Harry Potter e a Luz Sagrada
Capítulo 1
NA RUA DOS ALFENEIROS
Era mais uma noite da rua dos Alfeneiros, e não poderia existir casa
mais normal do que a de número 4. Seus habitantes eram completamente normais, e
vivam na mesma rotina de sempre. Válter Dursley, o dono da moradia, era um
homem corpulento, com pescoço de menos e bigodes de mais. Trabalhava em uma
empresa de Brocas, e sua vida era perfeitamente normal. Sua mulher, Petúnia,
era praticamente o contrário do marido: tinha um longo pescoço e cara de
cavalo. Eles tinham um filhinho, Dudley, o Duda, que agora tinha 15 anos e
estava mais gordo do que nunca. Tinha um cabelo louro espesso que ficava
achatado na testa, com uma franja enorme, e tinha focinho de porco.
Se fosse contar só por isso, a família Dursley seria a mais normal do
mundo, mas eles escondiam um segredo. Um segredo que acabaria com toda a
normalidade da casa. Eles tinham outro adolescente em casa, mas que nunca era
mencionado. Seu nome era Harry Potter, e tudo o que se podia imaginar de
anormal, ele possuía. Era o contrário de Duda: magro, com olhos verdes e
cabelos negros que estavam sempre despenteados, apontando para todas as direções.
Mas não era por falta de cuidado: Sempre que tentava pentear o cabelo, ele
voltava para a mesma posição.
Mas o que deixava os Dursley apavorados era que Harry Potter era um
bruxo, e freqüentava a Escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts. No seu armário
estavam trancados um malão, cheio de livros de bruxos, uma vassoura de corrida
– uma Firebolt, o último modelo -, uma varinha e tudo o que se pode imaginar.
Encarrapitada em uma espaçosa gaiola, estava uma enorme coruja branca com olhos
âmbar. Mas nada disso era suficiente. O que fazia Harry Potter mais anormal do
que qualquer outra pessoa, não eram a varinha ou um caldeirão, mas sim uma
fina cicatriz em forma de raio, que se localizava em sua testa. Era uma lembrança
de seu misterioso passado, onde enfrentou o temido Lord Voldemort pela primeira
vez, e enquanto o bruxo das trevas foi reduzido a quase pó, Harry saiu somente
com essa cicatriz, que é o motivo dele ser uma pessoa muito famosa.
Porém, de nada adiantou ter derrotado Voldemort uma vez, depois de
longos anos tentando, ele finalmente voltou à vida, mais poderoso e mais
amedrontador do que nunca. Isto aconteceu no ano anterior, onde Harry participou
de um torneio, o famoso Torneio Tribruxo. A final desse torneio, que foi quando
Voldemort ressurgiu, ainda continuava a atormentar Harry em seus constantes
pesadelos.
E essa manhã começou do mesmo jeito. Harry levantara suando frio, com a
mão em sua cicatriz, que doía novamente, como se estivesse revivendo o dia.
Mas o que mais atormentava Harry era que nessa noite, Cedrigo Diggory tinha
morrido nas garras de Voldemort, e só de pensar que ele tinha sido o culpado, não
conseguia se perdoar nunca, mesmo com todos os consolos de seus amigos.
Harry resolveu se levantar. Não adiantaria querer dormir novamente com o
sol da manhã lhe cegando. Olhou para o relógio e viu que ele marcava sete
horas. Levantou sem fazer barulho e se dirigiu à uma taboa solta do assoalho,
onde guardava coisas secretas, e mais uma vez ela se mostrou útil. Pegou uma
carta escrita em pergaminho um pouco gasto e resolveu ler novamente. Era uma
carta de seu padrinho, Sirius Black, que no momento encontrava-se foragido, e
fora culpado por um crime que não cometeu.
“Caro
Harry,
Como vai na casa de seus tios? Eles não estão te maltratando, estão?
Se qualquer coisa estiver acontecendo de errado, mande me avisar. Edwiges saberá
me encontrar.
Mas não estou mandando essa carta para isso. Estou a enviando para
avisar que estou bem, e que não precisa se preocupar comigo. Passei umas
semanas na casa de Aluado, estamos trabalhando para ajudar Dumbledore... É uma
missão secreta, por isso não posso te contar. Assim que tiver tempo lhe
escrevo novamente.
E como vão Rony e Hermione? Já teve notícias deles nessas férias?
Olhe, Dumbledore me pediu para avisar que talvez não dê para você passar um mês
na casa de Rony, por causa dos últimos acontecimentos no mundo bruxo. Sabe
Harry, você nos entende, não é? Não queremos que corra perigo... Quando
Dumbledore autorizar, você poderá ir para a casa dele.
Termino por aqui, estou muito ocupado. Prometo que manterei contato. Qualquer coisa mande me procurar.
Sirius"
Harry adorava ler a carta do padrinho, mas indignava-se do fato de não
poder passar o restante das férias na casa de Rony, que era seu melhor amigo.
Também pensava em quando conseguiriam pegar Pedro Petiggrew, o verdadeiro
culpado, e responsável por colocar Sirius em Azkaban, a terrível prisão dos
bruxos.
Olhou novamente para o relógio. Eram quase nove horas. Guardou a carta
no taco solto e desceu para tomar seu café. Como era de se esperar, os Dursley
não lhe deram nem um simples bom-dia, mas isso já era comum demais para se
importar. Serviu-se de duas torradas e assim que ia passar manteiga, tia Petúnia
exclamou:
- Essas torradas não são para você, moleque! São para o meu Dudinha!
Se quiser alguma vá pegar você mesmo! – rugiu a tia.
Harry deu um breve suspiro e se levantou. Pegou duas torradas do fogão
e, aproveitando que já estava de pé, fez bacon para comer também. Mal começou
a fritá-lo quando ouviu passos do corredor. Só podia ser Duda, com sua papada
quíntupla de gordura. Chegou batendo o pé, ao ver o que tinha para comer.
- Como? Só isso de comida? Eu quero mais comida, pai! – disse
brandindo sua bengala da Smeltings, sua escola.
- Me desculpe, Dudoca, mas não pude ir no mercado comprar mais. Ando
muito ocupado com o meu pedido de brocas – respondeu o pai, servindo sua
torrada para o filho.
- Válter! – desaprovou Petúnia, inchando quase como um balão.
No ano anterior, Duda sofrera uma rigorosa dieta, porque a enfermeira da
escola disse que ele estava muito gordo, e precisava emagrecer urgentemente. Mas
a dieta não resultou em muita coisa, Duda continuava tão gordo quanto antes, e
a única coisa que a dieta fez foi deixar a família muito rabugenta. Agora,
eles se conformavam em dar um pouco menos de comida a Duda, na esperança que
ele aprendesse a controlar a fome.
- Vamos filho, coma logo. Lembra que eu disse que íamos ver a sua moto?
– disse tio Válter animado.
- Oba! É mesmo! – comemorou Duda, colocando um pedaço inteiro de pão
na boca. Harry pensou:
“Duda é muito gordo, parece um porco. Aposto que antes mesmo de subir
na moto, vai tombar para o lado”.
- Ande logo moleque! Ou se esqueceu que vai cortar a grama e lavar a
cozinha hoje? – gritou tia Petúnia, tão alto que até quem estava na esquina
poderia ouvir.
Harry engoliu tristemente o resto de sua torrada e tomou o leite de um
gole só. Levantou-se e rumou para o jardim, onde a grama precisava ser aparada
mesmo. “Daqui a pouco fica igual a casa dos Weasley” – pensou triste. Já
não agüentava mais ficar na Rua dos Alfeneiros, queria logo ver o melhor
amigo, mas graças a Dumbledore não podia.
Passou a manhã toda aparando a grama, sob um sol de queimar os miolos.
Entrou na cozinha suado, com os pés cheios de lama, e tia Petúnia ralhou mais
uma vez com ele:
- Ora moleque! Não entre todo sujo! Vamos, coma logo seu almoço e limpe
a cozinha! – e apontou para um prato onde tinha apenas dois ovos e um pedaço
de carne.
Harry engoliu seu almoço miserável e pegou o esfregão, para mais um
dia de trabalho. Passou o resto do dia no trabalho, enquanto observava pela
janela o tio ensinar Duda a andar de moto. Acabou tudo quando já era noite, e
subiu para tomar um banho rápido, antes de comer seu jantar.
O jantar não foi muito melhor que o almoço. A tia lhe dava tanta pouca
comida que se não fosse graças a Rony e Hermione, Harry provavelmente já
teria morrido de fome. Assim que acabou, subiu rápido e rasteiramente, antes
que a tia pudesse lhe lembrar de mais alguma tarefa. Entrou no seu quarto e
trancou a porta.
Levantou novamente a taboa do assoalho, e pegou de lá um rolo de
pergaminho e um pesado livrão, intitulado “História da Magia Avançada”.
Seu professor, o Prof. Binns, pedira uma redação de dois metros sobre a revolução
das veela, criaturas mágicas muito bonitas. Harry pegou uma régua e
mediu. Sua redação tinha apenas 45 centímetros. Ainda precisava escrever
muito para conseguir o tamanho pedido.
Passou a noite toda escrevendo, mas sem muito sucesso, afinal seus
pensamentos estavam muito longes dali. Estava pensando que em apenas algumas
horas estaria completando 15 anos, e só de pensar que não poderia comemorar
com os amigos, uma profunda tristeza o invadia. Acabou deitando na cama e ficou
fitando o teto. Sem perceber, acabou adormecendo.
Era uma sala escura e fria. Só se podia ver alguma coisa através de uma
lareira, que trepidava alegremente, sem ao menos saber o que acontecia naquela
sala. Só havia duas pessoas nela: Um homem gorducho e baixinho, e outro magro e
alto.
- E então Rabicho, conseguiu o que eu procurava? – perguntou uma voz gélida,
que estava sentado em uma confortável poltrona de veludo.
- N... na... não mestre! Eu falhei milorde, mas prometo que vou
conseguir, é só me dar mais tempo! – suplicava o homem gorducho,
completamente em pânico.
- Você não percebe que já lhe dei chances demais? Já estou cansado de
sua incompetência Rabicho! – rugiu Voldemort – Só não mando outro dos
meus seguidores fazer esse trabalho pois estão em missões muito mais
importantes, coisas que você nunca poderia fazer! E você ainda não me
consegue? É melhor você ir logo, antes que eu me arrependa de lhe dar essa
chance!
- S... sim mestre! – disse Rabicho se apressando para sair da sala.
Mas antes que Rabicho pudesse abrir a porta, Voldemort se levantou da
cadeira e mirou a varinha na direção do servo. Ele suplicava: “Não, não, não
mestre, por favor!”. Mas Voldemort nem quis escutá-lo, posicionou a varinha e
disse:
- Crucio.
Um grito ecoou pela sala, e uma dor intensa fez Harry Potter acordar, com a mão na cicatriz, que parecia arder em brasa. Tateou pelos óculos na mesinha, e os colocou, ainda suando frio. Estava desesperado.
“Uma pena, preciso de uma pena!” - pensou, se levantando correndo
para pegar um pergaminho e uma pena. Precisava escrever o sonho, enquanto ainda
estava nítida em sua mente as imagens. Assim que amanhecesse mandaria uma
coruja à Dumbledore, contando o ocorrido.
Alguns minutos depois, a dor finalmente passou. Harry passou a mão pelo
rosto, lívido e ainda muito suado. Olhou para o relógio e sentiu uma contração
engraçada na barriga. Completara 15 anos havia uma hora e estava dormindo no
momento, a primeira vez em anos.