Bela
Teu nome vem no vento e agita as cortinas
És essência diáfana
Uma fumaça de feminilidade cheirosa
És forte e persistente como a terra e o sangue.
Teu nome se torna um corpo em forma bela
Pisas o barro com pés pequenos e finos.
Estás na minha frente, na amplidão.
É um sonho.
Só existe você e o espaço
E é como se fosses um plano de existência
Em torno do qual gravito:
Mariposa entorpecido pela luz que me atrai
Contra a qual me debato,
E me machucas e me cortas
E meu sangue desce em gotículas amarelas
As quais lambes libertando-me de todas as feridas.
II
Em meu sonho me conduzes
E me levas a teus lugares secretos
Somos cúmplices,
Nem amantes, nem amigos,
Apenas cúmplices.
Nosso crime nos levar a penar continuamente
Em cenários de cortinas e véus,
solitários lado a lado
de pelos arrepiados
Miando como gatos
Nesta eterna madrugada.
Minha pele te arranha,
Minha barba te tortura
Tuas unhas me incendeiam
Nossas línguas se misturam
E nos perdemos nesta noite insana.
Como dois felinos boêmios e loucos
A assombrar a vizinhança
Que dorme enquanto vadiamos
III
Quando acordo és só a brisa.
Acaricias meu corpo
Teus dedos levemente tocam meus pelos
Escorregam pelos meus mamilos arrepiados
Brincam com a água que escorre no meu banho.
Me espionas e não te vejo.
Vens em volteios novamente e beijas minha nuca
Te procuro e te esvaias
E novamente de soslaio
Invades o meu espaço sem que eu possa te agarrar
Fluis por entre meus dedos
Fecho os olhos e te sinto por cada poro aberto.
És então silêncio.
Estás em cada canto da casa
Brincando e caçoando comigo.
Deito e te deitas a meu lado
Tuas mãos a brincar nas gotas d'água
Que escorrem por entre minhas coxas
Mas, como és vento e fuga
Não posso tocar-te
Nada mais que refém sou
Nada mais que sentir-te e desejar posso
Pois te vais quando queres
Para onde queres
Sem ao menos eu saber
Quando um dia
Tua chuva de abril
Voltará para me beijar em pingos.