O Rádio

E.C.01

 

 

Derlei Catarina De Luca (histórias de Abílio Cardoso)

 
 

Getúlio assumira o poder e fazia grandes discursos comentados por todos. Pouquíssimas pessoas tinham rádio que funcionava a bateria. Eram enormes e verdadeiros móveis exibidos na sala de visitas.

As notícias por aqui, chegavam pelo telégrafo da estação do trem ou pelo Correio Rio Grandense, um semanário que muitos assinavam.

A VOZ DO BRASIL tinha sido instituída e a nação gostava de ouvir os feitos da pátria que orgulhava a todos. Eram tempos em que se cantava:  

Grande, muito grande,

Pela terra e pela gente,

Dia a dia mais se expande,

O Brasil, a gloria e a gente.

Não há mais formosa

Terra que a do Cruzeiro

Não há gente mais briosa

Do que o povo brasileiro

 

Os amigos comentavam a necessidade de adquirir um rádio.

Abílio resolveu fazer uma brincadeira com os amigos. Avisou a todos que ia comprar um. Pegou o modelo de uma revista, estudou, fez os móveis na marcenaria parecidos com o da revista. Desmanchou uma balança que sua mãe usava para pesar trigo, tirou o fiel da balança e dela fez o dial para o rádio.

E estrutura externa tinha um metro e meio de altura, de madeira caprichosamente envernizada. Arrumou fios e tomadas. Avisou os amigos que o rádio eventualmente poderia falhar por que a luz da serraria do Antonio Fermo era fraca, mas ia tentar assim mesmo.

Combinou com o amigo Casimiro Raicik para ser o locutor. Para dificultar o reconhecimento, Casimiro só falaria em polonês que os amigos pouco entendiam. Programaram os discursos e músicas tocadas no violão. Construiu uma parede de madeira na oficina com um buraco no meio e encostou o rádio na parede.

Chamou os amigos: Antoninho e Lauro Lima, comerciantes vizinhos, Cazuca, que era coletor e vários outros para inaugurar o rádio. Ligou o rádio, mexeu no dial, localizou a estação e conforme o combinado Casimiro começou a falar em polonês.

Os Lima não entendiam polonês e pediram para mudar de estação, mas não adiantava mexer no dial. Só pegava uma estação. Abílio alega que o rádio estava com defeito e ia reclamar com o vendedor.

Casimiro encerra a falação e começa a tocar violão. Enquanto ele falava o som saiu direito, mas quando começou a tocar violão o som se espalhou por toda a oficina.

Desconfiado Cazuca sobe numa cadeira e começa a examinar por cima do rádio e da parede descobrindo o engodo começando a rir sem parar.

---É tu é? disse Cazuca para Casimiro que saiu enraivecido, jogou o pretenso rádio nos trilhos e ficou dois meses sem falar com os amigos.

 
 

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