Lição do plebiscito

E.C.10

 

 

Gilberto Procópio Lima

 
 

1.  Pra emancipar um distrito

O povo em plebiscito

Deve ser consultado.

Pra consulta ser correta

Ela tem que ser aberta

E o povo orientado.

2.  Os senhores deputados

Do legislativo do estado

Devem assim agir.

O povo orientando

E mais que isto zelando

Pra tudo certo sair.

3.  De tanto ser maltratado

E até discriminado

Levantou-se o Rincão.

Preparou a papelada

E como orquestra afinada

Queria a emancipação.

4.  Cumpriu todo o requisito

Mas faltava o plebiscito

A Assembléia resolvia:

Setembro seria o mês

Do ano dois mil e três

No décimo quarto dia.

5.  Fizeram a divulgação

Com muita empolgação

Nada ficou pra depois

Era bom para o Rincão

Pra Içara também era bom

Era melhor para os dois

6.  De cara são conquistados

Políticos de todos os lados

Não havia oposição.

Tudo estava acertado

Ninguém estava errado

Nenhum apoiava o “não”.

7.  Uniram-se as vontades

Pensando com igualdade

“Melhor a separação.

Se ele só dá prejuízo

Que Içara crie juízo

Deixe ser livre o Rincão.”

8.  O Rincão estava certo:

“Se ninguém me quer por perto

Deixe-me ir pra outro lado.

Penso no bem maior

Sozinho é bem melhor

Do que mal acompanhado.”

9.  Parecia ditadura

Câmara e Prefeitura

Só divulgavam o “sim”

E o povo contrariado

Começou a achar errado

Todos pensando assim.

10.  Se um filho fala ao pai

Aqui eu não fico mais

Dizem que só dou despesa.

Um pai que é amigo

Pondera: “Trabalhe comigo

Ajude a encher nossa mesa.”

11.  Já um pai inconseqüente

Agindo inconsciente

Sem qualquer contemplação.

Auxilia a ir embora

O filho que não adora

Despacha a incomodação.

12.  Se o Rincão era prejuízo

É porque ninguém com juízo

Quis tratá-lo como igual.

Nunca foi aproveitado

Jamais foi explorado

Seu grande potencial.

13.  Mas surgiu um problemão

Como divulgar o “não”

Se já chegava o dia.

“Como mostrar, diz o Teda

O outro lado da moeda

Se isto ninguém permitia? “

14.  O Guegué tentou comprar

Um out-door pra mostrar

Qual era a sua posição.

Não conseguiu espaço

Criaram muito embaraço

Não podia dizer “não”.

15.  O Escaravaco desenhou

Três faixas e pendurou.

Mas meia hora depois

Foi conferir o serviço

Nas faixas deram sumiço

E ninguém sabe quem foi.

16.  O Teda desesperado

Tentou, por outro lado

Escrever para os jornais

Não teve qualquer sorte

Questão de vida ou morte

O “não” aqui jamais.

17.  O Valterney escreveu

Mas nenhum jornal lhe deu

A devida atenção.

Pouco importa o argumento

Aqui em nenhum momento

Pode surgir o “não”.

18.  O Teda achou uma brecha

E partiu como uma flecha

Pro artigo difundir.

Pagou pra ver publicado

O seu desabafo inspirado.

Ninguém pôde impedir.

19.  Todo mundo então gostou

Do que ele ponderou

De forma sensacional.

O “não” passou a crescer

Nas ruas dava pra ver

O comentário geral.

20.  A idéia se espalhava

Porém isto não bastava

Era preciso algo mais.

Surgiu então o panfleto

E aquele pequeno folheto

Fez o papel dos jornais.

21.  O Ladair, o “Abelheiro”

O Pedro Marques, ligeiros

Começaram a espalhar.

O folheto uniu então

Quem pensava dizer “não”

Que passaram a conversar.

22.  Dentro do Bar do Nilão

O pessoal do Rincão

Reclamou um certo dia

Que aquela turma do “não”

Semeava confusão

E ali se reunia.

23.  Então a todo momento

Vinha o patrulhamento

E o bar logo se enchia.

Porém havia outros ninhos

O Nem, oTaz , o Klebinho

Restaurantes e pizzarias.

24.  Mas havia necessidade

De espalhar a novidade

A todo povo de Içara:

“A força está na união

Devemos dizer o não

Pois quem ama não separa.”

25.  O Gilmar do Foto Axé

Disse com a maior fé

Causando grande frissom:

“A correta abordagem

Pra espalhar a mensagem

É com um carro-de-som.”

26.  A mensagem foi gravada

O carro caiu na estrada

Pouco tempo trabalhou.

A patrulha dá um recado

E o motorista assustado

Pra Fumaça retornou.

27.  Enquanto o panfleto corria

A imprensa promovia

Um comício arrasador.

Vieram os deputados

Políticos amontoados

E até o governador.

28.  Uma pergunta avulta:

“Se plebiscito é consulta

Para o povo definir

Por que é que deputados

Oriundos de outros lados

Vieram interferir?”

29.  Se a Assembléia queria

Uma resposta sadia

Pelo “sim” ou pelo “não”

Deveria ter atuado

Pra que todo deputado

Agisse com isenção.

30. O “sim” então passou

E o Rincão comemorou

Numa festa sem igual.

Mas eis que surge a Justiça

Levantando a premissa

De que foi tudo ilegal.

31. Será que a Assembléia sabia

Ouvindo a procuradoria

E quis fazer pilhéria?

Se não sabia, foi incompetente

Se sabia, foi inconseqüente

Com uma coisa muito séria.

32. Um político sensato e probo

Não faz o povo de bobo

Pois surgirá a verdade.

Mas uma lição vai ficar:

“Que Içara aprenda a cuidar

De cada comunidade.”

 
 

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