CURSO DE CAPOEIRA MÍSTICA

DO MESTRE JORGE MELCHIADES

 

Você não precisa ser atleta, acrobata ou malandro, para desfrutar os prazeres da roda de CAPOEIRA MÍSTICA,

uma atividade  que resgata a manifestação espontânea, popular e comunitária da festa, do folguedo e do folclore.

 

 

            É claro que para aprender capoeira sempre é melhor contar com a assistência direta de um bom mestre ou professor e existem ótimos. Porém, se você não pode freqüentar academia ou não quer, faça uso das lições práticas e teóricas que estaremos fornecendo. Porém, não se avexe em consultar o seu médico familiar para saber até onde pode ir, porque ninguém do NUPEP se responsabiliza por acidentes ou problemas decorrentes da sua prática. Feito isso, reúna a família e amigos ou treine sozinho. Comece arrastando os móveis da sala ou improvisando um espaço mais ou menos igual a uma pequena pista de dança. Coloque um CD de músicas de capoeira para rodar e...Dance, dance e dance, mansa, lenta ou freneticamente, mas seguindo as instruções da ginga que oferecemos hoje. Ah, se você ainda não tem o Cd apropriado, pode adquirir um entre os excelentes que estão a venda. É provável que você possa adquirir também, brevemente, um que já começamos a gravar: “Brincando de jogar capoeira”. Vamos lá? Se achar conveniente faça um quadrado no solo, com fita adesiva colorida ou giz, como na figura 1...A medida? Ah sim! Use para a distância de cada lado, a mesma medida que você tiver de um ombro a outro, acrescida de mais uma terça parte.

 

 

AULA 1: A GINGA

 

            È a posição de guarda da capoeira e serve de base para todos os movimentos durante o jogo: para o deslocamento, defesas e ataques. É um movimento do corpo para os lados e para trás, numa espécie de vaivém que se configura em passos de dança, sempre no ritmo da música e do berimbau. Para começar a treiná-la, fique em pé naturalmente e com as pernas separadas o suficiente para manter-se confortável com os pés sobre os pontos A e B do quadrado (1). Mantenha-se bem relaxado física e mentalmente, joguem o peso do corpo totalmente para um lado, o direito, por exemplo, flexionando levemente o joelho direito (2). Leve o pé esquerdo para trás, num semi círculo, até o ponto C do quadrado, ao mesmo tempo que o braço esquerdo é levado até a altura do rosto pra protegê-lo e ao corpo. O braço direito fica solto, relaxado e meio flexionado ao lado do corpo, sendo levado um pouco pra trás no balanço (figuras 3 e 4). Retorne o pé esquerdo ao ponto B, desloque o peso do corpo para a perna esquerda flexionada (figura 5). Isto é muito importante para provocar um deslocamento que produz uma finta interessante quando se está lutando. Tem capoeirista que movimenta muito as pernas e braços mas o corpo quase não se desloca, constituindo-se em um alvo fixo. Repita o movimento anterior do lado esquerdo (figuras 6 e 7) e continue repetindo ambos os movimentos alternados e seguidamente, colocando neles muito ritmo, balanço e molejo. Se treinar com parceiro, procure sincronizar seu gingado com o dele, tomando-o pelas mãos e recuando a perna esquerda quando ele afastar a direita, como mostram os contra-mestres Anjo, que já foi Bojão (Celso Bersi) e Wellington, nas figuras 8 e 9. Mas, sempre lembrando: com jeito, graça e molho, muito molho.

 

 
 

 

 

 

AULA 2: MEIA LUA DE FRENTE E COCORINHA

 

 

Agora que você já aprendeu o movimento básico da ginga, já poderá experimentar novas situações do jogo da capoeira.

 

AQUECIMENTO: Sempre  é bom dedicar a primeira quarta parte do tempo do treino ao aquecimento, para evitar dolorosas distensões musculares e câimbras. Nele o leitor poderá fazer exercícios de alongamento, o que é ótimo. Porém, também poderá obter resultados satisfatórios, gingando inicialmente num ritmo lento e gradualmente dando amplitude aos passos e movimentos dos braços, do corpo e da cabeça.

            Ao gingar, leve o pé bem atrás, de modos que precise dobra um pouco mais os joelhos e abaixar o corpo. Se você já adquiriu um Cd de capoeira, coloque numa faixa com o ritmo de Angola, que costuma ser lento. Se não adquiriu, então improvise, mas não deixe de dançar.

            Nos minutos finais do aquecimento, passe a gingar um pouco mais rápido. Para tanto mude de música. Use uma faixa de São Bento Grande e procure “inventar” durante a ginga, mas sem perder o ritmo, o molho, a malandragem. Pare de repente, com os pés unidos, faça um pião, dê pulinhos com os pés juntos, para frente, lados e para trás... Ria. Alegre-se com o quem puder fazer. Seu parceiro de treino deverá inventar também e ambos devem procurar “afinar”, na dança, uma parceria que nada mais é do que uma deliciosa cumplicidade lúdica.

 

A COCORINHA: É o desvio que pode ser visto na demonstração do contra-mestre Wellington, na figura 5. É um movimento de esquiva frente a ataque vindo do alto, visando atingir lateralmente a cabeça ou a face. Você ginga e abaixa-se, deixando-se cair na posição conhecida como de cócoras e com o braço levantado protegendo a cabeça, do lado onde supõe que o golpe venha.

           

Faça cocorinha algumas vezes, sem forçar nada. Vá devagar, mas vá sempre. Movimento correto é sempre aquele que você pode fazer descontraído em um dado momento. Não tenha pressa...

 

A MEIA LUA DE FRENTE: Também deve ser  praticada na seqüência da ginga. Se você não tem parceiro para treinar não se preocupe. Com um sorriso de pura malícia convide uma cadeira para ser sua parceira. Em certos casos ela será a melhor companhia, porque não quer ser MELHOR do que você e por isso não o atingirá traiçoeiramente ou “sem querer”, nem ser tornará violenta ou o deixará na mão. Faça o movimento demonstrado pelo contra-mestre Anjo sobre a cadeira, o com o parceiro caindo em cocorinha, conforme mostram os dois contra-mestres na foto.

 

            Com o parceiro, a ginga deve ser sincronizada, e quando você tiver o pé direito ligeiramente recuado, eleve-o numa curva ascendente que se completa num semi-círculo e vai até a frente da outra perna e retorna ao ponto de origem. Faça o mesmo do outro lado, enquanto o parceiro faz cocorinha. Ao abaixar-se, não perca o outro de vista e levante-se rapidamente, assim que o pé dele passar. Repitam os movimentos revezando as posições e com cuidado para não se machucar.

            Ah! Antes que me esqueça, se você tem dificuldade de levantar  a perna, ao invés de uma cadeira use um balde ou um tijolo. Se não puder descer na cocorinha, balance o corpo e dobre as pernas. Tudo o que importa na CAPOEIRA MÍSTICA é que você FAÇA ALGO JUNTO co  outros, se movimento e divirta-se com parceiros, amigos e familiares. Seja qual for o seu estado físico, saiba que se estiver movendo-se com amigos queridos, terá sempre uma melhora gradual e sensível na capacidade de se mover, com o tempo.

 

 

 

AULA 3: BÊNÇÃO

 

 

 

Você já aprendeu a realizar um breve aquecimento com os movimentos básicos da ginga, e a realizar a meia lua de frente e a cocorinha. Agora, iremos incluir no repertório dos golpes a BÊNÇÃO. É uma espécie de pisão desferido na altura da linha de cintura ou tórax, do companheiro, que quando o pega desprevenido derruba-o. Se você tiver uma cadeira, um balde ou um tijolo, como companhia para treinar, deve realizar este movimento por cima desses objetos. Se tiver um parceiro, “ao vivo”, ao gingar com ele dê a benção enquanto ele simplesmente afasta-se na ginga. Mais tarde teremos outras alternativas. Os desenhos acima falam por si. Estude-os atentamente e pratique revezando o “ataque” e a “esquiva afastada” com o companheiro. Gingue bastante, dance enquanto realiza os movimentos e não esqueça de divertir-se bastante, do contrário o treino não tem graça, não é?

 

AULA 4: A NEGATIVA DEFENSIVA

 

Parte prática

 

            Suponho que o leitor já tenha aprendido a se aquecer, a gingar, a meia-lua de frente, a cocorinha e a benção. Hoje aprenderá a esquivar-se um ataque vindo pelo alto executando a negativa defensiva. Se o leitor tiver companheiro de treino, deve começar a treinar com ele o aprendido até agora, na seqüência e sem interrupção:

a) ambos gingam;

b) um faz a meia-lua de frente e o outro desce na cocorinha;

c) ambos voltam a gingar e revezam os movimentos;

d) gingam de novo;  

e) um faz a bênção e o outro.., vai aprender a sair na negativa.

 

Viram? Já estão Jogando um pouco de capoeira! Continuem aprendendo e treinando que em breve iremos combinar o batismo de vocês numa roda de capoeira Mística. Ah, se o leitor não tiver parceiro, não ligue. Jogue com a cadeira, com o balde ou com o tijolo, usando a Imaginação e como se jogasse com alguém. Com o parceiro siga os desenhos realizando tudo muito lentamente. Ambos só deverão aumentar a velocidade quando tiverem dominado um sincronismo seguro.

 

1) Quando o outro avança a perna direita, para aplicar uma benção com a esquerda, você pressentido o que vem, recua levando o pé direito para trás e protegendo o rosto como braço direito:  (2 e 3) Deixe o corpo pender para o lado esquerdo. até apoiar a palma da mão no solo e sentar-se sobre o calcanhar direito, mantendo a perna esquerda estendida. Tenha o cuidado de não deixar o polegar em oposição à palma da mão e sim ao lado do dedo indicador, para não lesioná-lo e mantenha o corpo inclinado para a frente, em típica negativa da capoeira Regional. 4) Comece a levantar-se puxando o calcanhar do pé esquerdo para perto do corpo e apoiando-se nele, passe a perna direita sobre ele e vire o corpo pare o lado esquerdo; 5) Apóie a mão direita no solo, à sua frente e levante o quadril, olhando o outro por baixo e entre as próprias pernas. Esta posição, embora considerada suspeita pelos machões, é ponto de partida para vários golpes traumatizantes e desequilibrantes, Por ora, levante-se! adote a postura inicial e volte a gingar. Pratique bem toda seqüência e até outra vez,

 

Parte Teórica

         Já vimos que, se não queremos apenas repetir o que outros dizem, observamos a roda de capoeira e analisamos com cuidado o que vemos, para entender o que é essa manifestação popular, de origem afro-brasileira. Na aula passada, verificamos que diante de uma roda de capoeira vimos varias pessoas postadas em círculo, batendo palmas, cantando em resposta ao “puxador canto”, tocadores de berimbau, atabaque, pandeiro ou outros instrumentos. Dois outros, realizam movimentos no centro da “roda”, que SIMULAM uma luta, pois evitam acertar os pés e as mãos no outro. Após vários dos presentes se revezarem no interior da roda, cantarem, tocarem e brincarem, se vão embora, Não há contagem de pontos, ninguém tem o braço levantado ou é declarado vencedor. Aliás, no fim de tudo parece que todos ganham. Se várias pessoas integram esse folguedo, não podemos dizer que capoeira é só uma dança ou urna luta de dois, pois isso indicaria pouca VISÃO ou DESPREZO pelo coletivo, além de SURDEZ para o canto, toques de instrumentos, coro e risos,,, O que é, então, capoeira?

VEJA... se não somos papagaios e dizemos querer resgatar as raízes da autêntica capoeira, devemos também observar os DOCUMENTOS HISTÓRICOS e os documentários sobre os negros africanos, que foram escravizados e trazidos para o Brasil Colonial. Neles, verificamos que semelhantes aos indígenas brasileiros, praticavam RITUAIS, entendidos como encenações individuais ou COLETiVAS, destinadas a atrair chuva. a apaziguar divindades, a atrair proteção de entidades místicas para as guerras contra outras tribos, ou até para rememorar combates em que a tribo saiu vitoriosa ou perdeu... Um RITUAL é conjunto de práticas que revestem de cultura os esquemas instintivos “herdados” dos ancestrais. Alguns psicólogos e filósofos chamam a estrutura dos rituais de arché ou arquétipo, mas é, em última análise, uma estrutura mais ampla de funcionamento das coisas naturais. Então, nos rituais coletivos é comum às pessoas se colocarem em círculo pala se observarem, enquanto dialogam, fazem refeições, festejam, comemoram e dançam, para a guerra e SIMULANDO combates com o inimigo de FORA da tribo... Este é um aspecto muito significativo do ritual coletivo, que normalmente possui a função INTEGRADORA e aglutinadora de TODOS os membros da tribo... Ora, se a primitiva capoeira começou com a função do ritual. de aglutinar, sociabilizar e amparar indivíduos de uma mesma tribo... cor, ou que padeciam de idêntica opressão, a quem interessaria  DIVIDI-LA em pedaços, passá-la como luta e relegar ao DESPREZO a prática cultural e aglutinadora do negro?

            Bom, novas reflexões ficam para outra vez...É bom dar tratos à bola, pensar e pensar para argumentar a favor ou contra o que expusemos, sem IGNORAR também que pesquisar e estudar são atividades muito importantes! Não para repetIr o que outros dizem, porque não somos papagaios nem “Maria vai com as outras”, mas para aprender com quem expõe idéias razoáveis e para verificar se os documentos, realmente, confirmam ou negam a tese que levantamos, após observar e analisar o que vimos.

 

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