não tinha entendido uma palavra do que ele dissera.

         - Por que eu deveria estar em detenção? – perguntou cautelosa, como que experimentando o terreno.

         - Não é nada, esqueça – disse rapidamente, encarando os sapatos.

         - Isso tem a ver com alguma coisa de onde você mora ou trabalha? – ela insistiu, insatisfeita com a resposta evasiva de Snape.

         - Na realidade, tem sim – retrucou mal-humorado. – Sou professor de Hogwarts e diretor de uma das casas, tenho o direito e a obrigação de punir alunos desobedientes – sua voz voltara a ser suave e perigosa, como se estivesse dando uma bronca em Harry Potter e seus amigos; seu ar superior mais do que explícito.

         - E me julgou como uma dessas alunas desobedientes? – desafiou, mas sentindo-se ofendida por dentro.

         - Katie, olhe, não é bem assim como você pensa e... – ele tentava consertar, levemente sem jeito, mas ela o interrompeu com um gesto.

         - Tudo bem, esqueça isso – falou em tom definitivo, encerrando a conversa.

         Snape ficou mais carrancudo que sempre. Cruzou os braços e tentou passar o tempo encarando perigosamente o estádio, como se esperasse o jogo começar. Já Katie ocupou-se em terminar o chocolate e o refrigerante, ainda muito ofendida com a postura que ele tomara naquele momento. Sentia-se injustiçada por ser comparada a um aluno bagunceiro, sendo que nem tivera a oportunidade de estudar na mais conhecida escola de magia do Reino Unido. Se ao menos tivesse uma chance... faria de tudo para que merecesse.

         A “guerra silenciosa” continuou por mais uns dez minutos, até que as luzes se apagaram na arquibancada e acenderam-se no meio do estádio. Katie esqueceu que estava brava com Snape, e puxou-o, fazendo-o ficar de pé, como toda a torcida, que gritava incansavelmente.

         - Vai começar, vai começar! – comentou ansiosa, quase pulando na ponta dos pés.

         Uma voz surgiu num alto-falante. Snape não entendia nada. Perguntava-se se os trouxas tinham conhecimento do feitiço para ampliar a voz, para conseguirem falar tão alto.

         “Vejo que hoje a torcida está animada” comentou o alto-falante animado “Espero que continuem assim. Esta noite, acontecerá um fato histórico para esta cidade, um jogo dos times do campeonato estadual!” a torcida se descontrolou mais ainda “Queiram dar as boas vindas para os favoritos deste campeonato, os Bulders Canions e os Fashed Ballons!”

         A torcida foi à loucura. Os dois times adentraram no campo, com seus uniformes distintos. Os Bulders Canions usavam uniforme azul escuro, e os Fashed Ballons vestiam verde claro. Katie pulava incontrolavelmente, e Snape a segurou pelos braços, não querendo passar vergonha. Ela olhou-o brava e tirou as mãos deles de seus braços, continuando a pular e gritar.

         “Mas como todos devem saber” o auto-falante voltou a falar, tentando se sobrepor ao barulho ensurdecedor “, esta é apenas um amistoso, pois os dois times já se enfrentaram no campeonato, e tiveram um emocionante empate!”

         Katie pareceu afundar em seu banco. Então não era uma partida oficial do campeonato? Apenas um amistoso para alegrar a cidade? E Melody não tinha aparecido? Enfureceu-se instantaneamente. “Melody sabia que não era um jogo de verdade, só me deu convites para ver minha cara de desolada” pensou com raiva, enquanto observava o juiz se aproximar do meio de campo, segurando o apito e a bola.

         - Algum problema? – perguntou Snape, observando a expressão de profundo ódio no rosto de Katie.

         - Melody disse que seria a final do campeonato estadual, e o que temos aqui? Um simples amistoso! – explodiu Katie, bufando.

         - E qual a diferença? – ele não entendia o motivo de tanta braveza.

         - Qual a diferença? – ela repetiu, incrédula – Severo, esse era para ser um jogo emocionante, não um simples amistoso, que não vale nada!

         - Você não devia se preocupar – ele disse, sabiamente. – Para quê se importar com jogadores correndo atrás se uma bola se pode desfrutar de minha indispensável companhia?

         Katie não resistiu ao comentário dele. Desfranziu a testa e começou a rir, abraçando-o levemente.

         - Severo, assim você me mata de rir! – disse sorrindo. – Só você mesmo para me animar, muito obrigada!

         - Eu sei que sou o melhor – disse em falso otimismo.

         - Mas não venha todo convencido para cima de mim, viu? – alertou, fingindo-se brava.

         - Tudo bem, não está mais aqui quem falou – defendeu-se, sorrindo levemente. – Mas só falei a pura verdade, sei que minha companhia é a melhor, pois quis até me trazer a esse fiasco só para poder conversar comigo.

         - Há, há, há – disse sarcasticamente. – Convencido, convencido... – cantarolou, só tirando uma com a cara dele.

         Snape sorriu levemente, não acreditando em como a garota fazia e falava coisas engraçadas. Katie ficou encantada com o sorriso dele, mesmo que fosse um pequeno sorriso. Achava que aquilo iluminava seu rosto, fazia parecer que era mais novo, com mais animação pela vida. Sua maior dúvida era porquê ele fazia aquela barreira fria, para ninguém se aproximar demais. Sentia vontade de descobrir o que o fizera se tornar assim, e ajudá-lo no que estivesse em seu alcance. Memorizou isto, para falar com Dumbledore.

         Os dois não falaram muito depois disso. Katie olhava distraidamente para o jogo, mas sem realmente tomar conhecimento do que acontecia. Snape estava um pouco interessado com o jogo, mas achava aquilo extremamente monótono, se comparado ao quadribol.

         O jogo foi passando, e logo chegou a hora do intervalo entre o primeiro e o segundo tempo. Katie estava tão entediada que até bocejava. Deixou-se cair lentamente para o lado, quase se escorando no ombro de Snape.

         - Está com sono? – ele perguntou, percebendo sua ação preguiçosa.

         - Não – respondeu sonolenta, bocejando. – Só que isso está um tédio.

         Ele não respondeu imediatamente. Em um ato impulsivo, puxou-a para mais perto de si, e deixou-a repousar a cabeça em seu peito, ficando um pouco mais confortável.

         - Obrigada – balbuciou, se aconchegando melhor.

         Ele ficou afagando o cabelo dela, de um jeito até carinhoso. Ela estava gostando muito daquilo, quase sorria. Estava contente de saber que ele ainda conseguia demonstrar algum sentimento positivo.

         O tempo passou e o segundo tempo já começara. Katie continuava confortavelmente nos braços de Snape, e ele tentava parecer indiferente a isso. Um pouco depois, ela mexeu-se desconfortavelmente, o que despertou a atenção de Snape.

         - Sou tão desconfortável assim? – perguntou ironicamente.

         - Não, não é isso... – respondeu Katie, tentando acordar – Mas é que cansa ficar sem fazer nada, estou enjoada de ficar parada.

         Ele fez um falso ‘ah’, como se concordasse com ela.

         - Então o que a senhorita inquieta gostaria de fazer?

         - Eu iria embora, mas não podemos sair antes do fim do jogo – disse indiferente. – Então poderíamos conversar! – completou animada, virando-se para olhá-lo.

         - Hum... certo. Conversar – ele repetiu, falsamente pensativo. – Sobre o que conversaríamos, então?

         - Eu posso finalmente te responder suas perguntas – disse com voz marota, desafiando-o.

         - Isso por um acaso é algum tipo de chantagem? – rebateu Snape, desconfiado.

         - Não falei nada de chantagem – ela fazia cara de inocente.

         - Tudo bem – ele cedeu. – Por onde vai começar a me explicar?

         - Bem, acho que pelo começo, né? – ela disse obviamente. Snape fechou a cara – Certo, certo, vou parar com as brincadeiras – completou, derrotada. – Contarei tudinho, prometo, e saberá finalmente por que é adulto e eu não.

         Snape estremeceu levemente. Parecia apreensivo para saber essa informação, mas ao mesmo tempo tinha um certo receio em descobrir.

         - Conheço isso desde pequena, eu acho. No começo não entendia muito bem, e podia ficar um bom tempo perdida, mas conforme fui crescendo comecei a entender o que se passava.

         - Gostaria de saber do quê está falando – cortou Snape, enfurecido por ter de ouvir e descobrir os enigmas que ela falava.

         - Espere, Severo, já vou chegar lá – disse Katie impaciente, não querendo ser interrompida. – Bem, isso sempre acontecia quando eu estava muito brava, ou chateada com alguém. Mas com o tempo fui aprendendo a controlar e a decidir a que hora queria que acontecesse.

         - Vai ficar rodeando o assunto sem dizer nada realmente? – perguntou, já ficando nervoso por tantos rodeios.

         - Já vi que não vai ficar calado até que eu diga, não é? – Katie também começava a ficar brava.

         - Exato – respondeu displicentemente.

         - Certo, eu digo! – disse derrotada, jogando as mãos para o lado. – Severo, eu posso viajar no tempo.

         - Você o quê?! – ele perguntou, chocado com o que ouvira, ou o que pensou que ouvira.

         - Shhh – pediu, para ninguém ouvir. – Sim, Severo, eu posso viajar no tempo.

         - Como isso?

         - Bem, como já disse, no começo eu não sabia bem o que era, achava que estava sonhando. Ficava dias em outra época, para só depois eu voltar para a época certa. Foi assim até uns oito, nove anos. Fiquei cansada da vida que tinha e decidi mudar definitivamente de tempo – explicava Katie, em tom baixo.

         - E qual é sua verdadeira época? – ele estava estupefato, quase não acreditando no que ouvia, e também curioso para saber mais.

         - Bem, eu não tenho absoluta certeza, mas acho que estou na época certa, ao menos pelo que me lembro.

         - Então nosso encontro no passado não deveria ter acontecido?

         - Rigorosamente? – ela perguntou, querendo confirmar – Não, não deveria. Na realidade, quando decidi mudar de época, não escolhi muito para onde iria, mas acabei caindo no mesmo tempo que você, quando “criança”. Um velhinho morava naquela casa, e me acolheu gentilmente. – ela parecia relembrar tudo enquanto contava – Bem, ele morreu depois de algum tempo, e deixou tudo o que tinha para mim, por ser sozinho. Continuei morando por ali, para não fazer desfeita ao que ele me dera.

         Snape permanecia em silêncio, apenas ouvindo todos os relatos. Não achou prudente interromper a história, já que ela se dispusera a contar tudo.

         - Um belo dia, acabei te encontrando, saindo sozinho, do meio da floresta. O que achava que estava fazendo? A floresta é muito perigosa, ainda mais de noite!

         - Ora, não me venha dar sermão – retrucou, aceitando o comentário como um puxão de orelha.

         - Não estou dando sermão, só quero saber – rebateu, sorrindo ironicamente. Snape ficou mais bravo ainda, pois ela sabia como irritá-lo, e conseguia com êxito. – Eu tenho o direito de saber, não tenho?

         - Tudo bem – disse um pouco emburrado. – Eu precisava de raízes de samambaia colhidas em uma noite de lua-cheia. Acabei não encontrando-as, por causa do lobisomem.

         - Um lobisomem? – perguntou assustada – Ele não te mordeu, não é?

         - Você não tinha visto? Ele chegou a me arranhar, mas não conseguiu me morder, o que foi uma sorte.

         - Certo, já entendi – disse Katie, querendo continuar a história. – Bem, quando você foi, realmente achava que iria voltar algum dia – seu olhar agora parecia um pouco distante. – Mas esperei, esperei, esperei... acho que mais de um ano, até. Da pior maneira possível descobri que você não viria mais, então voltei para o tempo atual, e passei a viver nesta casa desde então.

         - Desculpe – murmurou, levemente arrependido.

         - Não posso te culpar. Aliás, posso, mas não quero te deixar com mais um remorso – disse levemente, mas morrendo de vontade de saber por que não a visitara. – Bem, o que importa é que passei a viver aqui, até que achei que estava na hora de te encontrar novamente, depois de tudo que senti você sofrer.

         - Você parou de sentir, quando mudou de tempo, não é? – ele perguntou receoso, torcendo para a resposta ser positiva.

         - Não, não... – disse com veemência – Só ficou pior, se me permite dizer. Como não estava te acompanhando cronologicamente, o tempo passava de modo diferente, e o que acontecia com um grande espaço de tempo para você, acontecia em um espaço bem menor de tempo. Não te culpo, se quer saber, eu é quem não devia ter feito o que fiz.

         Snape ficou calado por um tempo, absorvendo tudo o que acabara de ouvir. Estava surpreso, aliás muito surpreso por saber que Katie podia viajar no tempo, e desconfiava brevemente o motivo dela ser importante para Voldemort. Depois sentiu-se na obrigação de contar o que acontecera em Hogsmeade, ficaria com um peso na consciência por não dizer nada.

         - Katie – ele a chamou lentamente. – Eu ocultei algumas coisas que aconteceu em Hogsmeade...

         - Eu sabia disso – sua voz quase não foi ouvida, mas ele sabia perfeitamente o que ela dissera. – Mas o que aconteceu? – ela tentava parecer levemente interessada, fitando-o carinhosamente, mesmo com a sensação estranha em seu peito.

         - Bem... houve um ataque em Hosmeade – Katie soltou uma exclamação silenciosa. – Foi pouco depois que cheguei, nem tinha chegado até os correios. Vários Comensais apareceram e... – ele sentia-se embaraçado para falar dos Comensais, incerto se ela saberia tudo sobre eles, e conseqüentemente, sobre ele também.

         - Já ouvi falar neles, mas nunca consegui me aprofundar no assunto... Quem são eles, exatamente, Severo?

         - São servos de Voldemort, já ouviu falar nele, né? – Katie concordou e ele continuou – Eles se auto-intitularam assim, e normalmente aparecem para causar o pânico e o caos.

         - Então eles devem ser terríveis! – exclamou horrorizada.

         Snape achou que aquelas palavras penetraram fundo em seu ser como uma espada afiada, e que causara muita dor em si mesmo. Esforçou-se para parecer alheio ao assunto Comensais, mas não tinha certeza se conseguiria com muito sucesso.

         - Bem... eles trabalham para Voldemort, então não são anjinhos.

         - Certo – ela fez uma pequena pausa. - O que eles fizeram? Não te machucaram, né?

         - Eles tentaram roubar tudo o que podiam, e também torturar algumas pessoas. Acabei me envolvendo na confusão involuntariamente. Quando me recusei a ajudar, eles quiseram me torturar, e roubar o que tinha.

         - Severo! – exclamou, completamente em pânico – Como te torturaram? Por isso que estava com as vestes meio rasgadas, eu sabia que tinha acontecido alguma coisa!

         - Calma Katie, não foi nada de mais – Snape apressou-se a tranqüilizá-la, mas sem muito sucesso. – Eles tentaram usar Cruciatos em mim, e até conseguiram, mas eu consegui resistir. Depois de pegarem boa parte do dinheiro dos visitantes, alguns aurores apareceram e eles foram embora. Aí consegui mandar minha coruja para Dumbledore, relatando o ataque, também.

         - Mas você não está machucado, está? – ela pergunta, ainda não convencida completamente.

         - Já disse que não – afirmou Snape, convicto.

         - Então deixa eu ver – pediu Katie, aproximando sua mão dele.

         Katie instintivamente foi levantar a manga da capa de Snape, mas ele colocou a mão sobre a mão dela, rapidamente.

         - O que foi? – perguntou confusa, encarando-o.

         - Nada, nada – disse rapidamente, empurrando a mão dela para fora de seu braço.

         - Ora, se não é nada me deixa ver! O que está escondendo aí? – insistiu, voltando sua mão para o braço dele.

         - Não é nada Katie, e não insista! – resmungou em voz definitiva, tirando a mão dela com força – Não é nada mesmo. Só não gosto que fiquem vendo meu braço.

         - Hunf – resmungou a garota, cruzando os braços e olhando para a frente, emburrada.

         O jogo acabou pouco tempo depois da última discussão. Katie puxou a manga de Snape apressada, querendo logo sair daquele estádio. A confusão foi imensa. Todos queriam sair ao mesmo tempo, mas estava muito difícil ter passagem por entre vários jogadores que comemoravam a vitória dos Bulders Canions.

         Levaram quase meia hora para saírem, e conseguiram respirar ar fresco, finalmente.

         - Estava ficando sufocada com tanta gente nos empurrando! – reclamou Katie, abanando seu próprio rosto.

         - Agora podemos ir embora? Não agüento mais esses trouxas estranhos – disse Snape, olhando com desdém para um que passava soprando uma corneta.

         - Licença, Severo – ela o cutucou, brava. – Não sei se você sabe, mas sou trouxa também, sim?

         - Desculpe Katie – ele disse quase sem arrependimento. – Mas você é uma trouxa comum, você tem dons especiais.

         - Mas continuo sendo trouxa – repetiu, indisposta a dar o braço a torcer.

         - Não vamos discutir com isso – finalizou, vendo que nenhum dos dois desistiria da batalha. – Eu só quero descansar um pouco.

         Começaram a caminhar para fora da cidade até a casa de Katie. O caminho correu bem, até que começou a chover, quando estavam quase saindo da cidade e já não viam quase nenhuma pessoa caminhando no mesmo caminho que eles.

         - Oh não! – disse Katie, exasperada – Precisamos arranjar alguma proteção, espero que a chuva passe logo.

         Eles correram à procura de alguma cobertura, mas não acharam nada. A chuva aumentou rapidamente, e logo estavam quase ensopados.

         - Severo, use sua varinha e arranja um guarda-chuva! – pediu Katie, pulando nas pontas dos pés, sua roupa ficando mais gelada.

         - Um o quê? – perguntou ele, confuso.

         - G-u-a-r-d-a-c-h-u-v-a – soletrou lentamente para ele entender.

         - Mas eu não sei como é um guarda-chuva, como vou transfigurá-lo?

         - E eu que sei? Use outro feitiço, traga um guarda-chuva até aqui, sei lá, mas faça isso logo! – Katie começava a ficar impaciente, tremendo com o frio.

         - Accio guarda-chuva! – disse Snape assim que pegou a varinha, e logo um guarda-chuva preto veio voando na direção deles. Era ligeiramente menor do que ele esperava, e mal caberiam os dois embaixo daquilo.

         - Ótimo – ela disse, abrindo-o. – Olha, é um pouco pequeno, mas acho que podemos agüentá-lo até em casa.

         - Não precisa. Você vai, e eu vou depois – ele disse rapidamente, cobrindo-a da chuva.

         - Como você vai depois? – ela perguntou, exasperada – Severo, entre aqui embaixo logo, pode pegar um resfriado.

         - Vai Katie – disse determinado – Eu aparato na frente da sua casa, não vou pegar muita chuva.

         - Mas Severo, eu... – ela começou, mas ele a interrompeu, empurrando-a para frente.

         - Vá!

         A chuva caía como tempestade agora, e chegava a trovoar. Katie ainda deu uma última olhada para trás antes de começar a andar, segurando o guarda-chuva com força. Não chegou nem a caminhar dez passos, voltou correndo para onde Snape estava prestes a aparatar.

         - Katie, eu mandei você ir! – ele berrou, na tentativa de se sobrepor a um trovão.

         - Não posso, Severo – disse com convicção.

         - Eu já disse que vou aparatar lá, agora vai!

         - Para quê ser tão orgulhoso? – perguntou em voz alta – Não pode ao menos uma vez em sua vida aceitar uma ajuda, ao invés de fazer tudo sozinho? Será que não sou humana o suficiente para poder te ajudar?

         - Não venha jogar na minha cara que sou orgulhoso, eu sei disso muito bem – ele retrucou, imensamente bravo por ela ter dito isso.

         - Que bom que sabe, agora deixe-o aí e venha para debaixo desse guarda-chuva! – disse em voz autoritária – E além do mais, você sabe melhor do que eu como é perigoso aparatar em tempestades!

         Snape não respondeu, sabia que estava vencido. E pior ainda, ela fizera questão de pisar nele o quanto podia, e isso o deixava possesso. Ficou ao lado dela, mas o guarda-chuva mal cobria os dois. Ela o olhou de um modo significativo, e ele virou os olhos em desaprovação.

         - Não espere que eu também faça isso, é demais para um dia só – disse em tom séria.

         - Eu realmente não quero ficar resfriada, e acho que você também. Será que é tão difícil assim? Não é não, é apenas um abraço, que não significa nada. E eu também estou com frio, você pode me aquecer um pouco – disse determinada, mas em tom inocente.

         Ele bufou levemente, tendo vontade de castigá-la por estar fazendo isso com ele. Lentamente, passou um braço por trás do ombro de Katie, e a abraçou levemente.

         Ela aproveitou a oportunidade. Puxou-o para mais perto, de modo que os dois ficassem bem seguros, sem pegar chuva. Recostou sua cabeça no peito dele, e puseram-se a caminhar até a casa de Katie, que parecia muito distante dali.

         Nenhum dos dois poderia dizer que não gostaram do passeio. Snape sentiu um formigamento engraçado em sua barriga, um pequeno calorzinho que não lembrava que existia, uma pequena, é verdade, mas uma sensação de conforto que pareceu o encher por um tempo. Katie estava adorando aquilo. Nunca sentira-se tão protegida, tão completa antes. Sempre sonhou em encontrar alguém que pudesse a deixar mais tranqüila com o mundo, e parecia que finalmente tinha conseguido.

         Não souberam dizer quanto tempo demorou para chegarem em casa, mas acharam que fora muito pouco tempo. Katie abriu a porta e acendeu a luz, e quase levou um susto com o que viu.

         Uma enorme coruja estava pousada sobre sua poltrona, e segurava em suas patas um pergaminho enrolado.

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